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Brian McLaren
Que grande história os metodista
têm para contar sobre si mesmos! Em 1739 o sacerdote anglicano George
Whitefield (1714-1770) convidou os sacerdotes anglicanos John e Charles
Wesley a se juntarem a ele na pregação de um evangelho evangelical onde
ele fosse mais necessário (e aceito): não a partir dos púlpitos de uma
igreja cada vez mais complacente e acomodada, mas nas ruas e campos,
onde quer que estivessem pessoas sujas e sem igreja. Os irmãos Wesley se
uniram a Whitefield -- George e John oferecendo a pregação e Charles a
música. Música que o cidadão comum poderia relacionar a canções
pé-no-chão, letras com um inglês simples, porém bonito, com boa melodia
e uma batida interessante, canções com sentimento, mais como as músicas
que eles cantavam no pub à noite, e não a música chata, acompanhada pelo
órgão das catedrais. Mesmo depois que Whitefield partiu para a América,
milhares vinham ouvir John e Charles. As pessoas respondiam
poderosamente com lágrimas, tremores, gemidos e risadas estridentes.
Um repórter descreveu a cena fora da mina de carvão, onde os mineiros
paravam no caminho de casa depois de um dia de trabalho estafante, mal
pago, danoso à costas e prejudicial aos pulmões. Os mineiros talvez
planejassem aliviar seus músculos doloridos e corações oprimidos com
bebida forte, que provavelmente os levasse a espancar suas esposas e a
ouros gestos igualmente lamentáveis. A voz forte de John Wesley atraía
seus ouvidos. Aquele homem tinha paixão e compaixão, era o comentário
geral. Eles paravam e escutaravam alguém que não os desprezava por causa
de seu comportamento reprovável. A multidão aumentava -- homens imundos,
esgotados, com o rosto negro por causa do pó de carvão. Wesley falava de
um Deus que os amava e queria ajudá-los mesmo que se embebedassem, mesmo
que jogassem, mesmo que maltratassem suas esposas e filhos. O repórter
notou trilhas pálidas e límpidas se formando nos rostos cobertos de pó
negro daqueles homens rudes, trilhas formadas por lágrimas de
arrependimento e fé.
E ele não parou (como muitos dos avivamentos contemporâneos param) na
experiência emocional (seguida de um pedido de oferta). Os Wesley
organizaram esses homens em grupos -- pequenos chamados de bandos,
maiores chamados de classes, ainda maiores chamados de sociedades.
Nesses grupos, os homens, e logo suas mulheres, vizinhos e amigos se
juntaram para se ajudar mutuamente a experimentar uma transformação. Em
semanas, meses, anos, havia milhares de pessoas cujas vidas haviam sido
transformadas.
Por décadas, o movimento cresceu, desligando-se por fim da estrutura
anglicana na qual havia nascido. Para se ter uma idéia da dinâmica
inicial do metodismo, imagine um grupo de pessoas subindo uma montanha,
cada uma delas sempre tendo alguém um passo acima e adiante para
estimular a caminhada, e mais alguém um passo atrás e abaixo a quem
encorajar e trazer para cima e adiante.
No entanto, o que era previsível aconteceu. Talvez algo assim: imagine
um desses homens dez anos depois, um ex-carvoeiro que havia sido limpo,
curado do vício da bebida e santificado já há uma década e que havia
agora se tornado um pregador leigo. Ele nota sua filha adolescente
correspondendo aos olhares de um jovem e simples carvoeiro recém-chegado
às reuniões da sociedade. Ele se lembra se seu estado passado, antes de
ter sido salvo e santificado, antes de ter deixado a mina de carvão para
se tornar um comerciante. A última coisa que ele deseja para sua filha é
que ela se enamore de um camarada como aquele.
Assim, na reunião seguinte, ele prega um pouco mais rigidamente que o
normal contra o pecado e insinua que pecadores já não são mais tão
bem-vindos. Em pouco tempo, a mensagem mais dura serve para depurar as
pessoas de modo a fazê-las subir ainda mais alto no monte ou para
tirá-las do trajeto de vez. Com o tempo, mais pessoas desistem que
perseveram, e francamente, o mesmo ocorre com o comerciante-pastor-leigo
e muitos de seus companheiros.
Agora o foco muda dos bêbados e jogadores para o jovens convertidos que
não são tão zelosos e respeitáveis como os mais velhos. Eles são
constantemente pressionados a subir mais alto e mais depressa ou então
para abandonar tudo de vez, com alguns fazendo uma opção ou outra. E em
muito pouco tempo, a velha subida se acaba e um platô a substitui.
Agora, em vez de uma progressão de pessoas em vários níveis de ascensão
cristã, você possui um platô elevado, dos religiosos, e um profundo
abismo de irreligiosos. Ambos não se gostam, ambos não se entendem, e um
deseja que outro vá embora. Se alguém no abismo clama a Deus por ajuda,
Deus não tem ninguém para enviá-la, ninguém que compreenda, que se
importe, que se aproxime, que mentorie ou guie. Um convertido em
potencial não tem ninguém para quem olhar como modelo: primeiro porque o
religioso está muito distante dele e, segundo, porque eles não estão
mais se movendo a lugar nenhum. Ninguém mais está na jornada. Todos
estão entalados em seu status quo, alto ou baixo.
Esse tipo de "redenção e regeneração" atingiu em cheio os metodistas, e
descreve aquilo que acontece em muitos movimentos avivamentalistas como
o metodismo. Trata-se de uma fábula, uma fábula de advertência que, eu
acho, instruiu os fundadores dos Alcoólicos Anônimos e os encorajou a
continuar concentrados no próximo bêbado que cruzará suas portas.
[Bill Hybels, da Igreja Comunitária Willow Creek, e Rick Warren, da
Igreja Saddleback, têm em nossos dias apoiado esta ênfase "naqueles que
buscam", os "de fora da igreja", ainda não convencidos ou comprometidos.]
Por causa da redenção e regeneração, a glória e a genialidade do
metodismo têm sido amplamente esquecidas. Não deveria ser assim, porque
vivemos hoje uma situação bem semelhante à de Whitefield (que era
calvinista) e dos Wesley (que não eram e tomaram um rumo diferente).
Lutero e Calvino criaram sistemas intelectuais protestantes (um tipo de
hierarquia conceitual) que substituiu a hierarquia organizacional
católica. Ninguém, no entanto, criou um sistema de formação espiritual e
de cuidado para substituir o sistema católico altamente desenvolvido de
espiritualidade que se ampliara durante a Idade Média. Ninguém fez isso
no século XVI, ninguém fez isso no século XVII ou em grande parte do
século XVIII -- até os Wesley. As pessoas tinham a doutrina protestante,
mas não tinham as trilhas, caminhos ou métodos de formação espiritual, a
piedade dessas pessoas logo se dissipava tornando-se frustração
espiritual e sonhos não realizados de fervor devocional. Complacência,
nominalismo, intelectualismo e hipocrisia se espalharam pelo mundo
protestante com apenas algumas exceções (como como os irmãos morávios).
Não até que os Wesley fizessem em prol da formação espiritual aquilo que
Lutero e Calvino haviam feito pela doutrina: criar um sistema que
substituísse aquilo que havia sido rejeitado do catolicismo.
Hoje eu penso que estamos em uma situação paralela. A cristandade
contemporânea (infelizmente, incluindo-se muitos metodistas modernos) se
afastou das inovações de Wesley, produzindo complacência e
comprometimento espiritual generalizados. Em meados da década de 1970 um
forte sistema de nova formação espiritual se desenvolvera entre os
convervadores, levemente inspirado (e na maioria das vezes sem intenção)
na herança metodista, em grande parte pelas organizações "pára-eclesiásticas"
tais como Navegadores, Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo e
Aliança Bíblica Universitária.
[Desde os anos de 1970 e 1980, Howard Snyder, do Seminário Asbury,
tem nos lembrado incansavelmente dos recursos disponíveis na herança
metodista, e escritores como Richard Foster tem também insistido nisso
com determinação admirável. Veja
www.renovare.org]
Não os rosários, as festividades e práticas dos católicos, não as
bandas, classes e sociedades metodistas, mas sim um sistema informal
envolvendo "horas silenciosas", pequenos grupos de estudo bíblico, guias
auto-indutivos de discipulado, classes e currículos, retiros, encontros
de reavivamento, competições, conferências e atividades similares.
Em meados da década 1990 e certamente na primeira década do novo século,
mais e mais protestantes conservadores começaram a sentir que esses
métodos para-eclesiásticos atuais não estavam mais funcionando. Poucos
perceberam que muito dessa metodologia contemporânea possuía todo um
alvo moderno por detrás: inculcar uma teologia sistemática básica,
fundada em noções puramente modernas com as seguintes equações:
pensamento correto = comportamento correto, mais conteúdo bíblico =
cristãos melhores, conhecimento = poder.
Enquanto isso, almas intrépidas como
Dallas Willard,
Larry Craab, Richard Foster e outros confessaram suas observações:
teologias sistemáticas ou conhecimento bíblico simplesmente não
produziram transformação pessoal. Muitos líderes cristãos começaram
buscando por uma nova abordagem sob a bandeira da "formação espiritual".
Essa nova busca levou muitos deles de volta às práticas contemplativas
católicas e às disciplinas monásticas medievais (que, coincidentemente,
também estão sendo descobertas por muitos protestantes "liberais"
históricos com grande bênção). A busca ainda está no início, atrapalhada
por uma dependência do pensamento e da metodologia modernos difícil de
ser rompida na igreja e das pressões do consumismo na cultura como um
todo.
A busca irá gerar (eu espero, creio e oro) um novo metodismo, tão
atraente e relevante em nossos dias como os Wesley foram em seus dias.
Assim como o metodismo wesleyano, ele enfatizará a importância dos
grupos pequenos, dos amigos espirituais que se encontram para
encorajamento e apoio mútuo e não em respostas indutivas, mas em
questionamentos -- perguntas que levem a pessoa a refletir, pensar,
considerar e a prestar atenção àquilo que está se passando em sua
própria alma. Assim como o metodismo wesleyano, ele capacitará pessoas
"leigas", percebendo que o batismo em si é um tipo de ordenação ao
ministério e que o propósito do discipulado é treinar e dispor apóstolos
cotidianos. E assim como os primeiros metodistas, ele enxergará os
discipulado com o processo de estender adiante uma das mãos para
encontrar a mão de um mentor alguns passos acima no monte, e de estender
para trás a outra mão a fim de ajudar o próximo, irmão ou irmã na fila,
que também está no caminho de subida do discipulado.
Que Deus nos livre de esquecer a mão que se estende para trás. Caso
contrário, nossa ortodoxia certamente perderá a sua ortopraxia (prática
correta), o que a tornará mesquinha e também, por fim, heterodoxa.
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http://danieldliver.blogspot.com/2007/11/por-que-sou-um-metodista.html
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