Entrevista com Fred Morris


Thania Coimbra *


Adital -

Agora em março (N.R:de 2006)  faz 3 anos que o pastor metodista americano e brasilianista Fred Morris, 73 anos, esteve no Brasil para um encontro com o presidente Lula. Como diretor executivo do Conselho das Igrejas da Flórida, na qualidade de embaixador do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs dos Estados Unidos, Fred Morris veio pedir a Lula um esforço diplomático para evitar uma solução militar no Iraque. A missão fracassou, disso o mundo inteiro soube, mas não arrefeceu o ardor profético de Fred: um homem ligadíssimo ao Brasil - onde morou entre 1964 e 1974, até ser preso e torturado pelos militares e expulso pelo governo brasileiro.  

Pacifista comprometido com missão oposta a de seu irmão de igreja e nacionalidade, o presidente Bush-, a quem acusa pela atual "heresia de individualização da fé cristã" Fred Morris lembra que o império do medo já dura, pelo menos, 50 anos em seu país. Lamentando que entre os metodistas não haja a punição da excomunhão para censurar Bush, ele tem como inexorável a condenação política do presidente americano por abuso de poder, corrupção e violação das Leis Internacionais. Convencido de que os "EUA necessitam mais do petróleo da Venezuela do que derrotar Chávez" Fred Morris aposta na Revolução Bolivariana. Na conversa abaixo - virtual- ele conta um pouco de suas quixotescas - para o melhor e pior - aventuras, no Brasil e no mundo.

 01) Thania Coimbra: A experiência no Brasil como correspondente da revista Time, auxiliar de Dom Helder Camara e a prisão, tortura e expulsão parecem ter marcado muito a vida do senhor.  

Fred Morris: Eu comecei a ficar enamorado com o Brasil nos anos 50 quando ainda estava no seminário (1955-59) (Drew University em New Jersey). Tudo quanto que encontrei sobre Brasil me fascinava.

Agora, deve notar que este tempo era antes do surgimento da Teologia da Libertação e até antes do Concílio Vaticano II. Minha própria leitura do Evangelho me levou a querer participar na vida do povo brasileiro. Um trecho que realmente era central na minha formação teológica era Lucas 4: 16 a 21, onde Jesus entrou na sinagoga de Nazaret e leu do livro de Isaias:

18 "O Espírito* do Senhor está sobre mim. Ele me escolheu para proclamar as Boas Novas aos pobres e anunciar a liberdade aos presos. Ele me enviou para dar vista aos cegos, para libertar os que estão sendo maltratados e 19para anunciar o ano em que o Senhor vai favorecer o seu povo". (Isaías 61.1-2)

Eu percebi que este é a missão da Igreja: seguir os passos de Jesus no processo libertador. Não entendi naquela fase da minha vida exatamente como fazer isto e nem as implicações que tal missão teria no mundo do hoje, mas senti com muita clareza que ser Cristão era -e é- participar nesta missão de Jesus.

Depois de vários anos, inclusive de ministério dentro dos Estados Unidos, fundei uma nova congregação Metodista num subúrbio de Chicago (1960-1963), fui enviado ao Brasil pela Igreja Metodista como missionário.

Cheguei no Rio de Janeiro no dia 12 de janeiro de 1964.  Passei um dia no Rio com uns colegas missionários que estavam trabalhando no Instituto Central do Povo.  Fizemos um passeio turístico até Corcovado. Me lembro que fiquei deslumbrado por tudo-as cores, os cheiros (nem todos bons), o povo, a beleza natural, e a pobreza.  Enquanto estávamos esperando o bonde no Cosme Velho para subir até a estatua do Cristo, deu um tumulto na esquina e quando nos aproximamos descobrimos que uma menina de 9-10 anos de idade acabava de falecer-obviamente de má-nutrição-fome.  Isto no meu primeiro dia no Brasil.

No dia seguinte fomos a Campinas onde passei todo o resto do ano de 1963, na Escola de Línguas, uma instituição operada pelas Igrejas Metodista, Presbiteriana e Batista.  Éramos um grupo de 90 missionários, lutando diariamente para apreender o Português. 

Este ano foi um ano de encanto pessoal-encanto com o português, com o povo brasileiro, com a beleza do país, com tudo.  Mas também era o ano do golpe militar.  No primeiro de abril, quando o golpe estourou, eu ainda não entendi nada da língua português.  Não tinha TV, não podia entender a radio nem os jornais, só sabia que tinha muito soldado na rua.

Mas logo percebi que algo importante-e terrível-havia passado.   Um colega missionário, o Dr. Brady Tyson, que estava ensinando na Universidade de São Paulo e trabalhando com a mocidade metodista universitária, foi a Campinas em maio passar uma tarde com a gente e explicou aquilo que estava acontecendo. Não deixou de mencionar que uma dúzia de jovens metodistas da USP havia simplesmente desaparecido-e a maioria nunca foi encontrada.  Sindicalistas e universitários eram o alvo da primeira onda de repressão.

Depois deste ano em Campinas, fui nomeado pastor de três igrejinhas metodistas na área de Teresópolis.  Passei dois anos lá, conhecendo algo da vida do povo.  Em 1967, fui transferido a Pilares, um bairro operário do Rio, onde servi como pastor por mais dois anos.

Daí, regressei aos EUA para fazer pós-graduação na Universidade de Chicago, onde fiz mestrado em sociologia urbana em 1970. Em setembro, fui a Recife quando a Igreja Metodista do Brasil me pediu assumir o cargo de Diretor do Centro Comunitário Metodista da Caixa D’Água, um bairro muito pobre de Olinda.

Na minha viagem de retorno ao Brasil em agosto de 1970, tive um encontro ocasional com um jornalista da revista Time, baseado no Rio, que me pediu para ser colaborador da revista para o nordeste, pois ele queria alguém que falasse bem o inglês mas que também entendesse bem o português, e que pudesse dar cobertura para ele principalmente na área do Recife.  Eu consultei meus chefes na Junta de Missões da Igreja Metodista em Nova Iorque e todos estavam de acordo que seria interessante, especialmente porque Dom Helder Camara, que era o arcebispo do Recife e Olinda, já fora objeto de vários ataques por parte das forças de segurança nacional.  A casa dele na Igreja das Fronteiras tinha sido metralhada duas vezes em um ano antes o Padre Henrique ser torturado e barbaramente assassinado no próprio Recife.  Pensamos que talvez fosse útil para ele eu ter este contato com a imprensa internacional.

Ao chegar no Recife, comecei um trabalho ecumênico, colaborando com Dom Helder para melhorar as relações entre a Igreja Católica e as igrejas evangélicas da área.

Com o apoio do Dom Helder, fiz contatos com dois padres da Igreja Episcopal, com uns monges beneditinos, um colega metodista, um casal Luterano, e assim formamos a Equipe Fraterna, um grupo ecumênico que se reunia para apoio mútuo nos vários trabalhos que todos estavam realizando.  Nos encontrávamos cada terça-feira para um estudo bíblico, uma discussão sobre o trabalho de um dos colegas e, ao final, celebrávamos a Eucaristia.  Cada semana um pastor ou um padre celebrava de acordo com as tradições da sua igreja e todos comungávamos.  Foi uma experiência maravilhosa para todos e nos sentimos profundamente apoiados em nossos vários trabalhos junto com o povo. Depois de dois anos, éramos umas quinze pessoas de várias comunhões que fazia parte da Equipe.

Tudo correu bem durante quase quatro anos.  Adorei o Recife, as praias do nordeste, meu trabalho em Caixa D’Água, a Equipe Fraterna, enfim, tudo. 

Em maio de 1973, eu regressei aos EUA para três meses de férias, que também foi a ocasião da separação minha primeira esposa.  Quando voltei ao Brasil em julho, cheguei só e comecei uma vida nova.  Pedi licença da Junta de Missões e da Igreja Metodista, pois eu era o primeiro missionário metodista a divorciar-se e não sabia como seria aceito pelo povo da igreja.  (Descobri que o povo é muito mais esclarecido que a liderança).  Mas, tive que encontrar emprego para poder sustentar meus dois filhos que permaneciam com sua mãe nos EUA.

Logo fui contratado por um amigo no Recife para ser gerente de sua nova fábrica de produtos de concreto. Então, apreendi uma nova profissão: tecnologia de concreto.

Em junho de 1974, fui enviado pela empresa para fazer um curso nos EUA para poder operar a nova maquinaria que estávamos importando para fabricar blocos de concreto.  No final daquele mês, ainda nos EUA, a revista Time publicou um artigo sobre Dom Helder, intitulado "O Pastor dos Pobres" O artigo era muito bom e descreveu a luta do Dom Helder para defender o povo brasileiro contra a repressão do governo militar e ainda mais contra o modelo econômico imposto que estava esmagando a grande maioria do povo. 

Apesar do fato de que eu não tive nada a ver com o artigo, os militares no Recife ficaram furiosos com o Dom, a revista, e comigo, pois eles, sabendo que eu era "stringer" do Time e amigo do Dom, tomaram como fato que havia sido eu que tinha escrito o artigo.

Quando retornei ao Recife, fui advertido por um amigo que deveria ir ao Consulado norte-americano, pois eu estava sendo mal-visto pelos militares.  Fui, imediatamente falar com o Cônsul, que me informou que era necessário eu fosse ao Quarto Exército para falar com um tal de Coronel Meziat, chefe da Secção G-2 (inteligência) do Quarto Exército. 

No dia seguinte, com muito medo, fui encontrar-me com o Coronel Meziat. Acabei tendo três reuniões com ele nas três semanas seguintes, nas quais eu insisti que não estava fazendo nada mal ou contra o regime (o que, lamento confessar, era a verdade).  Ao final, fui advertido que não podia ter mais contato com Dom Helder ("má companhia") e que teria que deixar de fazer jornalismo. Só assim, poderia ficar no Brasil sem problemas.

Então, mandei avisar o Dom da minha situação e também avisei ao jornalista da Time que não podia continuar com eles.

Tudo bem, até o final de setembro, quando, no dia 30, quando estava saindo do meu apartamento por volta das 10 da manhã na companhia dum amigo, fomos cercados por um grupo de 10-12 homens, todos armados com metralhadoras ou pistolas.  Nos obrigaram a entrar numa camionete deles, com capuz na cabeça e as mãos algemadas para trás, e nos levaram diretamente para o quartel geral do Quarto Exercito no centro do Recife.

Aí, fui sujeito a torturas e espancamentos por quatro dias e noites.  A tortura principal era choque elétrico, que aplicaram constantemente em várias partes do meu corpo, inclusive nos genitais. No quarto dia, o 3 de outubro, me levaram a outra instalação militar em Jaboatão, onde o Cônsul norte-americano, o Sr. Richard Brown, me encontrou.  Apesar das ameaças que me fizeram antes de ir falar com ele, contei tudo e ele me assegurou que se algo mais acontecesse comigo semelhantes ao que vinham acontecendo, "cabeças vão arrolar" Fiquei confinado mais 13 dias, provavelmente para que as hematomas desaparecessem, e finalmente, no dia 16 de outubro fui levado por um policial até Rio onde permaneci numa cela da Policia Federal até as 9:30 horas da noite quando me levaram ao Galeão e me puseram no vôo da Varig das 11:00 horas da noite para Nova Iorque, acompanhado por uma carta assinada pelo General Ernesto Geisel dizendo que eu era "uma pessoa nociva aos interesse nacionais" e por isso era "expulso" do pais, e que se voltasse, seria preso por um prazo mínimo de quatro anos. 

02) - O senhor, parodiando com certo humor a Nietzsche já disse que uma das boas coisas do eletro-choque é que se ele não mata não deixa seqüelas ou cicatrizes. Mas as feridas da alma, já cicatrizaram?

 Thania, eu tive muita sorte, pois não tenho sofrido de feridas permanentes. Tenho refletido muito sobre isto e cheguei às seguintes conclusões: 1. Eu realmente não tinha nada do que eles estavam querendo. Na tortura, eles queriam que eu comprometesse Dom Helder e a mim como "companheiros" dum grupo militante comunista. Já que não era verdade nenhuma das duas coisas, não tinha problema em negar. 2. Já que meu período de tortura foi "apenas" quatro dias, não deu para eles me quebrarem. Esta declaração não é nada de "heroismo", mas simplesmente o reconhecimento que com tempo eles podiam quebrar qualquer um. Mas em meu caso, não puderam continuar a tortura por mais tempo. Então, eu saí com a cabeça erguida, pois não me trai, nem trai mais ninguém. 3. Quando cheguei nos EUA, tive a oportunidade de denunciar por todo lado as barbaridades deles. Apareci em 27 programas de TV em todo o país e no Canadá; testemunhei perante um comitê do Congresso dos EUA; fiz conferências em mais de 150 igrejas e universidades, denunciando a prática de tortura no Brasil. Ou seja, descontei, e bastante, o que fizeram comigo. Como resultado, em junho de 1976, o Congresso dos EUA cortou de uma vez por todas a assistência militar para o Brasil.

 03) É verdade que o senhor se sente um exilado do Brasil apesar de não ter nascido aqui. Se incomoda de falar no assunto?

 É verdade que eu me senti exilado. Eu, depois de morar no Brasil quase 11 anos completos, já tinha decido a passar o resto da minha vida na "Pátria Amada" e quando fui expulso fiquei totalmente desorientado.  Perdi tudo.  Cheguei nos EUA com uma mala de roupa e sete dólares que encontrei numa gaveta no meu apartamento no Recife. (Me levaram lá na véspera de minha saída para ajeitar a mala) Mas o pior foi que quando cheguei a Nova Iorque, sem nenhuma explicação, a Junta de Missões da Igreja Metodista me colocou na rua. Nada de indenização ou prestações.  Simplesmente, tchau. Passei quase dois anos desempregado sem nenhuma perspectiva na vida até que em junho de 1976 fui à Costa Rica para tentar a vida como empresário, abrindo minha própria empresa construtora.

 04) Que diferenças o senhor vê no País que o seduziu, em 1964, para o Brasil de agora?

 Bem, o país tem se desenvolvido bastante nestes 42 anos.  Eu me lembro que em Campinas em 1964, a grande maioria até da classe média não tinha, por exemplo, geladeira, para não falar em carro.  Hoje, geladeira, TV, fogão, etc., são quase universais, com exceção do campo, bem afastado.  Por outro lado, existe muito mais do que se chama de consumismo, em que todo mundo pensa que tem que ter uma quantidade de "coisas" para ser feliz.  Em 1964, ainda a família era o centro da felicidade de todos.

 05) O senhor tem três filhos brasileiros. O que eles comentam sobre o Brasil e o episódio do qual o senhor foi vítima?

 Sim, eu tenho três filhos brasileiros. O primeiro, Jonathan, nasceu em 1966 no Brasil. Era por isto que minha expulsão era tão escandalosa, pois a própria constituição da época não permitia a expulsão dum estrangeiro com filho brasileiro. Mas, os milicos da época pouco se importavam a constituição. Os outros dois, Jéssica, hoje com 28 anos e morando em Miami, e Erick José, com 26 anos e morando no Recife, nasceram em Costa Rica, mas sua mãe é brasileira do Recife e por isso eles são brasileiros.

Jon estava com sete anos quando estes eventos aconteceram e não se deu conta do que ocorria. Ele, naquele momento, estava nos EUA com a sua mãe, minha primeira esposa, e ficou lá até hoje. 

Jéssica e Erick foram para o Recife com a mãe, ainda pequenos, e praticamente foram criados lá. Se consideram brasileiros de corpo e alma. Jéssica se formou em direito na Universidade Federal de Rio Grande do Norte e depois outra vez na Universidade de Miami. Atualmente ela exerce a profissão em Miami, mas também é a Coordenadora da Anistia Internacional para o Sul da Flórida e é muito ativa na luta em prol dos direitos humanos em todo o mundo. Ela diz que tem esta vocação devido às minhas experiências e minha luta pela mesma causa. Erick José se formou em História na Federal de Pernambuco e depois fez Mestrado na Universidade Internacional da Flórida em Miami em Ciência Política. É igualmente politizado e luta pela justiça social e a paz a toda hora. Faz dois anos foi preso em Miami por participar nos protestos contra a ALCA. Depois foi exonerado, mas estava lá na rua e pronto a pagar o preço.

 06) A eleição do presidente Lula foi um dos grandes fatos políticos da nossa modernidade tardia. Neste começo de 2006, o secretário-geral da CNBB fez duras críticas ao governo Lula, principalmente no que diz respeito à política econômica. O que o senhor acha disso?

 Bem, o fato é que o Brasil passou 500 até chegar aonde chegou, quando Lula tomou posse. Não é racional pensar que em quatro ou oito anos um governo de Lula (ou qualquer outro) vai poder mudar tudo. Apesar de todos os contratempos do governo de Lula, inclusive os casos de corrupção, o governo tem "outro sabor" e tem feito muita coisa para melhor as condições da maioria do povo. Ainda tem muita coisa por fazer, mas creio que cabe a todos buscar como ajudar e não apenas criticar. 

Durante a ditadura, a Igreja Católica brasileira tomou umas posições bastante heróicas. Muitos padres e freiras foram torturados porque resistiram à repressão contra o povo. Depois, quando os militares voltaram para a caserna, a Igreja parece voltou também "ao normal", ou seja, aliada com as classes dominantes. Criticar o governo de Lula não é defender o povo contra o latifúndio ou a classe industrial, etc. O que é que estes bispos estão fazendo para a Reforma Agrária? A Igreja continua ainda como um dos maiores donos de terra no Brasil, senão o maior. Quando ela entregar seus bens para beneficiar aos pobres, aí terá condições para criticar Lula.

 07) Durante anos, na década de 70 e 80, o senhor dirigiu o jornal Mesoamérica, que orientava parlamentares dos EUA com relação ao que acontecia na América Latina. Em janeiro de 2006, o senhor esteve presente no 6º Fórum Social Mundial em Caracas. O que acha da chamada "revolução bolivariana" e que perspectiva vê neste caminho para a América Latina? 

A Revolução Bolivariana é um dos poucos sinais de esperança que se vê na América Latina hoje. O governo do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, pela primeira vez na história do país, está utilizando seus recursos naturais para beneficiar ao povo do lugar. Nunca, e repito, nunca na história da Venezuela, a riqueza do petróleo tinha sido usada para melhorar as condições de vida do povo. Claro, ainda existe muita pobreza na Venezuela, mas como comentei sobre o Brasil, são 500 anos de história de exploração e escravidão antes do governo de Chávez. Mas o fato da Venezuela ter bilhões de barris a cada ano de petróleo quer dizer que tem como fazer algo. Imagine o que Lula poderia fazer sem nenhuma dívida externa para o país (como acontece em Venezuela)! Uma coisa que me impressionou muito no presidente Chávez no Foro Social Mundial: numa noite ele falou por 90 minutos a uma platéia de 15.000 pessoas e não falou nada de si mesmo, Hugo Chávez. Somente falou sobre o projeto de paz e justiça da Revolução Bolivariana.

O fato da Venezuela ter petróleo faz com que eles tenham uma boa chance de vencer. Os EUA necessitam mais do petróleo da Venezuela do que derrotar Chávez.

 08) Aquela experiência de 1974, fez com que a luta contra a tortura e pelos direitos humanos passasse a ocupar um lugar central na sua vida e, de certa maneira, da sua família. Sua filha, Jéssica Morris, é a jovem coordenadora da Anistia Internacional em Miami. No entanto, apesar de toda a tradição Quaker, os Direitos Humanos nos Estados Unidos vêm sendo mais e mais desrespeitados. Pior, desautorizados. Desde 2002, pelo menos 98 prisioneiros sob custódia do governo americano morreram. O que foi que esgarçou a tradição de tolerância do seu País?

 As tradições do povo dos EUA não têm mudado. É que agora temos um presidente ilegítimo que está na Casa Branca por fraude, pela segunda vez, e que está aproveitando o poder da presidência para fazer o que quer. O Senado votou 90 a 9 contra o uso de tortura por qualquer motivo. Mas, ao assinar a lei, o que ele foi obrigado a fazer, Mr. Bush disse que não a respeitaria em casos em que ele achasse que ela não fosse conveniente. Isto seria motivo para um impeachment. Infelizmente, o processo de impeachment é um processo político. E o partido de Bush, os Republicanos, tem o controle do Congresso. Mas tudo indica que vão perder este controle em novembro próximo e eu creio, pessoalmente, que quando os democratas tiverem o controle do Congresso, vão desencadear um processo de impeachment. E não vai ser por pecados de tipo pessoal, mas por grosso abuso de poder, corrupção, violação das Leis Internacionais (a guerra contra o Iraque é uma violação flagrante do todas a leis internacionais), e muito mais. O Deputado John Conyers de Ohio, que será o Presidente da Comissão de Justiça do Congresso quando os democratas assumirem o poder, já tem artigos de impeachment prontos.

Uma maioria significativa do povo norte-americano não aprova o presidente Bush e nem seu governo. Na semana passada uma pesquisa de opinião nos EUA deu a Bush apenas 34% de aprovação.

 09) O 11 de setembro ficou como lápide numa espécie de túmulo do sonho dos "Patronos Fundadores" dos EUA. Como o senhor assiste ao endurecimento das fronteiras, à desenvoltura com que a discriminação é retomada, inclusive a racial, e são suprimidos direitos civis considerados incômodos para a segurança nacional?

 Desde 1947 quando o presidente Harry Truman, um dos melhores, começou a "guerra fria", com a Truman Doctrine, que declarou guerra total contra o comunismo, todos os governos dos EUA tem governado na base do medo. Por 50 anos foi o medo duma guerra nuclear com a União Soviética; de 1991 a 2001, tentaram com a Guerra Contra as Drogas, que nunca pegou porque o povo norte-americano é o maior consumidor das drogas proibidas; e agora, depois de 11 de setembro de 2001, Mr. Bush e companhia têm abusado da ingenuidade do povo alimentando o medo do "terrorismo" Esta política de governar pelo medo faz com que o governo consiga fazer coisas que o povo realmente não aprova, mas aceita por medo de conseqüências piores. Eu fui torturado no Recife por gente que se vangloriou de me dizer que tinha sido treinada na Escola das Américas pelo Exército dos EUA. O povo não aprovava a tortura em 1974, mas permitia, ou fazia vista grossa, por medo do comunismo-e da União Soviética.

Tenha como seguro que entre hoje e as eleições do Congresso, em novembro, Mr. Bush e Companhia vão fazer todo o possível para amedrontar o povo norte-americano para que vote a favor dos Republicanos.

 10) Pela fé, o senhor se aproximou da igreja católica e da Teologia da Libertação; e a fé o separa de outro fiel ardoroso da sua própria igreja, o presidente Bush. Como pode dois fiéis, reverenciar o mesmo Deus, freqüentar a mesma igreja e terem atuação tão absolutamente distintas?

 Eu fui convidado a pregar na Catedral Nacional em Washington, DC, em setembro de 2004. No meu sermão, cujo título era "Solidariedade é o novo nome da Fé" eu disse que o povo dos EUA com toda sua piedade -que não é falsa por parte do povo- tem caído numa heresia da fé cristã. Esta heresia é a individualização da fé cristã", ou o que eu chamo a "Síndrome de Eu e Jesus" Mr. Bush é um adepto fiel desta heresia. Ele, e muitos dos mais entusiastas das igrejas conservadoras dos EUA (e do Brasil) crêem que enquanto ele estiver "de bem com Jesus" o resto não importa. Eles não aceitaram e nem aceitam a mensagem bíblica de que Deus está envolvido com o destino do Povo; que ser Cristão é fazer parte do Povo de Deus; que a justiça e a paz são mais importantes do que minha própria piedade.

Além disto, eu questiono a ralação do Mr. Bush com nossa Igreja Metodista, pois em 2002 e 2003, antes de lançar a guerra contra o povo do Iraque, o Colégio dos Bispos da Igreja Metodista Unida, a igreja que Mr. Bush professa, solicitou em três ocasiões uma entrevista com o presidente para conversar sobre o ponto de vista da Igreja Metodista sobre a guerra. Mr. Bush nem acusou o recebimento das três solicitações. Ele se reuniu com gente como o Rev. Pat Robertson e o Rev. Jerry Falwell -ultra-conservadores e pregadores do individualismo total- mas não com os bispos de sua própria igreja. Para mim, sua fé é falsa e certamente não é metodista. Infelizmente não temos um mecanismo de excomunhão na Igreja Metodista. 

11) - O que significa "Companheir@s da Fé" e qual o seu objetivo?

 A idéia básica de Companheir@s da Fé é de fazer pontes de compreensão e colaboração entre todas as comunidades de fé em Deus para viver esta visão de Solidariedade. Queremos que todos os povos cheguem a compreender que somos um povo só e que o destino de todos está ligado a todos. Não é possível cumprir a vontade de Deus e ter uma parte do mundo riquíssimo e o resto passando fome; não é possível ter uma classe ou raça ou gênero dominando os demais. O mundo como ele é neste momento não está de acordo com a vontade de Deus. E todos nós temos que buscar como colaborar juntos para viver em solidariedade uns com os outros e todos com a própria criação. 

13) O senhor articulou uma ação de solidariedade entre o Conselho Ecumênico de Igrejas dos EUA, que agrupa 36 Igrejas e o Conselho de Igrejas Evangélicas de Cuba... Com que finalidade e como isso foi visto nos EUA?

 Bem, para começar, as 36 igrejas que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas de Cristo dos EUA estão contra a política dos últimos nove presidentes dos EUA de isolar Cuba e fazer um embargo econômico contra seu povo. Cremos que isto é contra o desejo do Deus, Pai de Jesus Cristo, de que todos os povos vivam em paz e harmonia. Então, esta visita a Ilha de Cuba, como muitas outras anteriores, era para demonstrar nossa solidariedade com nossos irmãos e irmãs em Cuba. Dentro dos EUA, a grande maioria do povo está plenamente contra esta política do governo. Mas, todos os dirigentes têm tido medo dos Cubanos em Miami e então orquestram esta política de isolamento. E nenhum presidente, até hoje, teve a fibra de ir contra este grupinho em Miami.

 14) Talvez por idiossincrasia, certamente pela má qualidade da ação política lá e cá, é expressivo o número daqueles, em especial, jovens, que desprezam e evitam a política. Por outro lado, o despudor dos que fazem da política profissão é cada vez maior. Qual é a solução para este dilema, na sua opinião?

 Bem, a solução para a falta de democracia verdadeira não é optar para não participar, mas ao contrário. Nada vai mudar no mundo sujo da política de hoje enquanto os melhores elementos da sociedade, inclusive entre os jovens, se afastarem dela. É indispensável que jovens conscientes se metam na política e comecem a exigir algo diferente e melhor.


* Jornalista

Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=21655