|
CIDADÃO DO
MUNDO – CIDADÃO DO REINO
Centenário de nascimento do Bispo Sante Uberto Barbieri
Sante
Uberto Barbieri nasceu em Dueville, província de Vicenza, no Vêneto,
ao nordeste da Itália, em 2 de agosto de 1902. Chegou ao Brasil com 8
anos, em 16 de julho de 1911. Sua família fez parte de um dos mais
extraordinários fluxos de população, que entre o final do século XIX
e primeira metade do século XX jorrou para fora da Itália cerca de 24
milhões de imigrantes. Suas memórias, registradas ao longo da vida,
nos revelam uma bela história.
“De
que nacionalidade é você? Perguntam as pessoas que não me
conhecem. E, francamente, às vezes desejo saber se eu posso dar a
resposta exata. Alguém pode dizer: mas você não sabe onde nasceu? Claro que sim. Mas minhas andanças
foram tantas que eu acho difícil dizer que pertenço a este ou àquele
país. Cada vez mais eu me sinto um cidadão
do mundo”.
Logo
na infância conheceu o preconceito nacionalista, como rememora em sua
poesia “Estrangeiro”. Esta palavra, que lhe foi
pronunciada com desdém por ser diferente, qualificou de “odiosa” e
“dura”. Contudo, herdeiro de um ousado estilo de vida dos pais
anarquistas, amantes da liberdade e lutadores pela justiça, Barbieri
superou estes e outros reveses ao longo de sua vida.
A
partir de sua experiência com Cristo a convicção de cidadania
universal sedimentou-se. Em sua palavra ao 10° Concílio Geral, em Belo
Horizonte, 1970, destacou: “Quando eu, peregrino que tenho sido no
mundo, senti a minha orfandade nacional, um estrangeiro em toda parte,
encontrei em Jesus o meu irmão universal, e, em seu Reino, a minha
cidadania, a qual por ninguém me pode ser tirada.”
Em
1921 o missionário metodista em Passo Fundo, RS, Rev. Daniel Lander
Betts, conheceu Barbieri. Este, aos 19 anos, proferia conferências no
auditório da Prefeitura municipal. Seus temas: a “Liberdade”, em
honra da Revolução Francesa; a “Caridade”, baseado em teses sobre
a defesa da dignidade humana. Logo Betts percebeu seu potencial e o
convidou para continuar seus estudos e trabalhar no Instituto Gymnasial,
colégio metodista recém fundado naquela cidade (1920).
Barbieri
reconheceu que à época “era um jovem agnóstico, um livre pensador,
imbuído de idéias revolucionárias”,
simpatizante dos ideais anarquistas de seus pais; não tinha portanto
nenhum interesse em qualquer aspecto da religião. Contudo, não tinha
ele condições de perceber ainda, o quão próximo estava, por seus
ideais de liberdade, justiça e defesa da dignidade humana, do
cristianismo, da teologia wesleyana e da tradição metodista. Aos
poucos foi se integrando com a leitura da Bíblia e conheceu as práticas
e a piedade metodista.
Conta
que ao conseguir sua primeira Bíblia, começou a leitura pela epístola
de João, onde encontrou a definição: “Deus é amor” (1Jo 4.8).
Depois deparou-se com Cristo, como relembra: “...encontrei o
carpinteiro Jesus, encarnação desse amor em seu trato com o ser
humano... muito mais digno do que aquele dos meus filósofos e dos
ideais políticos de meus pais. A violência devia dar lugar ao amor. Não
foi nenhum pensamento sobre a deidade de Jesus que me atraiu, senão seu
amor à humanidade.”
Em
pouco tempo, diante daquele impacto com Cristo, o “jovem agnóstico”
estava vivendo uma profunda inquietação existencial, conforme
descreve: “Em um certo entardecer, enquanto os raios do sol estavam
morrendo por sobre as ondas do mar, em Santos, Brasil, justamente só
alguns meses antes de meu pai morrer, eu estava caminhando com ele ao
longo da praia. Eu sempre tive uma tremenda paixão pelo mar e nunca
deixei de admirar o seu maravilhoso mistério. Posso ficar horas e horas
ouvindo sua voz murmurando e olhando seus movimentos incessantes.
Enquanto admirava aquele maravilhoso pôr do sol, eu comentei com meu
pai: ‘Você poderia acreditar que toda essa maravilha é mero produto
do acaso?’ Ele olhou-me espantado e disse: ‘Você cogita com esta
pergunta que poderia haver um Deus? Você se deixou influenciar por
algumas idéias religiosas?’ Eu respondi: ‘Não posso lhe afirmar
com certeza. Mas é difícil eu acreditar que tudo aquilo que há no
mundo só exista por mero acaso.’ Então o silêncio caiu entre nós e
não falamos mais. As sombras da noite nos encontraram olhando longe o
horizonte, onde o céu encontra o mar...”
Assim,
sua relação com Cristo e com o metodismo evoluiu passo a passo, como
ele mesmo reconhece: “...fui conduzido por mão invisível e
gradualmente, sem que percebesse Quem me guiava. Nunca tive uma experiência
surpreendente, súbita, que sacudisse minha consciência. Tudo foi coisa
natural e quase de modo sensível. O que me impactou foi a figura de
Jesus em seu trato com os seres humanos...”
No
primeiro domingo de abril, de 1923, Barbieri foi recebido como membro da
Igreja Metodista em Passo Fundo. Três meses depois, recebeu da Conferência
Distrital de Cruz Alta a credencial de “pregador local”. Em 1926 foi
o primeiro aluno a formar-se pelo Porto
Alegre College, Bacharel em Artes e Teologia. Mais tarde obteve grau
de Mestre em Antigo e Novo Testamento, na Southern
Methodist University e na Emory
University, nos Estados Unidos, de onde voltou ao Brasil em 1933
para dirigir a Faculdade de Teologia do Concílio Regional do Sul.
Barbieri
foi ainda o primeiro reitor da Faculdade de Teologia da Igreja
Metodista, criada pelo 3º Concílio Geral, em fevereiro de 1938, a qual
dirigiu nos primeiros passos de implantação até outubro daquele ano,
quando se demitiu por divergências com o Conselho Superior. Um ano
depois deixou definitivamente o Brasil, passando a servir a Missão
Metodista no Uruguai e Argentina.
Em
Buenos Aires foi reitor do Union
Theological Seminary, tendo sido eleito Bispo pela Conferência
Central Metodista da América Latina, em 1949. Como Bispo da United Methodist Church, dirigiu
as Igrejas da Argentina, Bolívia, Uruguai e Peru, até suas respectivas
autonomias. Em 1949 foi presidente da Primeira CELA - Conferência Evangélica
Latino-americana; posteriormente em 1954 foi eleito presidente do CMI -
Conselho Mundial de Igrejas. Na década de 1970 ajudou a fundar o CIEMAL
- Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina e foi
um dos principais articuladores da organização do CLAI - Conselho
Latino Americano de Igrejas.
Barbieri
faleceu em 13 de fevereiro de 1991, em Buenos Aires, Argentina. Deixou
uma extensa obra literária, com mais de oitenta livros publicados em
português, inglês, espanhol e italiano, compreendendo teologia,
poesia, prosa, novelas e contos.
Desta
forma o Bispo Barbieri foi um cidadão do mundo e um cidadão do Reino.
Nosso reconhecimento à sua vida e obra no metodismo brasileiro,
latino-americano e mundial.
Outros
detalhes da biografia estão disponíveis em: www.biografiahistoria.hpg.com.br
Rev.
Luis de Souza Cardoso
(Mestre em Ciências da
Religião – UMESP; Doutorando em Educação – UNIMEP)
|