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Por
Renata Oliveira
Tudo começou quando uma senhora metodista muito temente a Deus
descobriu-se vítima de uma doença que degenerava seus rins. “A
senhora está desenganada”, disse o médico. “Mas vamos
fazer o que pudermos para salvar-lhe”, tentava o consolo.
Pensativa, ela saiu do consultório em Porto Alegre e foi para
casa, na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul.
Preparando-se para a morte, aprontou um baú, para que a mulher
com quem seu marido fosse se casar não usasse suas coisas, e
voltou para fazer a cirurgia. A intervenção foi feita, e a
paciente, de uma forma miraculosa, ficou boa. Na saída,
entretanto, uma advertência deveria ser levada a sério: “Não
engravide”, disse o médico.
Dois anos se passaram, e uma gravidez aconteceu. De volta ao
consultório, ouviu duras palavras: “Será preciso
interromper a gravidez”. Sua fé, no entanto, não lhe
permitiria tal atitude. Ao deixar o especialista, encontrou-se com
uma irmã da igreja, a quem muito estimava. “Você não vai
tirar este bebê”, aconselhou a amiga. “Vamos estar ao
seu lado, fazer grupos de oração e cuidar de você”,
completou.
E assim aconteceu. A gravidez foi complicada, mas – ao final do
tempo devido – mãe e filha celebraram a vida. Hoje, 56 anos
depois, o bebê tornou-se a senhora Tânia Rösing, e ela
tem consciência de que seu nascimento foi um milagre e também
entende que sua vida deve ser muito bem vivida, para fazer valer a
pena tão preciosa experiência. “Meu pai sempre disse que eu
tinha que fazer algo de bom, que eu tinha um compromisso, uma missão”,
relembra Tânia, professora de Letras da Universidade Passo Fundo,
que carrega em seu currículo os títulos de Mestre e Doutora na
área de Teoria Literária.
Recentemente, ela recebeu a notícia de que é uma das 15
finalistas do Prêmio Cláudia 2003, uma homenagem feita pela mais
tradicional revista feminina do Brasil em reconhecimento a
mulheres que se destacaram nas áreas de Cultura, Negócios, Ciências,
Políticas Públicas e Trabalho Social. Tânia concorre na
categoria Cultura, ao lado da cineasta Kátia Lund – parceira de
Fernando Meirelles no filme Cidade de Deus – e Naomi Munakata
– regente da Orquestra Sinfônica de São Paulo.
Mas este não será o primeiro prêmio que Tânia receberá. Para
suas mãos foram prêmios em nível municipal como as medalhas
Fagundes Reis e Vitor Mateus Teixeira, além de receber o título
de Professora Emérita da Câmara dos Vereadores de Passo Fundo e
de Patrona da Feira dos Livros. Quanto ao reconhecimento estadual,
Tânia recebeu o Troféu Amigo do Livro (1992), o Prêmio Líderes
Vencedores (1999) e a Medalha da Ordem ao Mérito Farroupilha
(2003). E não foi diferente com relação às homenagens
federais: Troféu Amigo do Livro – Prêmio Jabuti (1996), APCA
– Associação Paulista de Críticos e Arte (1997), Medalha
Darci Ribeiro (1999) e Ordem Cultural dada pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso (2002). No próximo dia 19 de dezembro,
ela receberá no Rio de Janeiro a Medalha João Ribeiro, uma
homenagem feita pela Academia Brasileira de Letras.
Uma mulher de grandes sonhos
Por trás de tantos títulos está uma vida, nas palavras da
professora, “compulsiva pelo trabalho” e completamente
entregue nas mãos de Deus. Nascida e criada em uma Igreja
Metodista, onde é organista até hoje, Tânia afirma que vê o
propósito de Deus todos os dias em seu trabalho. Sua notabilidade
em nada tem a ver com nome de família ou grandes cifrões, mas é
fruto de alguém que tem alimentado durante 30 anos grandes e
contagiantes sonhos.
Casada há 32 anos, ela tem dois filhos e aguarda a chegada da
primeira netinha. E foi de seu marido, na época noivo, a idéia
de fazê-la professora, já que sua intenção era tornar-se
advogada. A mudança de planos aconteceu quando ele, que era
diretor de uma escola técnica, ficou sem uma das professoras para
dar aula ao último ano, no turno da noite. “Ele conversou com
minha professora de português e disse que, já que eu era uma
aluna bem capaz, poderia dar aula até a professora voltar”,
conta Tânia, que também estava no último ano, preparando-se
para ingressar na faculdade de Direito. A professora concordou e
ela foi lecionar provisoriamente. “Dali, eu já me dirigi
para Letras”, adiciona.
Formada, ela passou a dar aula na Universidade de Passo Fundo,
onde iniciou seu mais famoso projeto. “A minha experiência
bem especial começa no ano de 1978, quando eu estava dando aula
no curso de Pedagogia e solicitei ao diretor comprar livros
infanto-juvenis para desenvolvermos trabalhos com as alunas. Além
disso, eu também levava os livros para as praças, aos sábados,
na periferia de Passo Fundo, para viabilizar que crianças pobres
tivessem um contato direto com a literatura”, explica Tânia.
Em 1981, ela conheceu o jornalista e escritor José Guimarães.
Conversando sobre a Universidade de Passo Fundo e especificamente
sobre o curso de Letras, Tânia confessou que achava tudo “muito
chato”. “Gostaria de fazer um trabalho diferente”,
deixou escapar. Ela, então, explicou que sua idéia consistia em
levar até a cidade autores para discutir suas obras literárias.
Sua metodologia, no entanto, era reunir os participantes, antes,
para que eles pudessem ler e interagir com a obra. “Por que não
faz?”, questionou Guimarães. “Eu disse a ele que, se
eu combinasse com as pessoas que iríamos ler as obras de um
escritor e, depois, ele não viesse, ficaria complicado”.
Empolgado, o jornalista se comprometeu em levar os escritores até
Passo Fundo.
Em 1981 aconteceu a primeira Jornada Rio Grandense de Literatura.
Tânia desenvolveu a metodologia chamada de pré-jornada, onde
compareceram 250 professores. Eles leram as obras e discutiram o
conteúdo “sem o rigor da academia e sem aquele ranço da
universidade”. Quatro meses depois, concretizava-se o
encontro com os autores, do qual participaram 750 pessoas. “Foi
um sucesso”, relembra Tânia. “O trabalho aconteceu em
uma atmosfera de alegria e celebração, muito bonito. Já bem
idoso estava lá o Mário Quintana”.
Ao fazer uma reunião de avaliação com José Guimarães, ele
disse à professora que o evento deveria continuar, mas em nível
nacional. “A princípio, eu achei loucura, pois como eu
traria pessoas de outros estados?”, questionava ela. Mais
uma vez ele se comprometeu em levar os escritores, se ela se
comprometesse em realizar o evento utilizando a mesma metodologia.
Outra coisa que ficou acordada é que a Jornada aconteceria de
dois em dois anos. “Em 1983, fizemos I Jornada Nacional de
Literatura. Neste evento compareceram nomes como Millôr
Fernandes, Antonio Calado, Oto Lara Rezende, Luís Fernando Veríssimo
e Fernando Sabino, entre outros. Neste ano, participaram 1.100
pessoas”.
Sempre com a metodologia de ler a obra quatro meses antes da
Jornada, o evento foi se consolidando e crescendo a cada edição.
A primeira aconteceu em um salão de arte, depois em um ginásio
de esportes, em seguida foi para a AABB (Associação Atlética do
Banco do Brasil) e, em 1995, o evento passou a ser feito em uma
lona de circo, formato que mantido até hoje. “Nosso objetivo
básico é formar o leitor que prioriza o texto literário, mas
também torná-lo um intérprete das demais linguagens
apresentadas em diferentes suportes: do livro à tela”,
explica.
Os frutos
Em 1999, um grande número de crianças apareceu na Jornada,
levando a organização do evento a tirá-las da tenda. “Devolvemos
o dinheiro delas e retiramos a todas do evento, mas percebemos que
estávamos cometendo um suicídio. Então, em 2001, paralelamente
à 9a Jornada Nacional de Literatura, nós fizemos a I Jornadinha
Nacional de Literatura, com autores, programação, teatro, filme,
música e exposições específicos. Reunimos 6 mil crianças”.
Em 2003, Tânia resolveu ampliar o foco de atuação. “Decidimos
investir também nos adolescentes do ensino médio. Previmos 8 mil
vagas para crianças e adolescentes e 4 mil para adultos. Mas, com
três horas de inscrição, nós tínhamos, entre crianças e
adolescentes, 11 mil pessoas. Ultrapassando a expectativa em 3
mil, tivemos que ampliar a lona e a programação. Quanto aos
adultos, em menos de 24 horas, inscrevemos 4,5 mil”.
Grandes números são comuns na vida de Tânia. “Talvez isso
seja um defeito de caráter. Eu não consigo fazer um curso para
dez pessoas, pois entendo que eu poderia dar oportunidade para 50.
Só que as pessoas não entendem, já acham que é um projeto
megalomaníaco, mas não é. Eu sinto que temos um compromisso de
viabilizar o que é bom para os outros, no maior número possível”.
Com uma equipe não muito grande, ela coordena uma série de
projetos que buscam levar cada vez mais a literatura para o
cotidiano das pessoas.
“Eu já fui chamada de louca, e já fui debochada por muitas
pessoas, mas o movimento cresceu, se fortaleceu e temos o formato
da jornada assim: 35 cursos pela manhã; grande painel à tarde;
conversas paralelas com cada escritor em uma sala, antes do cair
da noite; e grandes conferências à noite. Tudo isso sem contar
com as exposições”. Lembre-se de que estes números não
incluem a Jornadinha.
Um outro fruto deste movimento é o Centro de Referência e
Literatura em Multi Meios, que funciona de segunda a sexta-feira
em três turnos, com oito computadores. “Temos atividades
para todas as faixas etárias, sempre com base no mesmo tema. Nós
passamos o ano inteiro fazendo isso. Além do acervo multimidial
(livros, revistas, CDs, CD ROMs), as pessoas trabalham oralmente e
têm um espaço com computador, usando tudo”. O apoio para a
realização de tudo isso vem dos professores da universidade, em
especial de Letras e Comunicação. Os recursos são captados,
mediante as leis de incentivo à cultura. “Eu também
coordeno um projeto de formação do professor leitor; o outro é
sobre o perfil do novo leitor. Na minha época, as primeiras
experiências com a literatura foram os contos bíblicos narrados
por minha mãe e, depois, eu entrei para a revista da igreja.
Hoje, as primeiras experiências são na televisão e no
computador. As crianças já estão assumindo uma nova cultura. Nós
precisamos entender que há um novo processo de desenvolvimento da
leitura que não necessariamente precisa começar pelo livro, se
assim o for tudo bem, mas não necessariamente”.
Seu próximo passo é a construção de um conjunto arquitetônico
chamado Portal das Linguagens. “Já conversei com os
ministros Cristovam Buarque e Miro Teixeira sobre o Portal, que
pretende abrigar um grande projeto de alfabetização cidadã, que
vai envolver a área artístico-cultural, educacional, tecnológica,
científica e corporal”, adianta.
“Tudo isso tem dado certo porque as pessoas que se reúnem ao
redor deste grande mover visualizam o objetivo básico, o qual não
tem cores político-partidário. Na condição de líder, eu não
tenho um projeto político partidário, dentro ou fora da
universidade. Por conta disso, tenho muito acesso às pessoas e
aos recursos. Acredito que sou diferente porque sou cristã, evangélica,
metodista. Quem trata comigo sabe que as coisas são resolvidas
dentro destes princípios, e isso causa até constrangimentos,
pois não negocio meus valores”, adiciona.
Receita para tanto sucesso, ela não tem. Mas carrega a certeza de
que a formação que recebeu em casa e na igreja fizeram dela o
que é hoje, um ícone na cultura brasileira. “Em primeiro
lugar, sou justa; eu procuro promover as pessoas que estão ao meu
redor e abro o caminho para elas. Eu não sou um anjo e nem
tampouco delicada, porque se eu fosse, não faria o que eu faço,
pois no primeiro ‘não’ eu já desistiria. Muitas vezes, sou
autoritária, compulsiva por trabalho, não tenho horário, não
tenho essa de ‘terminou o expediente’. Eu sempre acreditei que
a palavra impossível não existe”.
Quanto aos sonhos, Tânia também não economiza. “Meu sonho
é continuar os projetos e formar lideranças que tenham condição
de dar continuidade a eles, pois não podem ficar atrelados a mim.
Acho irresponsabilidade um líder não formar substitutos. O outro
sonho é construir o portal, é preciso diminuir o número de
analfabetos culturais. Nós temos professores universitários
analfabetos culturais, gente que não é capaz de apreciar uma peça
de teatro, não têm competência de valorizar uma arquitetura ou
uma fotografia”, finaliza.
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