Diário de Wesley, abril de 1737

 

 



Domingo, 3 de abril. Hoje e todos os dias desta importante e santa semana, tivemos um sermão e a Santa Comunhão [e pelo menos doze comungantes].

 Segunda-feira, 4. Comecei a aprender espanhol, a fim de conversar com meus paroquianos judeus, alguns dos quais parecem mais pertos da mente que estava em Cristo do que muitos dos que o chamam de Senhor.

 Terça-feira, 12. Estando determinado, se possível, a botar um fim nos procedimentos de alguém na Carolina, que tinha feito o casamento de vários de meus paroquianos sem proclamas ou permissões, e declarado que continuaria agindo assim, parti em uma chalupa para Charlestown. Desembarquei lá na quinta-feira, e relatei o caso ao Sr. Garden, [ministro de Charlestown e] bispo da Delegação de Londres, que me assegurou que cuidaria para que semelhante irregularidade não mais fosse cometida no futuro. 

Domingo, 17. Desejando o Sr. Garden (a quem sempre serei grato por muitos gentis e generosos préstimos) que eu pregasse, assim fiz, sobre estas palavras da Epístola do dia: “Todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” [1Jo 5.4]. A esse claro relato da condição cristã que estas palavras naturalmente me levaram a apresentar, um homem de cultura e caráter objetou com seriedade (o que de fato é uma grande verdade), “Ora, se isto for Cristianismo, então um cristão deve ter mais coragem do que Alexandre o Grande.”

 Terça-feira, 19. Deixamos Charlestown, mas, deparando com ventos tempestuosos e contrários, após perder nossa âncora e forçar nossa passagem contra o vento em alto-mar a noite inteira, na quinta-feira, dia 21, voltamos, com alguma dificuldade, para o porto de Charlestown. 

Sexta-feira, 22. Sendo a época da visitação anual, tive o prazer de receber [na casa do Sr. Garden] os clérigos da Carolina do Sul, entre os quais, à tarde, houve uma conversa de várias horas sobre “Cristo Justiça Nossa” como nunca tinha visto em todas as visitações na Inglaterra nas quais estive presente, nem mesmo em nenhuma outra ocasião.

 Sábado, 23. Comentando com o Sr. Thompson, ministro da igreja de São Bartolomeu, perto de Ponpon, sobre o meu desapontamento com uma travessia pela água para casa, ele me ofereceu um de seus cavalos, se eu quisesse ir por terra, o qual eu alegremente aceitei. Ele foi comigo vinte milhas, e enviou seu servo para me guiar as outras vinte para sua casa. Encontrando uma jovem negra lá, que parecia mais sensível do que o restante, eu perguntei quanto tempo ela tinha estado na Carolina. Ela disse dois ou três anos, mas que tinha nascido em Barbados, e vivido lá na família de um filho do ministro. Eu perguntei se ela ia à igreja lá. Ela disse, “Sim, todos os domingos, para levar os filhos de minha senhora.” Eu perguntei o que ela tinha aprendido na igreja. Ela disse, “Nada: eu ouvia um pouco, mas não o entendia.” “Mas o que seu senhor ensinava a você em casa?” “Nada.” “Nem sua senhora?” “Não.” Eu perguntei, “Mas você não sabe que suas mãos e pés, e isto que você chama de seu corpo, retornará ao pó em pouco tempo?” Ela respondeu, “Sim.” “Mas há algo em você que não retornará ao pó, e é o que chamam de sua alma. Na verdade, você não consegue ver sua alma, embora ela esteja dentro de você; assim como não consegue ver o vento, embora ele esteja por toda parte. Mas se você não tivesse uma alma em seu interior, você não poderia enxergar, ou escutar, ou sentir, mais do que pode esta mesa. O que acha que acontecerá à sua alma quando o seu corpo retornar ao pó?” “Eu não sei.” “Ora, ela sairá de seu corpo, e subirá para lá, acima do céu, e viverá para sempre. Deus vive lá. Você sabe quem é Deus?” “Não.” “Você não pode vê-lo mais do que pode ver sua própria alma. Foi Ele quem nos criou, e todos os homens e mulheres, e todos as bestas e pássaros, e todo o mundo. É Ele quem faz o sol brilhar, e a chuva cair, e os cereais e as frutas brotarem da terra. Ele faz todas estas coisas para nós. Mas por que você acha que Ele nos criou? Por qual motivo Ele nos criou?” “Não tenho idéia.” “Ele criou você para viverem juntos nos céus. E assim você irá, em pouco tempo, se for uma boa pessoa. Se for uma boa pessoa, quando seu corpo morrer, sua alma subirá e não sentirá falta de nada, e terá tudo que puder desejar. Ninguém irá bater ou machucar você lá. Você nunca ficará doente. Nunca mais se lamentará, nem temerá coisa alguma. Não posso dizer pois não sei quão feliz você será, pois você estará com Deus.”

 A atenção com que esta pobre criatura ouvia à instrução é inexprimível. No dia seguinte ela se lembrou de tudo, prontamente respondeu cada pergunta, e disse que pediria Àquele que a criou para mostrá-la como ser uma boa pessoa.

 Domingo, 24. Preguei duas vezes na capela de Ponpon [a congregação em Ponpon tinha 70 membros], sobre o décimo terceiro capítulo da Primeira Epístola aos Coríntios. Ó, como até mesmo estes homens da Carolina, que percorrem oito, dez ou doze milhas para ouvir o Evangelho, ressurgirão para julgar aqueles que não o ouvem, quando ele é pregado em suas próprias portas!

 Quarta-feira, 27. Cheguei na fazenda do Sr. Belinger em Chulifinny, onde a chuva me deteve até sexta-feira. Aqui eu me encontrei com uma meio índia (alguém que tinha uma mãe índia e um pai espanhol), e alguns negros, que estavam muitos desejosos de instrução. Um deles disse, “Quando estava em Ashley Ferry, eu ia à igreja todo domingo, mas aqui estamos isolados no mato. Ainda se houvesse uma igreja a cinco ou seis milhas, sou tão manco que não poderia caminhar, mas eu me rastejaria até lá.”

 O Sr. Belinger enviou um jovem negro comigo para Purrysburg [na sexta-feira], ou, antes, para as suas pobres ruínas [uma cidade sem a aparência de uma cidade, sem forma, beleza ou simetria]. Ó, como Deus estendeu sobre este lugar “o cordel de confusão e nível de vaidade” [Is 34.11]! Ai daqueles cujas vidas foram aqui desprezivelmente desperdiçadas, pela opressão, pelas várias pragas e desgraças! Ó, terra! Quanto tempo esconderá o sangue delas? Quanto tempo cobrirá teus mortos! 

Também este jovem encontrei muito desejoso e suscetível de instrução. E talvez uma das maneiras mais fáceis e rápidas de instruir os negros americanos no Cristianismo seria, primeiro, investigar e descobrir alguns dos mais sérios dos fazendeiros. Então, tendo indagado a eles quais de seus escravos estavam mais inclinados e entendia o Inglês, ir a eles de fazenda a fazenda, ficando o tempo que parecer necessário em cada uma delas. Três ou quatro cavalheiros na Carolina com quem estive, que estariam sinceramente felizes de tal ajudante, que poderia exercer sua obra sem quaisquer outros impedimentos além de em todo lugar estar presentes à pregação do Evangelho.

 Sábado, 30. Vim [de barco] para Savannah, e encontrei meu pequeno rebanho numa situação melhor que poderia ter esperado, tendo Deus muito se agradado de abençoar os esforços de meu cooperador [Delamotte], enquanto me ausentei deles.

_______________

Tradução: Paulo Cesar Antunes

http://www.metodistasonline.kit.net/