Dons e Ministérios  

  

 Dons e Ministérios não é um programa. É um  movimento. Um movimento conduzido pelo Espírito, cujas raízes encontramos na Palavra de Deus. Este movimento representa o caráter ministerial de TODA A IGREJA, onde todo(as), pastores(as) e irmãos leigos(as), participam do ministério total da Igreja.

Dons e Ministérios tem uma visão missionária. O movimento existe em função da Missão, pois somos uma "Comunidade Missionária". Não surgimos e nem vivemos para nós mesmos. Nosso ministério não deve estar  voltado para "si mesmo", mas para as pessoas, comunidades e todo o Universo. É à luz do "ministério de Cristo" que devemos desenvolver o nosso ministério.

 É da visão de uma "Igreja Missionária", comunidade do Senhor, que deve nascer o movimento Dons e Ministérios.

No processo de implantação e desenvolvimento desta nova configuração e vivência da Igreja surgem muitas questões teóricas, teológicas, bíblicas e práticas.

Como sair de uma "igreja de cargos e poderes" para uma "igreja de ministérios?"

 Como conviver a realidade de uma "igreja pluralista" com a vivência de uma "igreja em Unidade" - fundamental para a caminhada dos Dons e Ministérios? 

 Dons e ministérios:

Primeiras Reflexões

Dons e Ministérios apresenta um "sopro" do Espírito junto ao povo metodista. É uma nova dinâmica para a vida do cristão e da Igreja. Somos despertados a uma renovação de fé e vida através dos Dons e Ministérios. O Senhor, através do Espírito, tem concedido ao cristão e à Sua Igreja Dons que objetivam o exercício de um Ministério. Os "dons" são conferidos segundo o propósito de Deus, a realidade e as necessidades das pessoas, comunidade da fé e do mundo. Existem como expressão de serviço ministrado em nome de Cristo e no poder do Espírito Santo.

   A busca dos Dons

 Muitos buscam dons e poderes nos dias de hoje. A vida de hoje é um convite para buscar autoridade, poder, nome, posição, destaque e dons. Em grande parte, o seu objetivo é a "auto-realização", a  "vanglória" e o "engrandecimento pessoal".

Para nós, cristãos, "dons" significam "serviço". O centro da vida cristã é Cristo. Tudo na expressão da vida cristã deve visar à g16ria, ao louvor, ao Senhorio e à continuidade da Missão de Cristo em SERVIR as pessoas e o mundo. Tudo quanto recebemos de Deus não deve ser motivo de orgulho, mas de louvor ao Senhor e Serviço ao Seu nome e ao próximo.

 Os dons devem visar à "edificação", ao "equipamento", ao "aperfeiçoamento" dos cristãos e de todo, o Corpo de Cristo, objetivando o serviço de Cristo e a "Edificação do Seu Corpo" no mundo.

O Espírito Santo confere dons às pessoas e à Igreja visando não a nossa glória, o nosso orgulho ou a nossa ação de dominação... mas o "exercício do ministério".

  Graça, Dons e Ministérios

 O "movimento" Dons e Ministérios fundamenta-se no testemunho bíblico, no testemunho do povo de Deus no Antigo Testamento e na experiência de vivência cristã da Igreja Primitiva.

 1) Graça

 É essencial na vida cristã. O Salmo 63 nos diz que: "A Tua Graça é maior do que a vida". Efésios afirma: "Pela Graça sois salvos ... isto não vem de vós... é dom de Deus... para que ninguém se glorie" (2.1-10). Paulo fala que a "graça foi concedida a cada um... segundo a proporção do dom de Cristo" (Ef 4.7) e que "temos diferentes dons segundo a graça que nos foi dada... (Rm 12.6). I Pedro afirma que devemos servir uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como "bons despenseiros da multiforme graça de Deus" (I Pe 4. 10).

O primeiro fundamento da vida cristã é a Graça. De nada vale Dons e Ministérios sem a experiência da Graça Divina, manifesta em Cristo, testificada no Espírito e presente na vida das pessoas e da Igreja.

 João Wesley sempre perguntava: "Tens a Graça?" Para depois indagar: "Tens os dons? Tens os frutos?"

 2) Dons

 A Bíblia testifica a respeito dos Dons. Primeiramente fala-nos do "Dom" - que é o próprio Deus, presente em Cristo e também no Espírito. Antes dos dons temos que possuir e sermos possuídos pelo Dom - o próprio Deus. Dons sem o Dom não têm sentido. Muitos procuram os "dons" sem antes terem a experiência com o "Dom de Deus".

A todos(as) quantos receberam o Dom - Cristo e o Espírito - lhes é concedido "dons", conforme apraz ao Espírito. Todos são chamados a ter a consciência deste fato: "a cada um lhes é dado individualmente, na diversidade do Espírito, "dons" - confome  I Co 19.

Sob a Graça e o Espírito do Senhor somos chamados a desenvolver e a ministrar os dons que o Senhor nos tem concedido.

  3) Ministérios

 Muitos perguntam: "Para que o dom?" ou "os dons"?. Os dons edificam a pessoa, a Igreja e toda a comunidade humana. Não visam a nossa glória, orgulho, superioridade e nem nossa dominação sobre outras pessoas. O objetivo dos Dons é o Ministério. Ministério de toda a Igreja - isto é, da totalidade do Corpo de Cristo objetivando ao "aperfeiçoamento", "equipamento", "capacitação" e "instrumentalização" dos santos visando ao "desempenho do Seu Serviço para que "O Corpo de Cristo" seja edificado no mundo.

 Dons visam ao ministério de todo este corpo, nos seus diferentes membros e partes - pastores(as) e leigos(as).

 Ministério significa Serviço. Nosso guia é Cristo: "que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos". Cristo usou o "dom de Deus" para o Serviço.

Somente há sentido para os "dons" quando eles se expressam em serviço. Serviço prestado a Deus, ao próximo e a toda a comunidade humana.

Os "dons" devem capacitar-nos para o Serviço e a manifestação da Glória divina em Seu Senhorio no mundo.

Graça, Dons e Ministérios são aspectos fundamentais da vida do cristão e da Igreja, que devem estar juntos e agirem de formas independentes.

  A natureza dos dons e ministérios

 O desejo de consagração e trabalho das pessoas são importantes, mas por si s6 não são suficientes para o exercício dos Dons e Ministérios. Na carta aos Efésios,  Paulo escreve que "Cristo" concedeu os dons - Ef 4.8.Também em I Co 12 fala que o Espírito concede dons "a cada um". Os dons e os ministérios são de natureza divina. Não são meras opções humanas, mas concessões da Graça Divina.

 Wesley, diante dos que se apresentavam para receber atribuição de pregadores locais, lhes perguntava: (1) Tens a Graça? (experiência viva com Cristo). (2) Tens os dons? (reconhecimento do chamamento do Espírito). (3) Tens os frutos? (comprovação na prática da Graça e dos Dons).

 Os dons sempre existem em função do exercício do Ministério visando à g16ria de Deus, à edificação do Corpo de Cristo e Seu serviço prestado às pessoas e sociedade. Não são instrumentos de vangloria, dominação ou poder.

 Na Bíblia temos alguns critérios para avaliar e confirmar os dons: 

a)  Êxodo 18.21 - "homens e mulheres capazes, tementes a Deus, pessoas de verdade, que aborreçam a avareza, ambição ou glória".

 b)  Atos 6 - "Pessoas de boa reputação, cheias do Espírito e da sabedoria, que se encarregarão do ministério (serviço)".

I Co 12.4-11 - Dons concedidos a "cada um" visando a um fim proveitoso (edificação e serviço... a mútua cooperação). Tem sua realização comunitária: unidade de todo o corpo, edificação, consolidação, mútua cooperação. "Corpo de Cristo e membros um dos outros" - Rm 12.5. São expressões de toda a comunidade.

Fp 2.2-4 - É importante nas pessoas e na comunidade, objetivando Dons e Ministérios, a "unidade de pensamento", o "amor uns para com os outros", a "união de alma e coração" e o "ter o mesmo sentimento". Não devem existir por "vanglória, partidarismo, individualismo ou sentimento de superioridade".

 Dons e Ministérios expressam-se à luz do Ministério de Cristo. Neste sentido devem estar sob o "Senhorio de Cristo". Jesus deve ser o Senhor das pessoas, dos Dons e dos Ministérios.

Os ministérios respondem aos imperativos do Reino de Deus, às necessidades do Corpo de Cristo e da Comunidade Humana. Desenvolvem-se no espírito do "serviço" e na expressão da "Unidade" de todo o Corpo - a Igreja.

  MINISTÉRIO DE JESUS

Base do nosso ministério

 DO PAI PARA JESUS, DE JESUS PARA NÓS

 1)... eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça... (João 15. 16)... Assim como meu Pai me confiou um Reino, eu vô-lo confio... (U 22.29).

Sim, aí está a questão; tal missão não é responsabilidade de poucos, mas de todos os salvos; Deus nos tem enviado e com a responsabilidade de dar prosseguimento à obra de Jesus.

Nada melhor do que começar pelo ministério de Jesus. O ministério de Jesus, conforme narrado nos Evangelhos, tem características que podem orientar o nosso ministério, pois são permanentes.

 a) Seu fundamento divino e sua habilitação por Deus - (Marcos 1.9)

 Neste, relato que todos os evangelistas preservaram, reside o ponto de partida e o reconhecimento de Deus para o ministério de Jesus.

O que salta às nossas vistas é a submissão de Jesus; mesmo sendo o Filho de Deus, ele vai e procura o profeta de Deus, João Batista. "Jesus foi", diz o texto, "de Nazaré da Galiléia para o Jordão", e submeteu-se humildemente ao Batismo de João, o que surpreendeu o próprio João que, segundo Mateus, ficou perplexo e disse: "Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?" (Mt 3.14).

Há também uma noção clara de continuidade histórica e todo o quadro do Batismo tem uma analogia com o Êxodo.

 Salvação

 No Êxodo e no Batismo, o Espírito de lahweh se faz presente, a sua voz é ouvida, estão diante das águas - Jesus desce às águas, Moisés e o povo descem ao mar e no contexto maior, após as águas, segue-se o deserto. É no deserto que Jesus é tentado, assim como o foram Moisés e o povo. O deserto, como local, é o modelo do lugar onde Jesus e também Moisés e o povo têm de depender exclusivamente de Deus; o deserto é um tema rico em significados em todo o mundo bíblico.

As coincidências apontadas não são ocasionais; elas estão aí para mostrar que o ministério de Moisés e a caminhada do povo, desde o Egito, através do deserto, é atualizado através do ministério de Jesus que também traz, junto a si, multidões, de tais multidões nós, hoje, seguimos fazendo parte.

 Vemos, assim, nestes paralelos alguns pontos de referências. O primeiro é que o ministério de Moisés, como o de Jesus e por conseqüência o nosso, têm por     base uma realidade negadora da vida, opressora e escravizante. Com Moisés, o Egito; com Jesus, a Palestina do século 1 e conosco, o Brasil, tudo com vistas à     salvação do povo.

A segunda referência é que ambos os ministérios se apoiam e se justificam numa ordem de Deus (Êx 14.15; Jo 1. 17; Mc 1.38; Jo 1.36-38). É deste modo, o     Evangelho, a nossa base e em obediência a ele realizamos nosso ministério.

Devemos dizer que existem diferenças entre as duas tradições pois os evangelistas, ao mesmo tempo que anotam as semelhanças, sublinham a superioridade do Messias Jesus, o Filho de Deus (Mc 1.1; Jo 1.16-18).

 No próprio relato do batismo, João Batista reconhece nele o Messias, e a voz de Deus o reconhece como "Filho Amado", e é sobre Ele que o Espírito de lahweh desce em forma de pomba.

Assim, temos como ponto de partida no ministério de Jesus o seguinte:

 a)  continuidade da ação histórico-libertadora de Deus;

b)  a voz de Deus como uma ordem que legitima o ministério de Jesus;

e)  o Espírito que habita com poder o ministério de Jesus.

Temos aqui uma seqüência a ser considerada por nós ao darmos prosseguimento do ministério de Jesus, como sua Igreja.

 b) A Mensagem de Jesus - Mc 1. 14- 1 5

 A mensagem de Jesus começa com as palavras "peplêrotai ó Kaírós", o tempo está cumprido ou o tempo é agora, o melhor. O uso do grego se justifica pelo fato e que na língua portuguesa ambas palavras não têm boa tradução. Por exemplo, em grego há três palavras para tempo: Eon, Kronos e Kairós; cada uma tem um significado, sendo que Kairós é o tempo num sentido de momento qualitativamente melhor.

Isto quer dizer em essência que, em sua mensagem, Jesus anunciava a irrupção do tempo da salvação ou em suas palavras: "é chegado o Reino" (Mc 1.15, 11.20).

Sim, a mensagem de Jesus era a chegada do Reino de Deus, é verdade que vivemos como deu a perceber Jesus, a Aurora do Reino, este está desabrochando, a segunda vinda, a escatologia, haveria de trazer como cria a comunidade cristã primitiva a concretização final do Reino, até lá como Igreja somos chamados a participar de sua construção.

A presença do Reino toma-se o centro da pregação de Jesus, correspondendo, assim, com sua pregação aos anseios do povo, o qual ansiava por sua vinda. Por  isto mesmo, era tema da teologia dos fariseus, dos revolucionários Zelotes, dos Saduceus e outros grupos daquela época.

Freqüentemente, nossa pregação, o ministério de anúncio e proclamação em nossas igrejas, responde a perguntas que o povo não está fazendo, e nisto temos

de aprender de Jesus. O Reino de Deus e à conversão a ele deve ser o centro de nossa pregação.

A irrupção da novidade do Reino exige mudança na realidade à qual ele se dirige, e isto começa com as pessoas. Por esta razão, a palavra que segue ao anúncio da novidade do Reino é o verbo metanoiô no imperativo. Este verbo significa mudança da mente, ou como está na tradução de Almeida - arrependei-vos; ou, ainda, na de Jerusalém - convertei-vos, o que este imperativo exige é: mudem de valores, de vida, enfim, convertam-se a Deus e reconstruam vossa sociedade, segundo os valores do Reino.

A proclamação do Reino exige mudanças de quem anuncia e a quem se anuncia, como disse Jesus acerca desta realidade à qual ele anunciava: "Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgo torna-se maior. Nem se põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Antes, o vinho novo se põe em odres novos; assim, ambos se conservam (Mt 9.16-17)".

Onde está a exigência de mudança na nossa proclamação? Isto se quisermos que nosso ministério recupere e atualize o sentido do ministério de Jesus.

Concluindo esta parte, o ministério de anúncio do Reino não é apenas discurso, como vamos ver, mas inclui e depende de uma prática. Neste sentido é que entra a exclamação do povo, após a cura do endemoninhado na Sinagoga de Cafarnaum: "Que é isto? Um novo ensinamento com autoridade". Sua prática era forte e trazia uma novidade - o Reino de Deus (Mc 1.21-28). E isto fazia com que o povo reconhecesse sua autoridade.

 c) O Ministério de Jesus como sinalização do Reino

 Começando com o texto do endemoninhado na Sinagoga, passando pela cura da sogra de Pedro, toda a seqüência do ministério inclui uma prática dinâmica com as seguintes características principais:

 c.1)   Expulsão de demônios - O confronto de poder existente quer ilustrar o domínio de Jesus; Ele é Senhor. É um conflito cósmico, a verdade está que ele        é acusado de expulsar demônios por Belzebul, o maior dos Demônios, na verdade era Belzebul, o "Príncipe" designativo de uma divindade cananita, cujo culto era visto como usurpação ao verdadeiro alvo de Culto lahweh o Deus Libertador. O confronto de Jesus com os demônios é um sinal simbólico do confronto de Poder, e a vitória de Jesus ilustra e significa Jesus como sendo o maior Poder, seja ele de Beezebul, ou César, ou Herodes. Confrontar-se com tais poderes de escravidão é uma prática e sinal do ministério do Reino de Deus.

 c.2)   Ação de enfermidades - As doenças eram vistas como expressões concretas do pecado dos pais, uma teologia do cunho farisaico que, levado às últimas conseqüências, tinha como resultado a discriminação dos doentes. Exemplo é João 9: "Quem foi que pecou para que ele nascesse cego?" No judaísmo contemporâneo a Jesus, estruturado num sistema de pureza ritual, como forma inclusive de apressar a vinda do Reino, os fariseus não tocavam num doente e se porventura o tocassem teriam de submeter-se a toda uma seqüência de ritos e práticas purificatórias. Com isto, a grande maioria dos enfermos, principalmente os de nascimento, viviam em grande marginalidade e miséria; entre os pobres, eram os mais pobres. É esta gente enferma um dos alvos do ministério de Jesus; ele, contrariamente aos religiosos de sua época, os toca (Jo 9.6), curando-os (Mc 1.31).

Nesta atuação de Jesus, vemos a prática de ministérios que depois se desenvolveram na Igreja através do exercício dos dons espirituais de: misericórdia, fé e cura (I Co 12.9-10; Rm 12.8). Hoje, irmãos são chamados a trabalhar com enfermos, seja exercendo a misericórdia de assistí-los e encaminhá-los a um hospital, ou mesmo tendo a audácia da fé para orar para que sejam curados. Cabe, aqui, ainda a denúncia ao tratamento que se dá aos doentes do século XX, seguem sendo mal tratados e discriminados.

 d)  A vida é mais importante que as instituições - Marcos 2.23-28

 A legislação criada pelos fariseus em tomo do sábado era de tal modo característica e ao mesmo tempo sufocante: não se podia tirar água do poço, o número de passos eram contados, tudo numa sacralização que impedia o socorro e a misericórdia.

A acusação no texto, era de terem catado espigas no dia de sábado, nenhum alimento podia ser preparado ou colhido no sábado, tudo deveria ser preparado ou colhido na véspera.

Jesus toma-se um violador de tal lei que conspirava contra a vida pois é Ele quem disse: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado".

Hoje, diversas leis conspiram contra a vida, carecemos de ministérios proféticos como o de Jesus, que se colocava em posição frontal contra tais leis, as quais     não promovem o direito do pobre, da viúva, do menor, do sem terra. Deus chama e dá o dom de Profecia para declarar, no presente, o juízo de Deus sobre as     instituições injustas, estabelecendo justiça entre os seres humanos. Precisamos, como Jesus, ferir a terra com a vara de nossa boca, ou seja, os desígnios justos de Deus dados por Ele mesmo aos seus profetas.

 e)  "Dai-lhes vós mesmos de comer"

 Esta ordem de Jesus é o abrir-se de uma prática ministerial, dar pão ao que tem fome. Pode ser caracterizado pelos dons de serviço, socorro, misericórdia ou outros que, em nossa época, Deus levanta. O importante é que o alimentar-se não é um direito adquirido pelo dinheiro pouco ou muito. Jesus, rejeita a proposta dos discípulos: "O lugar é deserto e a hora já muito avançada. Despede-os para que vão aos campos e aldeias vizinhas e comprem para si o que comer". A resposta de Jesus coloca o problema no nível: "A fome de meu irmão não é um problema de solução do mercado capitalista, mas é um problema meu". "O dai-lhe vós de comer" abre uma perspectiva desafiadora de ministério.

Hoje faz falta que entendamos e estimulemos ministérios dispostos a superarem as regras de uma sociedade curvada ante a divindade do dinheiro, submisso à misericórdia, à justiça e ao amor. Estes foram os verdadeiros critérios que suscitam dons e ministérios, os quais, igualmente aos de Jesus, ministram ao povo na base de suas necessidades. Fazer isto é compor o Ministério do Reino de Deus; é ensinar o que de fato é o Reino de Deus.

 Conclusão

Do envio dos discípulos ao nosso envio

 Mateus 10 é chamado de discurso da Missão dos doze e por extensão de toda a Igreja. Desde aí o ministério toma-se o serviço realizado sob a autoridade de Jesus: "deu-lhes autoridade"  (Mt 10.1).

 Além das práticas já mencionadas, como a prática de Jesus que passa a ser uma ordem para os seus seguidores e ministros, temos no estilo de ministérios algumas orientações a mais.

 "De graça recebestes, de graça dai". Temos tomado muitas vezes o acesso ao Reino caro e distante da maioria do povo. Quando centralizamos nossas atividades no Templo e convencionamos roupas boas e bonitas para freqüentá-lo, estamos criando embaraços para que outros se aproximem de nós como comunidade do Reino. Ou quando estabelecemos critérios muito acadêmicos, estamos inibindo o desenvolvimento de dons espontâneos e espirituais, dons que, com algumas orientações básicas, se desenvolveriam e alcançariam cheios de graça muitas outras pessoas.

Freqüentemente encontramos pessoas que nos dizem: "Pastor, eu não tenho nenhum dom". Na conversa pessoal, a seguir, o que a maioria das pessoas quer dizer é que não é possuidora de nenhum curso, ou mesmo é semi-analfabeta. Tal compreensão é dominante na nossa sociedade e lamentavelmente na nossa Igreja também. Com isto, nega-se a natureza dos dons espirituais, pois carismata quer dizer dons gratuitos ou dons de graça (Rm 12.6); quer dizer que é dado a todos os cristãos gratuitamente (1 Cor 12.4-7). Assim é que Jesus foi habilitado pelo Espírito do Pai e nos habilita pelo seu Espírito, o qual desde o Pentecostes passa a ser a nossa habitação para o ministério.

O outro aspecto característico de um ministério a serviço do Reino é o caráter de servidor que deve ter o ministro; a maneira pobre exigida por Jesus em Mateus 10 caracterizava os servidores que, por terem de levar os  pertences e os cuidados do seu Senhor, não tinham como levar algo mais para si. Por outro lado viajavam em rota estabelecida pelo seu senhor; muitas das características exigidas por Jesus de seus seguidores coincidem com os tais diákonos que eram os servidores do mundo greco-romano. Torna-se, então, muito rico estabelecer tal comparação, porque esta é a palavra usada em todo o Novo Testamento, para designar Ministro, seja no sentido de serviço - diakonia, ou no sentido de servidor (ministro)    diákonos ou ainda a ação = o verbo grego diakonéo.

Isto traz à tona frases de Jesus, como: "Porque o filho do homem veio para servir e dar a sua vida em resposta de muitos". O Ministério de Jesus é serviço, o ministério de cada cristão é serviço; assim como o Espírito veio sobre Jesus, dando-lhe poder para este serviço, nós recebemos os carismata = dons da graça para exercício de nosso ministério de serviço ao Reino de Deus.

Finalizando, temos uma visão deturpada de cargos e funções que, ao invés de serem postos de serviço, são disputados como expressões de dominação e poder, tornando-se negação do ministério de serviço. Tais cargos são distribuídos sem o critério dos frutos e o que é mais grave sem o mais importante, o carismata: os dons da graça do Espírito do Senhor. 

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Fonte: Publicação de "Dons e Ministérios" produzido pelo Colégio Episcopal - agosto 1988