No
processo de implantação e desenvolvimento desta nova
configuração e vivência da Igreja surgem muitas questões
teóricas, teológicas, bíblicas e práticas. Como sair
de uma "igreja de cargos e poderes" para uma
"igreja de ministérios?" Primeiras
Reflexões Dons e
Ministérios apresenta um "sopro" do Espírito
junto ao povo metodista. É uma nova dinâmica para a
vida do cristão e da Igreja. Somos despertados a uma
renovação de fé e vida através dos Dons e Ministérios.
O Senhor, através do Espírito, tem concedido ao cristão
e à Sua Igreja Dons que objetivam o exercício de um
Ministério. Os "dons" são conferidos segundo
o propósito de Deus, a realidade e as necessidades das
pessoas, comunidade da fé e do mundo. Existem como
expressão de serviço ministrado em nome de Cristo e no
poder do Espírito Santo. Para nós,
cristãos, "dons" significam "serviço".
O centro da vida cristã é Cristo. Tudo na expressão da
vida cristã deve visar à g16ria, ao louvor, ao Senhorio
e à continuidade da Missão de Cristo em SERVIR as
pessoas e o mundo. Tudo quanto recebemos de Deus não
deve ser motivo de orgulho, mas de louvor ao Senhor e
Serviço ao Seu nome e ao próximo. O Espírito
Santo confere dons às pessoas e à Igreja visando não a
nossa glória, o nosso orgulho ou a nossa ação de
dominação... mas o "exercício do ministério". O primeiro
fundamento da vida cristã é a Graça. De nada vale Dons
e Ministérios sem a experiência da Graça Divina,
manifesta em Cristo, testificada no Espírito e presente
na vida das pessoas e da Igreja. A todos(as)
quantos receberam o Dom - Cristo e o Espírito - lhes é
concedido "dons", conforme apraz ao Espírito.
Todos são chamados a ter a consciência deste fato:
"a cada um lhes é dado individualmente, na
diversidade do Espírito, "dons" - confome
I Co 19. Sob a Graça
e o Espírito do Senhor somos chamados a desenvolver e a
ministrar os dons que o Senhor nos tem concedido. Somente há
sentido para os "dons" quando eles se expressam
em serviço. Serviço prestado a Deus, ao próximo e a
toda a comunidade humana. Os "dons"
devem capacitar-nos para o Serviço e a manifestação da
Glória divina em Seu Senhorio no mundo. Graça,
Dons e Ministérios são aspectos fundamentais da vida do
cristão e da Igreja, que devem estar juntos e agirem de
formas independentes. a) Êxodo
18.21 - "homens e mulheres capazes, tementes a Deus,
pessoas de verdade, que aborreçam a avareza, ambição
ou glória". I Co 12.4-11
- Dons concedidos a "cada um" visando a um fim
proveitoso (edificação e serviço... a mútua cooperação).
Tem sua realização comunitária: unidade de todo o
corpo, edificação, consolidação, mútua cooperação.
"Corpo de Cristo e membros um dos outros" - Rm
12.5. São expressões de toda a comunidade. Fp 2.2-4 -
É importante nas pessoas e na comunidade, objetivando
Dons e Ministérios, a "unidade de pensamento",
o "amor uns para com os outros", a "união
de alma e coração" e o "ter o mesmo
sentimento". Não devem existir por "vanglória,
partidarismo, individualismo ou sentimento de
superioridade". Os ministérios
respondem aos imperativos do Reino de Deus, às
necessidades do Corpo de Cristo e da Comunidade Humana.
Desenvolvem-se no espírito do "serviço" e na
expressão da "Unidade" de todo o Corpo - a
Igreja. Base do
nosso ministério Sim, aí
está a questão; tal missão não é responsabilidade de
poucos, mas de todos os salvos; Deus nos tem enviado e
com a responsabilidade de dar prosseguimento à obra de
Jesus. Nada
melhor do que começar pelo ministério de Jesus. O
ministério de Jesus, conforme narrado nos Evangelhos,
tem características que podem orientar o nosso ministério,
pois são permanentes. a)
Seu fundamento divino e sua habilitação por Deus - (Marcos
1.9) O que
salta às nossas vistas é a submissão de Jesus; mesmo
sendo o Filho de Deus, ele vai e procura o profeta de
Deus, João Batista. "Jesus foi", diz o texto,
"de Nazaré da Galiléia para o Jordão", e
submeteu-se humildemente ao Batismo de João, o que
surpreendeu o próprio João que, segundo Mateus, ficou
perplexo e disse: "Eu é que tenho necessidade de
ser batizado por ti e tu vens a mim?" (Mt 3.14). Há também
uma noção clara de continuidade histórica e todo o
quadro do Batismo tem uma analogia com o Êxodo. As coincidências
apontadas não são ocasionais; elas estão aí para
mostrar que o ministério de Moisés e a caminhada do
povo, desde o Egito, através do deserto, é atualizado
através do ministério de Jesus que também traz, junto
a si, multidões, de tais multidões nós, hoje, seguimos
fazendo parte. A segunda
referência é que ambos os ministérios se apoiam e se
justificam numa ordem de Deus (Êx 14.15; Jo 1. 17; Mc 1.38;
Jo 1.36-38). É deste modo, o Evangelho,
a nossa base e em obediência a ele realizamos nosso
ministério. Devemos
dizer que existem diferenças entre as duas tradições
pois os evangelistas, ao mesmo tempo que anotam as
semelhanças, sublinham a superioridade do Messias Jesus,
o Filho de Deus (Mc 1.1; Jo 1.16-18). Assim,
temos como ponto de partida no ministério de Jesus o
seguinte: b) a
voz de Deus como uma ordem que legitima o ministério de
Jesus; e) o
Espírito que habita com poder o ministério de Jesus. Temos aqui
uma seqüência a ser considerada por nós ao darmos
prosseguimento do ministério de Jesus, como sua Igreja. Isto quer
dizer em essência que, em sua mensagem, Jesus anunciava
a irrupção do tempo da salvação ou em suas palavras:
"é chegado o Reino" (Mc 1.15, 11.20). Sim, a
mensagem de Jesus era a chegada do Reino de Deus, é
verdade que vivemos como deu a perceber Jesus, a Aurora
do Reino, este está desabrochando, a segunda vinda, a
escatologia, haveria de trazer como cria a comunidade
cristã primitiva a concretização final do Reino, até
lá como Igreja somos chamados a participar de sua
construção. A presença
do Reino toma-se o centro da pregação de Jesus,
correspondendo, assim, com sua pregação aos anseios do
povo, o qual ansiava por sua vinda. Por isto mesmo,
era tema da teologia dos fariseus, dos revolucionários
Zelotes, dos Saduceus e outros grupos daquela época. Freqüentemente,
nossa pregação, o ministério de anúncio e proclamação
em nossas igrejas, responde a perguntas que o povo não
está fazendo, e nisto temos de
aprender de Jesus. O Reino de Deus e à conversão a ele
deve ser o centro de nossa pregação. A irrupção
da novidade do Reino exige mudança na realidade à qual
ele se dirige, e isto começa com as pessoas. Por esta
razão, a palavra que segue ao anúncio da novidade do
Reino é o verbo metanoiô no imperativo. Este
verbo significa mudança da mente, ou como está na tradução
de Almeida - arrependei-vos; ou, ainda, na de Jerusalém
- convertei-vos, o que este imperativo exige é: mudem de
valores, de vida, enfim, convertam-se a Deus e
reconstruam vossa sociedade, segundo os valores do Reino. A proclamação
do Reino exige mudanças de quem anuncia e a quem se
anuncia, como disse Jesus acerca desta realidade à qual
ele anunciava: "Ninguém põe remendo de pano novo
em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgo
torna-se maior. Nem se põe vinho novo em odres velhos;
caso contrário, estouram os odres, o vinho se entorna e
os odres ficam inutilizados. Antes, o vinho novo se põe
em odres novos; assim, ambos se conservam (Mt 9.16-17)". Onde está
a exigência de mudança na nossa proclamação? Isto se
quisermos que nosso ministério recupere e atualize o
sentido do ministério de Jesus. Concluindo
esta parte, o ministério de anúncio do Reino não é
apenas discurso, como vamos ver, mas inclui e depende de
uma prática. Neste sentido é que entra a exclamação
do povo, após a cura do endemoninhado na Sinagoga de
Cafarnaum: "Que é isto? Um novo ensinamento com
autoridade". Sua prática era forte e trazia uma
novidade - o Reino de Deus (Mc 1.21-28). E isto fazia com
que o povo reconhecesse sua autoridade. Nesta atuação
de Jesus, vemos a prática de ministérios que depois se
desenvolveram na Igreja através do exercício dos dons
espirituais de: misericórdia, fé e cura (I Co 12.9-10;
Rm 12.8). Hoje, irmãos são chamados a trabalhar com
enfermos, seja exercendo a misericórdia de assistí-los
e encaminhá-los a um hospital, ou mesmo tendo a audácia
da fé para orar para que sejam curados. Cabe, aqui,
ainda a denúncia ao tratamento que se dá aos doentes do
século XX, seguem sendo mal tratados e discriminados. A acusação
no texto, era de terem catado espigas no dia de sábado,
nenhum alimento podia ser preparado ou colhido no sábado,
tudo deveria ser preparado ou colhido na véspera. Jesus toma-se
um violador de tal lei que conspirava contra a vida pois
é Ele quem disse: "O sábado foi feito para o homem
e não o homem para o sábado". Hoje,
diversas leis conspiram contra a vida, carecemos de
ministérios proféticos como o de Jesus, que se colocava
em posição frontal contra tais leis, as quais
não promovem o direito do pobre, da viúva, do menor, do
sem terra. Deus chama e dá o dom de Profecia para
declarar, no presente, o juízo de Deus sobre as
instituições injustas, estabelecendo justiça entre os
seres humanos. Precisamos, como Jesus, ferir a terra com
a vara de nossa boca, ou seja, os desígnios justos de
Deus dados por Ele mesmo aos seus profetas. Hoje faz
falta que entendamos e estimulemos ministérios dispostos
a superarem as regras de uma sociedade curvada ante a
divindade do dinheiro, submisso à misericórdia, à
justiça e ao amor. Estes foram os verdadeiros critérios
que suscitam dons e ministérios, os quais, igualmente
aos de Jesus, ministram ao povo na base de suas
necessidades. Fazer isto é compor o Ministério do Reino
de Deus; é ensinar o que de fato é o Reino de Deus. Do
envio dos discípulos ao nosso envio Freqüentemente
encontramos pessoas que nos dizem: "Pastor, eu não
tenho nenhum dom". Na conversa pessoal, a seguir, o
que a maioria das pessoas quer dizer é que não é
possuidora de nenhum curso, ou mesmo é semi-analfabeta.
Tal compreensão é dominante na nossa sociedade e
lamentavelmente na nossa Igreja também. Com isto, nega-se
a natureza dos dons espirituais, pois carismata quer
dizer dons gratuitos ou dons de graça (Rm 12.6); quer
dizer que é dado a todos os cristãos gratuitamente (1
Cor 12.4-7). Assim é que Jesus foi habilitado pelo Espírito
do Pai e nos habilita pelo seu Espírito, o qual desde o
Pentecostes passa a ser a nossa habitação para o ministério. O outro
aspecto característico de um ministério a serviço do
Reino é o caráter de servidor que deve ter o ministro;
a maneira pobre exigida por Jesus em Mateus 10
caracterizava os servidores que, por terem de levar os
pertences e os cuidados do seu Senhor, não tinham como
levar algo mais para si. Por outro lado viajavam em rota
estabelecida pelo seu senhor; muitas das características
exigidas por Jesus de seus seguidores coincidem com os
tais diákonos que eram os servidores do mundo greco-romano.
Torna-se, então, muito rico estabelecer tal comparação,
porque esta é a palavra usada em todo o Novo Testamento,
para designar Ministro, seja no sentido de serviço -
diakonia, ou no sentido de servidor (ministro)
diákonos ou ainda a ação = o verbo grego diakonéo. Isto traz
à tona frases de Jesus, como: "Porque o filho do
homem veio para servir e dar a sua vida em resposta de
muitos". O Ministério de Jesus é serviço, o
ministério de cada cristão é serviço; assim como o
Espírito veio sobre Jesus, dando-lhe poder para este
serviço, nós recebemos os carismata = dons da
graça para exercício de nosso ministério de serviço
ao Reino de Deus. Finalizando,
temos uma visão deturpada de cargos e funções que, ao
invés de serem postos de serviço, são disputados como
expressões de dominação e poder, tornando-se negação
do ministério de serviço. Tais cargos são distribuídos
sem o critério dos frutos e o que é mais grave sem o
mais importante, o carismata: os dons da graça do
Espírito do Senhor. ______________ Fonte: Publicação de "Dons e Ministérios"
produzido pelo Colégio Episcopal - agosto 1988 |