Dr. Conyers Middleton

 Londres, 4 de Janeiro, 1749

 Reverendo Senhor,

 

1. Em sua última inquisição, você se esforçou para provar (1) que não existiram milagres forjados na igreja primitiva; (2) que todos os anciãos eram tolos ou patifes, e a maioria deles, tanto uma coisa quanto outra: e é fácil observar que todo o teor de seu argumento tende a provar (3) que não existiram milagres forjados por Cristo ou Seus Apóstolos; e (4) que esses também eram tolos ou patifes, ou ambos. 

2. Eu não estou de acordo com você em algum desses tópicos. Minhas razões eu devo colocar diante de você, de uma maneira tão livre, embora não em uma linguagem tão polida ou elaborada, como você colocou as suas diante do mundo.  

3. Mas eu nem tenho inclinação, nem tempo livre para segui-lo, passo a passo, através de trezentas e setenta e três páginas de livro. Portanto, deixarei de lado, tudo que eu considerar, em sua obra, que não toca os méritos da causa, e, igualmente, contradiz a própria questão, aos primeiros três séculos; porque eu não tenho mais a fazer com os escritores ou milagres do quarto, do que com aqueles do século quatorze.  

4. Você naturalmente pergunta: “Por que você parou lá? Que motivo você pode dar para isto? Se você permite milagres, antes do Império tornar-se cristão, por que não, depois, também?”. Eu repondo: Porque “depois do Império tornar-se cristão” (essas são suas próprias palavras), “uma corrupção geral, tanto da fé e moral, infectou a Igreja Cristã; e por causa desta revolução, como diz Jerônimo, ‘perdeu-se tanto da sua virtude quanto se ganhou em prosperidade e poder’”.  E este mesmo motivo, deu Crisóstomo nas palavras que você citou mais tarde: ‘Alguns perguntam, por que não se executou milagres ainda. Por que não existem pessoas que se ergueram dos mortos, ou curas de enfermidades?’ Para o que ele responde que é devido à falta de fé, virtude e devoção naqueles tempos. 

1. Você inicia seu Prefácio, observando que se pretendeu publicar a Inquirição, algum tempo atrás; mas, depois de refletir, você resolveu “soltar primeiro alguns esboços que você projetara”, e, assim, “publicou o Discurso Introdutório”, embora “prevendo que ele encontraria toda a oposição que o preconceito, idolatria, e superstição, prepararam para todas as inquirições” desta natureza. Mas para seu “conforto, isto excitaria inquiridores sinceros a pesar o mérito e as conseqüências dele”.   

2. As conseqüências dele são toleravelmente claras, até mesmo, para livrar as boas pessoas da Inglaterra de todo o preconceito, idolatria, e superstição, vulgarmente chamada de Cristianismo. Mas não está tão claro que “este seja o único expediente que pode assegurar a religião Protestante contra os esforços de Roma”.  Pode-se duvidar, se o Deísmo é o único expediente para nos assegurar contra o Papismo; porque alguns são da opinião que existem pessoas no mundo que não são Deístas, nem Papistas.  

3. Você expõe a causa, ardilosamente, o suficiente, através de uma citação do Sr. Locke. Mas concordamos em construir nossa fé na autoridade de homem nenhum. Suas razões serão consideradas em seus lugares.  

“Aqueles que escreveram contra a opinião dele e de vocês”, você diz, “mostraram grande avidez, mas pouco conhecimento da questão; persuadidos pelas esperanças de honra, e preparados para lutar por cada estabelecimento que ofereça tal pagamento aos seus defensores”. Eu não li um desses; ainda assim, de bom grado eu acredito que nem a esperança de honra, nem o desejo de pagar foram o único, ou de fato, o principal motivo que os estimulou ou a você a comprometerem-se a escrever.  

Mas eu admito que eles sejam examinados, se argumentam contra você, por citar “os testemunhos dos antigos Sacerdotes”, uma vez que facilmente perceberiam que você não presta atenção a esses, mais do que aos Evangelistas ou Apóstolos. Nem eu os aprovo, se “insinuam suspeita de conseqüências perigosas ao Cristianismo”. Por que eles insinuariam esses, eu não posso conceber: eu não necessito insinuar que o sol brilha ao meio-dia. Você tem “mostrado tão grande esplendor ao público” para deixar algum espaço para tal insinuação. Embora, para salvar as aparências, você gravemente declare ainda: “Fosse permitido ao meu argumento ser verdadeiro, o crédito dos milagres bíblicos não poderiam, em grau algum, serem estremecidos por ele”. 

4. Até ai, é ostentação. Agora vamos ao ponto. “A presente questão”, você diz, “depende da credibilidade dos fatos e das testemunhas que os atestam, especialmente”, sobre o primeiro. Porque, “se os fatos forem inacreditáveis, nenhum testemunho pode alterar a natureza das coisas”. Tudo isto é muito verdadeiro. Você prossegue: “A credibilidade dos fatos se coloca aberta à prova de nossa razão e sentidos. Mas a credibilidade das testemunhas depende da diversidade dos princípios totalmente ocultos de nós. E, embora em muitos casos possa razoavelmente ser presumido, ainda assim, em nenhum pode ser certamente conhecido”. Senhor, você se retratará ou manterá o que disse? Se você defende, e pode provar, assim como afirmar isto, então, adeus ao crédito de toda a história, não apenas sagrada, mas profana. Se “a credibilidade das testemunhas” (de todas as testemunhas, porque você não faz distinção) depende, como você autoritariamente afirma, “de uma variedade de princípios totalmente ocultos de nós”; e, consequentemente, “embora possa ser presumido em muitos casos, ainda assim, pode ser certamente conhecido em nenhum” – então, está claro que toda a história da Bíblia é extremamente precária e incerta; então, eu posso, de fato, presumir, mas não posso certamente saber, que Jesus de Nazaré, alguma vez nasceu, e muito menos que ele curou o doente e ressuscitou quer Lázaro ou a Si mesmo. Agora, senhor, prossiga e declare novamente, quão preocupado você está pelo “crédito dos milagres evangélicos!”.  

5. Mas, por temer que alguém – considerando quão “franca e aberta” sua natureza é, e quão “calorosamente disposto a falar o que você toma como verdade” –  fosse julgar o que você quis dizer nesta declaração, você cuida de informá-los, logo depois: “O todo que a sabedoria do homem pode possivelmente descobrir, tanto dos caminhos, ou vontade do Criador, deve ser adquirido por atender seriamente” --  ao que? À revelação Judaica, ou Cristã? Não; mas “a esta revelação que Ele fez de Si mesmo, desde o princípio na bela construção deste mundo visível”.   

6. Eu acredito que seus oponentes não argumentarão, daqui em diante, quer com aquela passagem de Marcos, ou alguma outra das Escrituras – pelo menos, eu não irei, exceto se eu me esquecer; como eu observo você fez exatamente agora. Porque você disse, neste momento: “Antes que prossigamos na verificação dos testemunhos, na decisão desta contenda, nosso primeiro cuidado deveria ser nos informarmos da natureza daqueles poderes milagrosos que são o objeto dela, uma vez que eles são apresentados a nós, na história do Evangelho”. Muito verdadeiro; “este seria nosso primeiro cuidado”. Eu, portanto, prestarei toda a atenção para ouvir seu relato “da natureza daqueles poderes, como eles são apresentados a nós no Evangelho”.  Mas, ai de mim! Você não diz uma palavra a mais a respeito disto; mas escorrega para aqueles “zelosos defensores que pretenderam” (homens como eram) “refutar o Discurso Introdutório”. 

Talvez você diga: “Sim, eu repito aquele texto de Marcos”. Você o faz; ainda assim, não descreve a natureza daqueles poderes, apenas dá oportunidade para “um de seus antagonistas”; de quem você mesmo afirma que “nenhum deles parece ter gasto um pensamento em considerar aqueles poderes como eles são representados no Novo Testamento”. Consequentemente, o mero repetir daquele texto não prova que você (não mais do que eles) “gastou algum pensamento sobre o assunto”.  

7. Deste antagonista, você perambula para outro; depois de uma longa citação de quem, você anexa: “De acordo, então, que na promessa original não existe insinuação de algum período específico para o qual a continuidade deles fosse limitada”. Senhor, você se perdeu. Ainda temos nada a ver com a continuidade deles. “Porque, até que tenhamos aprendido daqueles registros sagrados” (eu uso suas próprias palavras), “o que eles eram e a maneira que foram exercidos pelos Apóstolos, não podemos formar um julgamento apropriado dessas evidências que são trazidas, tanto para confirmar, quanto refutar a continuidade deles na Igreja; e deve conseqüentemente contestar ao acaso, quando a oportunidade ou preconceito possa nos induzir a respeito de coisas que nos são desconhecidas”.  

Agora, senhor, se isto for verdade (como, sem dúvida, é), então, segue-se necessariamente que – desde o início de seu livro até o fim, você não gasta  uma página para informar-se, ou aos seus leitores, com respeito à natureza desses poderes miraculosos, “como eles nos são representados na história do Evangelho” --  você discute, através do todo, “ao acaso, quando a oportunidade ou preconceito o induz, a respeito de coisas que lhe são desconhecidas”.  

8. Você responde “aos adversários de seu método”.  Eu posso deixar apenas para o presente; e o preferível, porque os argumentos usados nele ocorrerão repetidas vezes. Apenas aqui eu tomo conhecimento de uma afirmação – “que os poderes milagrosos conferidos aos próprios Apóstolos eram concedidos apenas no momento da aplicação deles, e introvertido novamente tão logo aquelas ocasiões específicas eram servidas”. Você não deveria afirmar isto, seja verdadeiro ou falso, sem uma prova mais convincente. “Isto, eu digo, é evidente”, não é prova suficiente; nem, “um tratado é preparado sobre aquele assunto”. Nem provado por aquele comentário de Grotius sobre a promessa do Senhor, ['Non omnibus omnia-ita tamen cuilibet credenti tunc data sit admirabilis facultas, quae se, non semper quidem, sed data occasione explicaret' (Grotius in Marcum xvi. 17)] que, literalmente traduzido, segue assim: “A todo crente havia, então, algum poder maravilhoso, que era exercido, não, de fato, sempre, mas quando havia oportunidade”.  

            9. Mas, deixando isto de lado, eu concordo que “o ponto simples na disputa é, se o testemunho dos Sacerdotes é alicerce suficiente para acreditar que os dons milagrosos subsistiram, afinal, depois dos dias dos Apóstolos”. Mas com isto você mistura outra questão – se os Sacerdotes não eram todos tolos ou patifes: uma vez que você fortemente insinua: (1) que tais dons nunca subsistiram, e (2) que os Apóstolos eram igualmente sábios e bons com os “encantadores” (seu termo favorito) que os seguiam.  

            Quando, portanto, você acrescenta, “minha opinião é – que, depois da ascensão do Senhor, os dons extraordinários que Ele prometeu foram derramados sobre os Apóstolos, e os outros instrumentos primários do estabelecimento do evangelho, com a finalidade de capacitá-los a vencerem os preconceitos inveterados, ambos dos judeus e gentios, e testemunharem contra os ataques de ira e perseguição popular” -- eu penso que isto é mera caricatura. Você não acredita em uma palavra do que diz; você não pode, se você acredita no que disse antes: porque, quem pode acreditar em ambos os lados de uma contradição?   

            10. De qualquer forma, eu suponho que você acredite nisto, e argumentarei com você, a partir de suas próprias palavras. Primeiro, nos permita um pouco mais delas: “No decurso do tempo, já que os poderes milagrosos começaram a ser cada vez menos necessários, então, eles começaram gradualmente a declinar, até que finalmente se retraíram”; “e provavelmente podemos pensar que isto ocorreu, enquanto alguns Apóstolos ainda viviam”. 

            Esses foram dados, você diz, para os primeiros plantadores do evangelho, “com o objetivo de capacitá-los a vencerem os preconceitos inveterados, ambos dos judeus e gentios, e testemunharem contra os golpes de perseguição”. Até ai, concordamos. Eles foram dados para essas finalidades. Mas, se você admite isto, você não pode supor, consistentemente consigo mesmo, que eles se retraíram até que essas finalidades foram completamente cumpridas. Logo, portanto, uma vez que aqueles preconceitos subsistiram, e os cristãos foram expostos aos ataques de perseguição, você não pode negar que existiram as mesmas oportunidades para que aqueles poderes continuassem, como aconteceu a princípio. E isto, você diz, é “um postulatum, a que todas as pessoas concordarão, a de que eles continuaram, por quanto tempo foram necessários à Igreja”.   

            11. Agora, aqueles preconceitos cessaram ou foi a perseguição, enquanto alguns dos Apóstolos ainda viviam? Você mesmo mostrou abundantemente que não cessaram. Você sabe que existiu tão dura perseguição no século três, quando aconteceu no século primeiro, enquanto todos os Apóstolos estavam vivos. E com respeito aos preconceitos, você habilmente observou que “os principais escritores de Roma, que fazem alguma menção aos cristãos, a respeito do tempo de Trajano, falam deles como uma seita de desprezíveis, obstinados, e, até mesmos fanáticos miseráveis”; que “Suetonius os chama de ‘uma raça de homens de uma nova e perniciosa superstição’”; e que Tácito, descrevendo as horríveis torturas que sofreram, sob o governo de Nero, diz: “Eles foram detestados por suas práticas infames; possuídos de uma superstição abominável; e condenados, não tanto pelo seu suposto crime de incendiar a cidade, quanto pelo ódio de toda a humanidade”.  

             E “a condição deles”, você diz, “continuou a mesma, até que eles foram instituídos pelo poder civil. Durante todo aquele tempo que foram constantemente insultados e caluniados por seus adversários pagãos, como uma seita estúpida, crédula, ímpia, a própria escória da humanidade”. Em uma palavra, ambos com respeito ao preconceito e perseguição, eu li nas suas paginas seguintes:  

            “Os magistrados ateus não se dariam ao trabalho de fazerem a menor inquirição nas maneiras ou doutrinas deles, mas os condenaram pelo mero nome, sem exame, ou prova; tratando os cristãos, é claro, como culpados de todo o crime, como inimigos dos deuses, imperadores, leis e da própria natureza”.   

            12. Se, portanto, a finalidade daqueles poderes milagrosos foi “vencer os preconceitos inveterados, e capacitar os cristãos a testemunharem contra os ataques de perseguição”, como você pode possivelmente conceber que aqueles poderes cessariam, enquanto alguns dos Apóstolos viviam? Com que nuança você pode afirmar que eles eram menos necessários para aquelas finalidades, no segundo e terceiro século, do que na era apostólica? Com que sombra de razão, você pode manter que (se eles sempre subsistiram, afinal) eles se retraíram finalmente, antes que o Cristianismo fosse estabelecido pelo poder civil? Então, de fato, essas finalidades declaradamente cessaram, a perseguição chegou ao fim, e os preconceitos inveterados, de tanto tempo, foram, em grande medida, arrancados – outra razão clara, porque os poderes que deveriam equilibrar esses deveriam permanecer na Igreja, por aquele tempo, e não mais.           

13. Você continua a nos informar, com as excelências de seu desempenho. “O leitor”, você diz, “encontrará nesses papéis, nenhuma daquelas artimanhas que são comumente empregadas pelos contendores para desorientar uma boa causa, ou mitigar uma má; nenhum requinte tênue, construções forçadas, ou distinções evasivas; mas o claro raciocínio, alicerçado nos fatos óbvios, e publicados com uma visão honesta e desinteressada, com o objetivo de livrar as mentes de uma impostura inveterada. Eu mostrei que os antigos Sacerdotes, que impuseram aquela ilusão, foram extremamente crédulos e supersticiosos, possuidores de fortes preconceitos, e não hesitantes na arte ou meios, pelos quais, eles propagariam o mesmo”. Certamente, senhor, você acrescenta a última parte deste parágrafo de propósito para confundir o anterior; porque exatamente aqui você usa uma das artimanhas mais desonestas que a maioria dos contendores desonestos pode empregar, no esforço de evitar o julgamento do leitor, e lesá-lo contra aqueles homens sobre os quais ele não deveria passar qualquer sentença, antes que ele ouvisse a evidência.  

1. No início de seu Discurso Introdutório, você declara as razões que o moveram a publicá-lo. Uma dessas, você diz, foi o recente aumento do Papismo, neste reino; principalmente ocasionado, como você supõe, pelas afirmações presunçosas dos emissários Papistas de que houve uma sucessão de milagres em suas Igrejas desde a era apostólica, até a presente. Para prevenir esta contestação, você “estabeleceria algumas regras, para discernir o verdadeiro do falso, de maneira a dar uma razão para admitir os milagres de uma época, e rejeitar aqueles de outra”.   

2. Isto soa agradável, e é extremamente bem arquitetado, para predispor um leitor Protestante a seu favor. Você, então, desliza com grande artimanha em seu assunto: “Esta reivindicação de poder milagroso, agora peculiar para a Igreja de Roma, foi afirmada em todas as regiões cristãs, até a Reforma”. Mas, então, “a fraude foi detectada” – mais do que isto, os homens começaram a “suspeitar que a Igreja, há muito, havia sido governada pelas mesmas artimanhas”. “Porque foi fácil localizá-las na Igreja primitiva, mas não fixar o tempo em que a fraude começou; mostrar por quanto tempo depois dos dias dos Apóstolos, os dons milagrosos continuaram na Igreja”. No entanto, crê-se comumente que eles continuaram até que o Cristianismo foi estabelecido como religião. Alguns, de fato, os estendem até o quarto e quinto séculos; mas esses, você diz, traem a causa Protestante. “Porque no terceiro, quatro e quinto, as principais corrupções do Papismo foram introduzidas, ou, pelo menos, as sementes delas plantadas. Por esses eu quero dizer comportamento; adoração às relíquias; invocação dos santos; orações pelos mortos; o uso supersticioso de imagens, de sacramentos, o sinal da cruz, e o óleo consagrado”.  

            3. Eu nada tenho a ver com o quarto ou quinto século. Mas o que você alega em apoio a esta acusação, até onde ela se refere ao terceiro século, eu tenho algumas coisas a responder.  

            Primeiro, você não citou uma linha de qualquer Ancião no terceiro século, em favor da prática monástica, a adoração às relíquias, a invocação dos santos, ou o uso supersticioso quer de imagens ou óleo consagrado. Como é isto, senhor? Você trouxe oito acusações, de uma vez, contra os Anciãos do terceiro, assim como dos séculos seguintes; e quanto aos do quinto e oitavo, quando lhe é requerido a prova, você tem nada a dizer! Quanto ao sexto, você diz: “No sacramento da eucaristia, diversos abusos foram introduzidos”. Você exemplifica, primeiro, o misturar o vinho com a água. Mas, como aparece que este seria algum abuso, afinal? Ou que “Irenaeus declarou que isto tem sido ensinado, assim como praticado por nosso Salvador?”. As palavras que você citou para provar não provam, afinal; elas simplesmente relatam a matéria do fato – “Tomar o pão, Ele confessou ser este Seu corpo; e o cálice misturado, Ele afirmou que era Seu sangue”. Você não pode ser ignorante deste fato – de que o cálice usado depois da ceia pascal sempre foi misturado com água. Mas “Cipriano declarou que este mistura fora prescrita para si mesmo, pela revelação divina”. Se ele o fez, isto não prova que seja um abuso; de maneira que você está distante do ponto em questão ainda.  

            Você exemplifica a seguir que o enviar o pão ao doente; (assim como a mistura) é mencionado por Justino Mártir. Com este fato igualmente concordamos; mas você não provou que este seja um abuso. Eu concordo que, há aproximadamente cem anos, alguns começaram a ter um cuidado supersticioso com este pão. E que “nos dias de Tertuliano, foi levado para casa e trancado como um tesouro divino”. Eu peço que prove; tanto quanto que a comunhão infantil foi um abuso, ou o chamar isto de “o sacrifício do corpo de Cristo”. Eu acredito que o oferecê-lo aos mártires foi um abuso; e que este, juntamente o uso supersticioso do sinal da cruz, existiram, se não nos primórdios, afinal, ainda assim, tão logo quanto algum que se moveu para dentro da Igreja Cristã.  

            4. É certo que “orar para o morto era comum no segundo século”. Você poderia dizer: “E no primeiro, também”; vendo que a petição, “Teu reino vem”; declaradamente se refere aos santos no paraíso, assim como aqueles sobre a terra. Mas isto está longe de afirmar que “o propósito era procurar alívio e conforto para as almas dos mortos, em algum estado intermediário das dores expiatórias”, ou que “esta foi a opinião geral daqueles tempos”.  

            5. Quanto ao “óleo consagrado”, você parece se esquecer completamente que não foi Jerônimo, nem Crisóstomo, mas Tiago quem disse, “Existe algum doente entre vocês? Que ele seja enviado para os anciãos da Igreja; e que eles orem sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor: e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o ressuscitará”. (versículo 14-15). 

            Em resumo: você acusa os Anciãos do terceiro século com oito das principais corrupções do Papismo – (1) monastério; (2) adoração às relíquias; (3) invocação dos santos; (4) o uso supersticioso de imagens; (5) o óleo consagrado; (6) os sacramentos; (7) com o sinal da cruz; (8) orar pelos mortos.  

            E por que desta acusação pesada, finalmente? Porque, exatamente assim: alguns deles, no início do século terceiro, usaram supersticiosamente o sinal da cruz; e outros, na metade daquele século, ofereceram eucaristia para os mártires em seus festivais anuais; ainda assim, como você faz disto “o uso supersticioso dos sacramentos”, eu não sei, ou como esses se tornam “as principais corrupções do Papismo”. 

            Orar assim para os mortos, “para que Deus logo concluísse o número de Seus eleitos e apressasse Seu Reino”, e o ungir o doente com óleo, você não provará facilmente que sejam corrupções, afinal.  

            Quanto ao monastério, a adoração de relíquias, invocação dos santos, e o uso supersticioso de imagens, você nem mesmo tentou provar que esses Anciãos eram culpados; de maneira que, pelo que parece, você poderia, tanto quanto, ter colocado a culpa deles sobre os Apóstolos. “Ainda que não sejam mais”, você solenemente nos assegura, “do que o fato e verdade o obriguem a dizer!”. Quando eu me deparar com algumas dessas afirmações para o tempo vindouro, eu me lembrarei de me precaver.  

            6. Nas páginas seguintes, você argumenta contra os milagres do quarto e quinto século. Depois, acrescenta: “Mas, se esses devem ser rejeitados, onde, então, devemos parar? E em que período, devemos nos restringir? Esta, de fato, é a grande dificuldade, e tem intrigado todos os outros doutores que consideraram a mesma questão antes de mim”. Senhor, sua memória é curta. Neste mesmo discurso, você disse exatamente o contrário.  Você nos disse, há pouco, que não apenas o Dr. Marshall [Thomas Marshall, D.D., Reitor do Lincoln Colllege 1672], Dr. Dodwell, e o Arcebispo Tillotson, mas a generalidade dos doutores Protestantes estavam de acordo com qual período deveriam se restringir, acreditando que os milagres subsistiram, através dos  três primeiros séculos, e cessaram no início do quarto.  

            7. De qualquer forma, já que nenhum deles pode ficar perplexo mais, você “colocará alguns princípios gerais, que podem nos conduzir a uma solução mais racional para o assunto, do que alguma que nos foi oferecida até aqui”. Novamente, eu estava todo atento. E o que a montanha produziu? Quais são esses princípios gerais, precedidos por tão solene declaração, e colocados nas treze páginas consecutivas? Porque, eles diminuem para um – “que os milagres forjados no quarto século mancham o crédito de todos os últimos milagres!”. Eu gostaria que você provasse que os milagres do quarto século foram todos forjados, mas este não é o assunto de nossa questão. 

            8. Mas você se esforça para mostrar: “Porque aquela surpreendente confiança”, você diz, “com que os Sacerdotes do quarto século afirmaram como verdade, aquilo que eles mesmos forjaram, ou, pelo menos, sabiam que fora forjado” (um pouco mais prova disto), “faz com que suspeitemos que tão arrojado desafio da verdade não se tornaria geral, de repente, mas seria conduzido gradualmente até aquele patamar, pelo costume e exemplo dos tempos anteriores”. Não parece que ele se tornou geral, até muito tempo depois do quarto século. E já que esta suposição não é suficientemente provada, a inferência dela não tem importância. 

            9. Em Segundo Lugar, você diz: “Esta época, em que o Cristianismo foi estabelecido, não deu oportunidade para quaisquer milagres. Portanto, eles não forjariam milagres, quando não havia tentação específica para isto”. Sim, a maior tentação no mundo, se eles eram homens como você supõe. Se não tivessem escrúpulos na arte ou forma de aumentar o próprio crédito e autoridade deles, eles naturalmente “começariam a forjar milagres”, num tempo em que os milagres reais não existiam mais.   

            10. Em Terceiro Lugar, você diz: “Os Sacerdotes posteriores tinham a mesma devoção que os anteriores, mas mais aprendizado, e menos credulidade. Se, se constatasse, então, que esses forjaram milagres, ou propagaram o que eles sabiam que eram forjados, ou se iludiram com as mentiras de outros, isto estimularia a mesma suspeita de seus predecessores”. 

            Eu respondo: (1) não está claro, que os Sacerdotes posteriores tinham igual devoção que os anteriores. Nem (2) que eles tinham menos credulidade. Parece que alguns deles tinham muito mais: notificavam o camelo de Hilarion, e sentiam o odor do diabo ou de um pecador; embora não tivessem o olfato tão apurado quanto o de Pachomio, que (como muitos acreditam até hoje) podia “sentir o odor de um herético a milhas de distância”. Mas, se (3) os primeiros Sacerdotes eram mais santos do que os posteriores, eles não apenas iludiam menos os outros, mas (mesmo na suposição de Platão) iludiam a si mesmos; porque eles teriam mais assistência de Deus.  

            11. Mas, você diz, Em Quarto Lugar: “As primeiras eras da Igreja não foram mais puras do que as recentes: Mais do que isto, em alguns aspectos, foram piores: porque nunca tantas heresias florescentes foram professadas, ou tantos livros espúrios, forjados e publicados, sob os nomes de Cristo e Seus Apóstolos; diversos dos quais, citados pelos mais eminentes Sacerdotes dessas eras, com a mesma autoridade que as Escrituras. E ninguém pode duvidar que aqueles que forjassem ou fizessem uso de livros forjados, fariam uso de milagres forjados”.  

Eu respondo: (1) Admite-se que, antes do fim do terceiro século, a Igreja encontrava-se grandemente degenerada de sua primeira pureza. Ainda assim, eu não duvido (2) que abundantemente mais heresias grosseiras foram publicamente confessadas nas muitas eras posteriores; mas não publicamente protestadas, e, portanto, os historiadores não as registraram. (3) Você não pode deixar de saber que tem sido sempre entendimento dos homens eruditos (que você é livre para refutar, se for capaz), que muito mais foram compilados pelos inaptos, homens bem intencionados do que havia sido oralmente passado pelos Apóstolos. Mas (4) sempre existiram na Igreja, desde o início, homens que tinham apenas o nome de cristãos. E esses, sem dúvida, eram capazes de fraudes religiosas (assim chamadas). Mas isto não deveria colocar a culpa sobre todo o corpo. Acrescente a isto (5) o que é observado pelo Sr. Daille – “Eu atribuo grande parte deste dano àqueles homens que, antes da invenção da imprensa, eram os que copiavam os manuscritos. Podemos bem presumir que eles tiveram a mesma liberdade em forjar, como lamenta Jerônimo, o que fizeram nos livros corrompidos, especialmente uma vez que esta medida era benéfica a eles, o que a outra não era”. Muito mais para este mesmo propósito temos em seu tratado do Uso Correto dos Sacerdotes.  Esses copiadores não eram todos cristãos – não, nem no nome; talvez, poucos, se algum deles, no século primeiro. (6) Mas com que evidências, você prova que esses livros espúrios “eram frequentemente citados pelos mais eminentes Sacerdotes, não apenas como genuínos, mas com a mesma autoridade que as próprias Escrituras?”. Ou, por fim, que eles tanto forjaram esses livros, quanto fizeram uso do que sabiam ser forjados? Essas coisas também você não deve tomar como garantido, mas provar, antes que seu argumento possa ser forçado.    

            12. Chegamos por fim, à sua conclusão geral: “Não existe suficiente razão para se crer que alguns poderes milagrosos subsistiram em alguma época da Igreja, depois dos tempos dos Apóstolos”.  

            Mas pretensos milagres, você diz, surgiram assim: “Quando a suma autoridade dos escritos apostólicos estimulou alguns dos mais eruditos cristãos” (prove isto) “a forjarem livros, sob seus nomes; de maneira que a grande fama dos milagres apostólicos naturalmente estimularia alguns dos mais astuciosos, quando os Apóstolos já estavam mortos para atacarem alguns embustes fraudulentos na imitação deles. E quando esses simuladores ardilosos mantiveram seu pretexto, por todos os três primeiros séculos, os primeiros clérigos do quarto entenderam o interesse deles muito bem, para discordarem do antigo argumento de dons milagrosos”.  

            Consideráveis afirmações, de fato! Mas certamente, senhor, você não pensa que os homens razoáveis tomaram isto como provas! Você está aqui apresentando uma acusação da mais perversa natureza. Mas onde estão suas provas? Onde estão os testemunhos para apoiarem isto? Até agora, você não foi capaz de produzir um, no curso de trezentos anos; exceto se produzir aqueles pagãos, de cujos preconceitos estúpidos, impudentes, você mesmo tem dado tão claro relato.  

            Mas você pretendeu produzir seus testemunhos na Inquirição Livre, um ano ou dois depois que o Discurso Introdutório foi publicado. Assim, você os condena, primeiro, e os prova, depois; agora você dará a sentença, e ouvirá a evidência, mais tarde! Um exemplo genuíno daquela “preocupação imparcial com a verdade”, que você professa em todas as ocasiões.  

            13. Outro exemplo disto, em sua nota periférica: “Os cristãos primitivos foram perpetuamente reprovados por sua grosseira credulidade”. Eles foram; mas por quem? Ora, pelos judeus e pagãos. Assim sendo, os dois testemunhos que você produziu aqui são Celsus, o Judeu, e Juliano, o apóstata. Mas, com receio de que isto não fosse suficiente, você os faz confessar a acusação. ”Os Sacerdotes”, estas são suas palavras, “se defenderam, dizendo que eles não fizeram mais do que os filósofos sempre fizeram: que os preceitos de Pitágoras foram inculcados com um ipse dixit, e consideraram o mesmo método proveitoso que o vulgar”. E esta é toda a defesa? Os próprios homens aos quais você se refere, Orígenes e Arnobius, nos mesmos tratados aos quais você alude, não deram outra resposta do que este argumento apelativo? Permaneça esta, como outra prova genuína da candura e imparcialidade do Dr. Middleton! 

            14. Eu encontro na página seguinte, uma prova adicional de sua “natureza franca e aberta”, e de seu “contentar-se com o desencargo de sua consciência, através da livre declaração de seus reais sentimentos”. Aqui, você solenemente declara: “O Cristianismo é confirmado pela evidência de tais milagres, quando, de todos os outros registros, são os menos propensos à exceção, e carregam as marcas mais claras da sinceridade deles; sendo produzidos por Cristo e Seus Apóstolos, para uma finalidade tão grande, tão importante, de maneira a ser altamente merecedora da interposição da Deidade; produzidos pelos homens comuns e simples, e entregues pelas testemunhas oculares, cujas reputações excluem a suspeita de fraude”. Senhor, você acredita em uma palavra do que tão solenemente declara? Você mesmo tem feito o contrário. Mas se você não o faz, como devemos considerá-lo? Ou como poderemos acreditar em você numa outra oportunidade? Como podemos saber, eu não sei dizer, quando você fala a verdade, a não ser quando você nos faz pensar que fala? Por qual critério devemos distinguir entre o que é falado em seu caráter verdadeiro, e o que é falado em seu caráter simulado? Como discernir, quando você fala como o Dr. Middleton, e quando fala como um bibliotecário público? 

            15. Você prossegue: “Por outorgar aos Católicos Romanos, apenas uma simples era de milagres, depois dos Apóstolos, nos emaranhamos em dificuldades, de onde nunca poderemos nos libertar, até que admitamos os mesmos poderes na presente século”. Eu os admito, no entanto, três séculos de milagres, e que eles façam qual proveito disto, eles puderem.   

             Você prossegue: “Se as Escrituras são uma regra completa (eu rejeito a palavra ‘suficiente’, porque ela é ambígua), nós não temos necessidade de Sacerdotes como guias, ou, se claras, como intérpretes. Uma estima por eles tem levado muitos a erros perigosos: o negligenciar deles pode ter nenhuma conseqüência má”. Eu respondo: (1) As Escrituras são uma regra completa de fé e prática; e elas são claras em todos os pontos necessários; mas, ainda assim, a clareza delas não prova que elas não necessitam ser explicadas, nem sua inteireza, de que não precisam ser reforçadas. (2) A consideração dos escritos dos três primeiros séculos, não igualmente como as Escrituras, mas próximos a elas, nunca conduziram homem algum a erros perigosos, nem provavelmente o fará. Mas isto tem trazido muitos dos erros perigosos, e especialmente dos erros do Papismo. (3) O negligenciar, em seu sentido de Sacerdotes primitivos – ou seja, o pensar que eles eram todos tolos e patifes – tem esta conseqüência natural (que eu garanto não é prejudicial, de acordo com seus princípios), de faz com que todos os que não são verdadeiros cristãos acreditem que Jesus de Nazareth e Seus Apóstolos eram tão honestos e sábios como eles.  

16. Você, em seguida, se esforça para mostrar como a Igreja da Inglaterra veio a ter tal consideração pelos Patriarcas do passado. Existem diversos pormenores neste relato que estão propensos à exceção. Mas, eu os deixarei passar, quando eles tiverem pequena ligação com o ponto em questão.  

17. Você conclui seu Discurso Introdutório: “O objetivo do presente tratado é fixar a religião dos Protestantes em seus alicerces apropriados – ou seja, sobre as Sagradas Escrituras”. Aqui, novamente, você fala, em seu caráter pessoal, como também, quando “livremente utiliza-se dos escritores primitivos, no testar e transmitir a nós os genuínos livros das Santas Escrituras!”. Livros para o completo testemunho, assim como a segura transmissão, a respeito do que, você, sem dúvida, tem a mais profunda preocupação!  

18. Eu não posso repudiar este Discurso, sem deixar de observar que a incomum destreza e malícia, que resplandecem através de toda sua obra, necessitam causar aversão a todo homem honesto e de coração correto; nem ele é algum crédito, afinal, à causa que você expôs. Mais do que isto, eu estou persuadido de que existem muitos nesses reinos que, embora pensem como você, com respeito ao sistema cristão, ainda assim, não suportariam a idéia de escrever contra ele, da maneira como você o faz; de combater fraude (se for assim) com fraude, e praticar a mesma coisa que eles professaram expor e abominar.  

Em sua Inquirição Livre, você propõe: - 

I. “Formular, em ordem, todos os principais testemunhos que se refiram aos dons milagrosos, como eles são encontrados nos escritos dos Patriarcas, desde as eras mais antigas, depois dos Apóstolos, de onde teremos uma visão de toda a evidência, através da qual, eles têm sido apoiados”. 

II. “Juntar tudo que aqueles Patriarcas declararam, com respeito às pessoas terem sido dotadas com aqueles dons”.  

III. “Ilustrar as características específicas e opiniões dos que atestam aqueles milagres”.  

IV. “Rever todos os tipos de milagres que se entende, forjados, e observar da natureza de cada um, até onde, eles podem ser razoavelmente prováveis”.  

V. “Refutar algumas das mais plausíveis objeções que foram feitas”.  

Eu tinha esperanças que você desse, pelo menos, no adentrar em sua principal obra, o que você prometeu há muito, um relato da “natureza e condição apropriada daqueles poderes milagrosos que são o objeto de toda disputa, como eles são representados a nós, na história do Evangelho”. Mas, como você não parece ter qualquer intenção de fazer isto, afinal, você me permite, por fim, que eu o faça por você.  

A promessa original transcorre assim: ”Esses sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão”. (Marcos 16:17-18)

Um relato adicional é dado deles, por Pedro, no mesmo dia, em que aquela promessa foi cumprida: “Isto foi o que o profeta Joel falou: E nos últimos dias, disse Deus... seus filhos e filhas profetizarão, e os jovens terão visões, e os velhos sonharão”. (Atos 2:16-17)

O relato de Paulo é um pouco mais completo do que este: “Existe uma diversidade de dons” (carismavtwn, o termo bíblico usual, para os dons milagrosos do Espírito Santo), “mas o mesmo Espírito. A um, foi dada a palavra de sabedoria; a outro, os dons de cura; a outro, a obra de outros milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento dos espíritos; a outros, a variedade de línguas; a outro, a interpretação das línguas: todos esses, operados pelo mesmo Espírito, repartindo, a cada homem, exatamente como Ele deseja”.  (I Cor. 12:4-11)

De onde podemos observar, que o principal carivsmata, “dons espirituais”, conferidos à Igreja apostólica foram: (1) expulsar demônios; (2) falar novas línguas; (3) escapar de perigos, dos quais, ao contrário, teriam perecido; (4) curar o doente; (5) profetizar, predizer coisas futuras; (6) visões; (7) sonhos divinos; e (8) discernir dos espíritos.  

Alguns desses parecem ter sido principalmente designados para a convicção dos judeus e pagãos, como o expulsar demônios, e falar novas línguas; alguns, especialmente, para o benefício de seus camaradas cristãos, como a cura do doente, predizer coisas vindouras, e o discernimento dos espíritos; e todos, com a finalidade de capacitar aqueles que forjaram ou os viram “a assumirem pacientes a corrida que se coloca diante deles”,  em meio a todas as tempestades de perseguição que a maioria dos preconceitos inveterados, ira, e malícia, levantaria contra eles.  

            1. Você deve, primeiro, “formular, em ordem, todos os principais testemunhos que se refiram aos dons milagrosos, como eles são encontrados nos escritos dos Patriarcas das primeiras eras, depois dos Apóstolos”.  

            Você começa com os Patriarcas apostólicos – ou seja, aqueles que viveram e conversaram com os Apóstolos. “Existem diversos”, você diz, “com esta característica, cujos escritos ainda permanecem: Barnabé, Clemente, Inácio, Policarpo, Hermas. Agora, se esses dons subsistiram, até depois dos dias dos Apóstolos, esses devem ter tido uma larga porção deles. Mas, se algum deles tiveram, ele mencionaria isto em seus escritos, o que nenhum deles o fez”. 

            O argumento, completamente proposto, transcorre assim: 

            Se algum desses dons subsistiu neles, ou no tempo deles, eles deveriam tê-lo mencionado em suas Epístolas circulares às igrejas (para este propósito, seus predecessores, os Apóstolos, o fizeram); mas eles não mencionaram quaisquer dons nela; portanto, eles não subsistiram nele, ou em seu tempo. 

            Seu argumento, portanto, prova muito; nem pode ele concluir contra algum Patriarca apostólico, sem concluir contra o Apóstolo também.  

            Se, portanto, os Patriarcas apostólicos não mencionaram algum dons milagrosos, em suas Epístolas circulares às igrejas, você não poderia concluir que eles não possuíam algum; uma vez que nem os que admitem possuí-los, os mencionam em suas Epístolas circulares. 

            De todos os Apóstolos, você pode produzir apenas um, Paulo, que faz menção a esses dons: e isto, não em suas Epístolas circulares às Igrejas; porque eu não sei se ele escreveu alguma delas.   

            2. Todo este tempo, eu tenho argumentado com suas próprias suposições de que esses cinco Patriarcas apostólicos escreveram Epístolas circulares às Igrejas, e, ainda assim, nunca mencionaram esses dons nelas. Mas, nenhuma dessas suposições é verdadeira. Porque, (1) Hermas não escreveu Epístola, afinal. (2) Embora o restante escrevesse Epístolas às Igrejas específicas (Clemente aos Coríntios, Ignácio aos Romanos, etc.), também nenhum deles escreveu qualquer Epístola circular às Igrejas, como aquelas de Tiago, e Pedro, exceto se admitirmos que seja uma Epístola genuína a que leva o nome de Barnabé. (3) Você reconhece que eles todos “falaram de dons espirituais, em meio aos cristãos daquela época”; mas afirma, “que esses não podem significar algo mais do que fé, esperança, e caridade”. Você afirma: mas, a prova, senhor, eu quero a prova. Embora eu seja apenas o inculto, ainda assim, eu não sou metade tão crédulo quanto você considera que os primeiros cristãos foram. Algo afirmado, não me satisfaz: eu quero prova clara, limpa, lógica; especialmente, quando eu considero o quanto você constrói encima disto – que é o principal alicerce em que suas hipóteses se situam. Você mesmo deve admitir que nas Epístolas de Paulo, os “dons espirituais” sempre significam mais do que fé, esperança e amor; e que eles significam constantemente, “dons milagrosos”. Como, então, você prova que nas Epístolas de Ignácio, menciona-se completamente outra coisa? Nem dons milagrosos, mas apenas os dons comuns e as graças do evangelho? Eu penso que “o leitor não deve encontrar distinções evasivas nos papéis seguintes”.  Prove, então, que esta distinção não é evasiva, que algumas palavras significam coisas absolutamente diferentes. Até que isto seja clara e solidamente feito, os homens razoáveis devem acreditar que esta e expressões semelhantes querem dizer a mesma coisa nos escritos dos Patriarcas apostólicos, quanto nos escritos dos Apóstolos – ou seja, não as graças comuns do evangelho, mas os dons extraordinários do Espírito Santo.  

            3. Você almeja, de fato, como prova, o que seria expressivo ao ponto, se você não seria capaz de distinguir isto. “Esses mesmos Patriarcas parecem desaprovar todos os dons de um tipo mais extraordinário. Assim, Policarpo, em sua Epístola aos Filipenses, diz: ‘Nem eu, nem qualquer outro tal como eu, pode chegar à sabedoria do abençoado Paulo’. E na mesma Epístola, ele declara: ‘que não é concedido a ele praticar isto’. Indignem-se, e não pequem’. Ignácio, também, em sua Epístola aos Efésios, diz: ‘Essas coisas eu prescrevo a vocês, não como se eu fosse alguém extraordinário; porque eu penso que eu sou constrangido pelo nome Dele, e não sou ainda perfeito em Jesus Cristo’”. Eu penso verdadeiramente que essas provas extraordinárias podem ficar sem qualquer resposta.  

            4. Ainda assim, você cortesmente acrescenta: “Se das passagens referidas acima, ou de alguma outra, parecer provável a alguém que eles foram favorecidos em algumas ocasiões com algumas iluminações, visões, ou divina impressões extraordinárias, eu não discutirei aquele ponto; mas os lembro apenas que esses dons foram transmitidos para o conforto específico deles, e, portanto, de maneira alguma afetam ou se referem à questão agora diante de nós”.  

            Eu peço perdão, senhor. Esses afetam profundamente, e bem próximo se referem também à questão agora diante de nós, mesmo quando você coloca, que, em admitir esses, você desiste da matéria da questão. Você mesmo declarou que uma grande finalidade dos dons extraordinários, conferidos sobre os Apóstolos, foi “capacitá-los a resistirem contra os impactos da ira popular e perseguição”. Agora, não foram as “iluminações, visões, e impressões extraordinárias”, se dadas, afinal, dadas para esta mesma finalidade – “para o conforto específico deles”, como você agora exprime isto? Portanto, em admitir esses aos Patriarcas apostólicos, você admite os dons extraordinários, que foram anteriormente concedidos aos Apóstolos, de subsistirem na Igreja, depois deles, e para a mesma finalidade de antes.  

            5. Portanto, os escritores apostólicos não nos deixaram no escuro, com respeito ao nosso presente argumento, e, consequentemente seu triunfo também vem logo: “Aqui, então, há um intervalo de meio século, no qual temos a mais forte razão para presumir que os dons extraordinários da era apostólica foram removidos”. Não, nem se todos os Patriarcas apostólicos falassem dos dons espirituais, como abundando em meio aos cristãos daquela época; nem se “as extraordinárias iluminações, visões e impressões divinas ainda subsistissem dentre eles”. Porque, já que você coloca nisto, “como exercidos abertamente na Igreja para a convicção dos descrentes”, eu desejo que você retire novamente; porque se tornou um grande acordo, tarde demais. A questão entre mim e você foi colocada sem esta afirmação, centenas de páginas atrás. Ainda que seja admitida, não será de utilidade para você; uma vez que sua proposição é negar que houve “dons milagrosos depois dos dias dos Apóstolos”, quer eles fossem “abertamente exercidos para a convicção dos descrentes” ou não.  

            6. Eu fiquei um pouco surpreso que você se despedisse dos Patriarcas apostólicos tão cedo. Mas, procurando mais adiante, minha surpresa chegou ao fim: Eu não o considerei culpado de qualquer intento de dispensá-los; mas apenas de adiar suas observações, até que o leitor pudesse se preparar para o que o teria chocado, se colocado em seu lugar apropriado.  

            Eu não acho, de fato, que você faz alguma objeção a alguma parte das Epístolas de Ignácio; não, nem à Epístola Católica, assim chamada, e que está inscrita com o nome de Barnabé. Isto claramente me convence de que você não a leu – e eu estou apto a pensar, que nem uma página dela; porque, se você tivesse lido, você nunca teria deixado passar tal oportunidade de expor um daqueles que foi chamado de Patriarca apostólico.  

            7. Mas seria estranho, se você não tivesse, em algum lugar, trazido a famosa fênix de Clemente Romano. E assim, você é mais misericordioso neste assunto, observando meramente, que “ele alegou a ridícula história de fênix, como um tipo e prova de ressurreição. Quer todos os escritores pagãos tratem isto como nada mais, a mera fábula, eu não conheço”. Mas se for assim, está certo, e consequentemente, o argumento traçado, a respeito dela, é fraco e inconclusivo. No entanto, consequentemente não se segue que Clemente era um fraco ou que ele não tinha dons extraordinários do Espírito.  

            8. Não existe mancha verdadeira a ser encontrada em todo o caráter de Policarpo. Mas existe uma circunstância deixada, concernente a ele que tem a aparência de fraqueza. E com isto, você não falha em familiarizar o leitor, na ocasião conveniente – ou seja, “que, na maioria das disputas antigas, com respeito à data certa da Páscoa, Policarpo e Aniceto, duramente alegaram a tradição católica para sua prática diferente”. E não é improvável que ambos alegaram o que era verdade; que, em um ponto de tão pouca importância, os Apóstolos se diversificavam, alguns deles observando-a, no  décimo-quarto dia da lua, e outros, não. Mas, seja como for, isto não pode ser prova, de que Policarpo era ou não um homem santo, ou que ele não fora favorecido com os dons extraordinários e comuns do Espírito. 

            9. Com respeito à narrativa de seu martírio, você afirma: “É uma das mais autênticas peças em toda a Antigüidade primitiva”. Eu não me responsabilizarei por esta autenticidade; não, portanto, pela estória da pomba, a chama formando um arco, o cheiro de fragrância, ou a revelação a Pionius. Mas sua tentativa de relatar essas coisas é verdadeiramente curiosa. Você diz: “Um arco de fogo, em redor de seu corpo é uma forma, que facilmente acontece dos efeitos comuns do vento. E a pomba dita voar dele, seria levada para dentro da madeira, que estava preparada para consumi-lo”.  Quanto mais natural seria supor que se trata de uma ficção moderna, escrita na ocasião daquele relato mencionado por Eusébio, mas perdido muitos anos atrás! Mas, o que quer que seja pensado a respeito deste relato de sua morte, nem isto afeta a questão, se durante sua vida, ele foi dotado ou não dos dons milagrosos do Espírito Santo.  

            10. Existe ainda um daqueles que você denomina de os Patriarcas apostólicos, de quem você fala de maneira tão completa quanto os demais; eu quero dizer, Hermas: “a quem”, você diz, “alguns imputam a fraude de forjar os livros Sibyllines”. Não seria impróprio se você nos dissesse, quais dos anciãos, quer cristãos, judeus, ou pagãos, alguma vez o acusou disto. Se nenhum o fez, alguns estão aptos a pensar que é dado à pessoa uma medida dura, ao trazer uma acusação contra aquele de quem nunca se ouviu um til, mil e seiscentos anos, depois de sua morte.  

            Mas eu posso mais facilmente desculpá-lo, porque ele é uma pessoa de quem você não está totalmente familiarizado. Embora seja muito, a curiosidade não o conduziu, quando você teve a tradução do Arcebispo Wake, em sua mão, a ler a respeito, a não ser, doze páginas de seu Pastor famoso. Mas a caridade me obriga a acreditar que você nunca o fez. Ao contrário, eu não posso conceber que você tão autoritariamente afirmasse dele e dos demais: “Não existe a menor reivindicação ou pretensão, em todas as diversas peças, a algum desses dons extraordinários que são o objeto desta inquirição”.  Eu estou espantado, senhor, você nunca teve um amigo no mundo? Mesmo que você seja ignorante disto, ninguém o informou que todos os três livros de Hermas, da primeira página à última, são nada mais do que um recital de seus dons extraordinários, suas visões, profecias, e revelações? 

            Você pode esperar, depois disto, que algum homem em seu juízo, possa tomar sua palavra por alguma coisa debaixo do céu? Que alguém possa creditar alguma coisa que você afirma? Ou acreditar mais em você, do que aquilo ele pode ver em você? Jesus, a quem você persegue, pode perdoá-lo disto; mas como você poderá perdoar-se?Alguém poderia pensar que você grita dia e noite: “O Pastor de Hermas não vai me deixar dormir!”.  

            11. Você prossegue para o testemunho de Justino Mártir, que escreveu cerca de cinqüenta anos depois dos Apóstolos: “Ele diz (eu traduzi suas palavras literalmente), ‘que existem dons proféticos em nosso meio, até mesmo agora. Você pode constatar conosco, que ambos, homens e mulheres têm dons do Espírito de Deus’. Ele especialmente insiste naquele de ‘expulsar demônios, como qualquer pessoa pode ver com seus próprios olhos”.  

            “Irenaeus, que escreveu alguma coisa, mais tarde, afirma, ‘que todos que foram verdadeiramente discípulos de Jesus, forjaram milagres em Seu nome; alguns expulsaram demônios; outros tiveram visões, ou o conhecimento de eventos futuros; outros curaram o doente’. E quanto ao ressuscitar os mortos, ele declara que isto tem sido frequentemente executado em ocasiões necessárias, pelo grande jejum e a súplica conjunta da Igreja’. ‘E ouvimos muitos’, ele diz, ‘falar em todos os tipos de línguas, e expor os mistérios de Deus’”.   

            “Teófilo, Bispo da Antioquia, que viveu na mesma época, fala em expulsar demônios, como sendo comum na Igreja”. 

            12. “Tertuliano, que viveu já no fim do século dois, acusa os magistrados pagãos de ‘levarem, para diante do tribunal, pessoas possuídas de demônio. E, se o espírito endemoniado, quando ordenado por algum cristão, não confessasse ser o diabo, e chamasse a si mesmo de um deus, eles tirariam a vida daquele cristão’”.  

            “Minutius Felix, que, se supõe, escreveu no início do século três, apresentando-se para seu amigo pagão, diz: ‘A maior parte de vocês sabe quais confissões os demônios fazem, concernentes a eles mesmos, quando vocês os expulsam dos corpos dos homens’”. 

            “Orígenes, mais jovem do que Minutius, declara que restaram ainda as indicações manifestas do Santo Espírito. ‘Porque os cristãos’, ele diz, ‘expulsam demônios, executam muitas curas, predizem coisas. E muitos se converteram ao Cristianismo, através de visões. Eu tenho visto muitos exemplos deste tipo’”.  

            Em outro lugar, ele diz: “Os sinais do Espírito Santo foram mostrados no início do ensinamento de Jesus” (não, como você traduz isto, “os milagres começaram com a pregação de Jesus”, é uma coisa completamente diferente); “mais foram mostrados depois da ascensão Dele, porém, mais tarde, menos. No entanto, até mesmo agora, existem ainda alguns deles restantes com poucos, cujas almas estão limpas, pela palavra e uma vida em conformidade”.  Novamente: “Alguns”, diz ele, “curam o doente. Eu mesmo vi muitos, assim curados, da perda de sentidos, loucura e inumeráveis outros males, que nem homens, nem demônios podem curar”.  “E isto é feito, não pelas artimanhas mágicas, mas pela oração e certas súplicas claras, tais que qualquer cristão comum pode usar; já que a generalidade dos homens comuns faz coisas deste tipo”.  

            14. “Cipriano, que escreveu por volta da metade do século três, diz: ‘Além das visões da noite, até mesmo durante o dia, crianças inocentes em nosso meio são preenchidas com o Santo Espírito, e em êxtases vêem e ouvem e falam aquelas coisas, através das quais, Deus se agrada de nos admoestar e nos instruir’”. Em algum outro lugar, ele menciona especialmente o expulsar de demônios: “que”, ele diz, “tanto se afastam imediatamente, quanto por graus, de acordo com a fé do paciente, ou a graça daquele que opera a cura”.  

            “Arnóbius, que se supõe ter escrito no ano de 303 de Cristo, nos diz: ‘Cristo aparece até mesmo agora aos homens impolutos e eminentemente santos que O amam; cujos próprios nomes expulsam espíritos demoníacos, emudecem seus profetas, destituem os advinhadores do poder de responderem, e frustram os atos dos prestidigitadores arrogantes’”.   

            “Lactantius, que escreveu por volta da mesma época, falando de espíritos demoníacos, diz: ‘Abjurado pelos cristãos, eles se retiram dos corpos dos homens, se confessam demônios, e dizem seus nomes, mesmo os que são adorados nos templos’”.  

            “Esses”, você diz, “são os principais testemunhos que afirmam os dons milagrosos, durante os três primeiros séculos; que seriam apoiados por muitos do mesmo tipo, dos mesmos escritores, ou de escritores diferentes. Mas ninguém terá receio em ariscar o fato da causa, sobre esses”. Até ai, eu não tenho receio. Eu não duvido, mas os testemunhos desses nove, acrescentados à evidência dos Patriarcas apostólicos, satisfarão todo homem imparcial, com respeito ao ponto em questão. Ainda assim, eu não vejo motivo, se existem mais nove testemunhos, para desistir da evidência deles; uma vez que você pode possivelmente levantar objeções contra aqueles, com os quais os outros estão despreocupados

            Se, então, você pudesse invalidar o que eu tenho a responder a favor das testemunhas agora produzidas, você teria feito apenas metade de sua obra. Eu devo mais tarde, requerer um ouvido justo para as outras também.   

            16. Você encerra este tópico, com argumentos:  

(1) “De que o silêncio de todos os escritores apostólicos sobre o assunto desses dons deve nos dispor a concluir que eles foram, então, retirados”.  Meu senhor, não mencione isto mais! Eu suplico a você que nunca mais cite o silêncio deles novamente. Eles falaram o suficiente para envergonhá-lo, por quanto tempo você viver. Você não pode, entretanto, falar com alguma graça do “avivamento pretendido deles, depois de uma suspensão de quarenta ou cinqüenta anos”, ou traçar conclusões do que nunca existiu.  

            (2) Sua segunda observação é perfeitamente nova: Eu me atrevo a dizer que ninguém alguma vez observou antes de você que esta circunstância específica dos cristãos primitivos, “conduzia com ela um ar de impostura” -- ou seja, “o de desafiarem todo o mundo verem os milagres que eles forjaram!” Para completar o argumento, você acrescentaria, “e o marcar a vida deles sobre a realização desses”.  

            17. Eu duvido que você não tenha ido um passo adiante ainda. Você, de fato, apresentou muitas afirmações audazes; mas não provou fielmente uma simples conclusão com respeito ao ponto em questão. 

            Mas o efeito natural de sua imaginação brilhante é que desde então, você argumenta mais e mais fracamente; visto que, quanto mais longe você vai, mais coisas você imagina (e apenas imagina) ter provado. Consequentemente, como você ajuntou mais equívocos a cada passo que deu, cada página é mais precária, do que a anterior.   

II 

            I. A segunda coisa que você propôs foi “juntar tudo que aqueles Patriarcas entregaram, concernente às pessoas terem sido dotadas com os dons extraordinários do Espírito”.  

            “Agora, quando quer que você pense e pense com reverência”,  você diz, “ a respeito daqueles tempos primitivos, é sempre em relação àqueles mesmos Patriarcas, cujos testemunhos eu coletei. E eles eram, de fato, as principais pessoas e heróis da causa cristã, os pastores, bispos, e mártires da Igreja primitiva – ou seja, Justino Mártir, Irenaeus, Teófilo, Tertuliano, Minutiu Felix, Orígenes, Cipriano, Arnóbio, Lactantius”. Senhor, você tropeçou na soleira da porta. Um dicionário comum pode informá-lo de que esses não foram todos quer pastores, bispos, ou mártires.  

            2. Você prossegue como demonstrou: “Ainda assim, nenhum desses, alguma vez, afirmou que eles próprios eram dotados com algum poder de operar milagres”.  Você deveria dizer,”com algum daqueles dons extraordinários prometidos por nosso Senhor e concedível aos Seus Apóstolos”.  

            Não! “Nenhum desses, nenhuma vez, afirmou que eles próprios eram dotados” com algum dos dons extraordinários? O que você pensa do primeiro deles, Justino Mártir? Tanto você está completamente equivocado no relato que deu dele, quanto ele afirmou isto de si mesmo, repetidas vezes. E quanto a Cipriano, você logo gastará diversas páginas consecutivas, sobre os dons extraordinários que ele afirmou ser dotado.  

            Mas, suponha que eles não tivessem afirmado isto de si mesmos, o que você concluiria, então? Que eles não eram dotados com algum dos dons extraordinários? Então, pelo mesmo método de argumentação, você deveria provar que nem Pedro, nem Tiago, nem João eram dotados com algum tal dom; porque nem eles afirmaram isto de si mesmos em quaisquer dos escritos que deixaram atrás deles.  

            3. Seu argumento, com respeito aos Patriarcas apostólicos, é exatamente tão conclusivo quanto este. Porque se você diz: “Os escritores, seguindo os Patriarcas apostólicos, não afirmam que estes tiveram algum dos dons milagrosos, portanto, eles tiveram nenhum”, pela analogia, você deveria dizer: “Os escritores, seguindo os Apóstolos, não afirmam que estes tiveram algum dos dons milagrosos, portanto, os Apóstolos tiveram nenhum”.  

            4. Seu próximo argumento contra a existência desses dons é “que os Patriarcas não nos disseram os nomes daqueles que os tinham”. Isto não é completamente verdadeiro. Os nomes de Justino Mártir e Cipriano eram muito bem conhecidos; como é, em meio aos eruditos, o de Dionísio, Bispo da Alexandria.  

            5. Mas, e se não fossem? Supondo-se que os poderes milagrosos foram abertamente executados na Igreja, e que não apenas eles, mas todos podiam ver isto, quando quisessem, – se qualquer pagão poderia ver, quando lhe agradasse – pode um homem justo desejar mais? O que significou para aquele que conhece os nomes dos que ele ouviu professarem ou viu operarem milagres? Embora, sem dúvida, quem quer que presencie os milagres forjados, facilmente aprendem os nomes daqueles que os forjaram; o que, não obstante, os cristãos não tiveram necessidade de proclamar, para expô-los ainda mais à ira e malícia de seus perseguidores.  

            6. Seu terceiro argumento é: “Os cristãos realizadores de milagres foram sempre acusados de impostura por seus adversários. Luciano nos diz: ‘Quando quer que algum astucioso prestidigitador viesse aos cristãos, ele enriquecia imediatamente’. E Celsus mostra os prestidigitadores cristãos, como meros vagabundos e impostores comuns que perambulam em feiras e mercados”.  

            E não é de se admirar que um judeu ou um pagão pudessem mostrá-los assim? Senhor, eu não o culpo por não acreditar no sistema cristão, mas por revelar tão grave parcialidade, por coletar cada sobra do escândalo pagão e impingir sobre nós como evidência inquestionável, e por não traduzir, nem mesmo esses miseráveis fragmentos com alguma precisão ou fidelidade. Em vez de nos entregar o texto, péssimo como ele é, você comumente o substitui com uma paráfrase ainda pior. E isto, o leitor inculto naturalmente supõe uma tradução fiel. Não é crédito à sua causa, se necessita de tal suporte. E não é crédito a você, se ele não apóia.  

            7. Quanto àquela de Luciano e Celsus, você acrescenta a evidência de Caecilius também, que chama esses prestidigitadores, você diz, de “uma nação emboscada, evitando a luz”. Então, eles foram estranhamente alterados de repente; porque você nos disse que, exatamente antes, eles se provaram impostores, por um método largamente diferente – por “provocarem os magistrados e as pessoas, e desafiarem todo o mundo, a constatar o que eles faziam!”.  

            Eu não fui informado de que você começou a “coletar, ao acaso, tudo que os Patriarcas entregaram, concernente às pessoas ditas dotadas com aqueles dons extraordinários”. E parece que você concluiu isto! E assim, resume a prova, “observar, do todo, desses caracteres dos prestidigitadores primitivos, fornecidos, por amigos e inimigos, que podemos concluir fielmente que os dons dessas eras foram geralmente elaborados pelos cristãos privados que viajavam de cidade em cidade, para ouvirem os pregadores comuns, na conversão dos pagãos, através dos milagres extraordinários que eles fingiam executar”.  

            8. “Caracteres fornecidos por amigos e inimigos”. Eu suplico, senhor, quais amigos você citou para este caráter? Ou quais inimigos, exceto apenas Celsus, o judeu? (E você é um intérprete miserável dele!). Assim, de um simples testemunho, você escreve como uma verdade profética, que todos os prestidigitadores dos primeiros três séculos, eram “meros vagabundos, e impostores comuns”, perambulando de cidade em cidade para presenciarem a conversão de pagãos, através de truques e impostura! E isto você ingenuamente chama de “coletar tudo que os Patriarcas entregaram, concernente a eles!”.  

            9. Mas, para completar, você diz: “Aqui novamente vemos uma dispensação das coisas atribuídas a Deus, completamente diferente daquilo que encontramos no Novo Testamento”. “Vemos uma dispensação!”.  Onde? Não na igreja primitiva; nem nos escritos de um único cristão; nem de um pagão: e apenas de um judu; porque o pobre Celsus não teve um segundo, embora ele multiplicasse, sob sua mão criadora, nuvens de testemunhas.

 

Ele apenas atribui isto aos antigos cristãos, os quais você em nome deles, atribui a Deus. Com o mesmo respeito à verdade, você prossegue: “Naqueles dias, o poder dos milagres” (você deveria dizer os dons extraordinários) “foram realizados por ninguém, a não ser os que presidiam na Igreja de Cristo”. Falta prova para isto. Mas eu não posso tomar sua palavra, especialmente, quando os Apóstolos e Evangelistas dizem o contrário. “Mas, quanto ao avivamento pretendido daqueles poderes”, -- Senhor, não pretendemos o avivamento deles, uma vez que acreditamos que eles nunca foram interrompidos, até que você prove o contrário, -- “nós consideramos a administração deles completamente leal, não para aqueles que tinham o governo da Igreja, não para os bispos, os mártires, ou os líderes principais da causa cristã, mas para os garotos, as mulheres, e, acima de tudo, aos leigos privados e obscuros, não apenas de um caráter inferior, mas, algumas vezes, também de um mau caráter”.  

            Certamente, senhor, você fala enquanto dorme: você jamais falaria assim, se tivesse seus olhos abertos, e seu entendimento consigo. “Nós achamos a administração deles completamente leal, não para aqueles que tinham o governo da Igreja!”. Não! Eu penso que Cipriano tinha o governo da Igreja em Cartago, e Dionísio, na Alexandria! “Não, para os bispos”. Quem eram esses, então, que foram mencionados por último? Bispos, ou não bispos? “Não para os mártires”. Bem, se Cipriano nem foi bispo, nem mártir, eu espero que você admita a pretensão a Justino. “Nem aos principais líderes da causa cristã”. E, ainda assim, você nos diz, não, em três páginas, desde então, que “esses mesmos Patriarcas foram os principais líderes da causa cristã naqueles dias!”. “Mas aos meninos e mulheres”. Eu respondo: “Isto é o que foi falado pelo Profeta Joel: ‘Derramarei Meu Espírito, diz o Senhor, e seus filhos e filhas profetizarão!’” – uma circunstância que torna este argumento completamente contra você, até que abertamente você reconheça que não acredita naquelas profecias. “E acima de tudo, aos leigos privados e obscuros, não apenas de um caráter inferior, mas, algumas vezes, de um mau caráter”.  

            Eu repondo: 

            (1) Você cita apenas um escritor pré-Nicene, para prová-los realizados para “os leigos privados e obscuros”. E ele diz isto e não mais: “Geralmente os homens privados fazem coisas deste tipo”. [WJ" ejpivpan ijdiw'tai toV toiou'ton pravttousi (Origen's Cont. Cels. 1. vii.)]. Por qual regra de gramática você constrói de idiwtai, “leigos privados e obscuros”, eu não sei. 

            (2) Para provar que esses foram, algumas vezes, homens de um mau caráter, você cita também apenas um Patriarca pré-Nicene (porque eu presumo que você não afirmará a autenticidade das assim chamadas, Constituições Apostólicas); e já que um é, em efeito, nenhum, afinal: é Tertuliano, quem, em sua Prescrição contra os Heréticos, diz: “Eles acrescentarão muitas coisas da autoridade” (ou poder) “de cada professor herético – de que eles ressuscitam os mortos, curam o doente, predizem coisas”.  ['Adjicient multa de autoritate cujusque doctoris haeretici, illos mortuos suscitasse, debiles reformasse, &c’]. “Eles acrescentarão!”. Mas Tertuliano acreditou neles? Não existe uma sombra de razão para pensar que ele o fez. E se não, o que é tudo isto para o propósito? Não mais do que contos das eras passadas, que você acrescenta, concernentes aos milagres forjados, através de ossos e relíquias.  

            10. ‘Essas coisas”, você acrescenta, “são tão estranhas, de maneira a dar justa razão para se suspeitar de que existiram algumas fraudes originais no caso, e que aqueles prestidigitadores vagabundos, através de uma destreza de malabarismos impuseram sobre os Patriarcas devotos, cujos fortes preconceitos e zelo ardente pelo interesse do Cristianismo, os disporiam a abraçar, sem examinação, o que quer que parecesse promover tão boa causa”. Você agora fala toleravelmente claro, e ficaria muito frustrado, se aqueles que não tivessem “tão fortes preconceitos pelo Cristianismo” não aplicassem o que você diz desses “prestidigitadores vagabundos” aos Apóstolos, e aos seus sucessores.   

            11. Uma breve resposta será suficiente: “Essas coisas são tão estranhas”. Elas são mais estranhas do que verdadeiras. Você não provou um jota, ou um til delas ainda; portanto, as conclusões que você traça devem cair ao chão, até que você encontre alguns suportes melhores para elas. 

            12. E mais: “é certo e notório”, você diz, “que este foi realmente o caso, em algumas instâncias” – ou seja, que “esses adivinhadores vagabundos enganaram os devotos Patriarcas”. Senhor, eu devo entrar novamente com minhas observações malucas, --- A prova! Onde está a prova? Até que ela seja produzida, eu não posso admitir que “é certo e notório”, mesmo em uma instância individual.  

            13. Vamos observar ainda o que você construiu sob este segundo tópico. O que você propôs foi “juntar tudo que os Patriarcas primitivos entregaram, concernente às pessoas, supostamente dotadas com os dons extraordinários do Espírito”. E como você executou o que propôs? Você juntou uma citação de um judeu, duas de pagãos, três - quartos de uma linha de Orígenes, e três linhas de Tertuliano! Nada, afinal, é verdade, para o ponto em questão. E você não pode ajudar. 

            14. E parece que isto é “tudo que você foi capaz de traçar de alguns escritores primitivos, com respeito às pessoas dotadas com os dons extraordinários do Espírito Santo!”.   

            Permita-me, senhor, aplicar a você o que foi falado em outra ocasião: “Senhor, o poço é fundo, e você tem nada para alcançar” -- nem suficiente habilidade, nem diligência e aplicação. Além disto, você está resolvido a tirar do poço, o que nunca existiu nele, e, evidente, deverá perder todo seu trabalho.    

III 

1.Em Terceiro Lugar”, você pretende “mostrar as características e opiniões principais daqueles Patriarcas que atestam esses dons”.  

Permita-me lembrá-lo, que você mencionou nove desses – Justino, Irenaeus, Teófilo, Tertuliano, Minutius Felix, Orígenes, Cipriano, Arnóbio, e Lactantio. Portanto, agora mostrará quais eram “as características e opiniões principais desses Patriarcas”.  

De fato, eu poderia pensar que as opiniões deles teriam pequena relação com a questão. Mas, uma vez que você pensa ao contrário, eu estou preparado para ouvi-lo.  

Sua premissa de “que uma testemunha excepcional deve ter” julgamento e honestidade; e, então, aproximar-se dos Patriarcas apostólicos, supondo que eles estão do seu lado, esforçar-se para mostrar que esses outros Patriarcas tiveram nenhum deles.   

2. Você começa com Justino Mártir, que, você diz, “afirma frequentemente que os dons milagrosos de expor as Santas Escrituras ou os mistérios de Deus foram concedidos a ele, através da especial graça de Deus”. Do que eu observo: (1) Ainda não é consenso entre os homens cultos que declarar “os mistérios de Deus” seja o mesmo que “expor as Santas Escrituras”. (2) Não está claro que Justino afirme ser dotado de um ou do outro – pelo menos, não das passagens que você cita. A primeira, literalmente traduzida, transcorre assim: “Ele nos revelou o que quer que entendemos das Escrituras também, através de Sua graça”.  A outra: “Eu não tenho tal poder, mas Deus me deu a graça de entender suas Escrituras”. Agora, senhor, através de quais dessas, Justino afirma que ele tinha os dons milagrosos de expor as Escrituras? 

            3. Porém, você afirma, seja apenas para ter o prazer de confutar isto. E, com este objetivo, você cita três passagens dos escritos dele, em que ele interpreta as Escrituras fracamente o suficiente; e, então, acrescenta, depois de um elogio lisonjeiro ao Dr. Grable, e uma tradução mutilada de uma de suas observações. “Suas Obras são pouco mais do que uma coleção desprezível de interpretações do mesmo tipo. Ainda assim, esse devoto Patriarca insiste que elas foram todas sugeridas a ele, dos céus”. Não; nem uma coisa, nem outra. Nem as interpretações das Escrituras (boas ou más) perfazem a décima parte de seus escritos; nem ele insiste que todas essas encontradas nelas, foram sugeridas dos céus a ele. Não se segue de passagem alguma que você citou ainda; nem do fato de ele dizer em um caso específico: “Você acredita que eu teria entendido essas coisas nas Escrituras; se não tivesse, pela vontade de Deus, recebido a graça para entendê-las?”.  

            4. E agora, você bate suas asas. “Que crédito”, você diz, “pode ser devido a este Patriarca, no registro dos dons de outras pessoas, que tão grosseiramente enganaram, ou, no mínimo, desejaram enganar outros, nesta atestação confiante de si mesmo?”. A resposta é clara e óbvia: não está claro que ele atesta a si mesmo, afinal; consequentemente, até agora, seu crédito continua imaculado.  

            “Mas ele não entendia Hebraico, e deu uma derivação errônea da palavra Hebraica, Satanás”.  Admitindo isto, de que ele não era um bom etimologista, seu crédito como testemunha pode ser tão bom como sempre. 

            5. Mas, para destruir seu crédito para sempre, você agora avaliará todas as heresias que ele manteve. E primeiro: “Ele acreditou na doutrina do Milênio; ou ‘que todos os santos ressuscitariam na carne, e reinariam com Cristo, no desfrute de todos os prazeres sexuais, por mil anos, antes da ressurreição geral’”. Essas, você assinala como sendo as palavras de Justino. Eu assevero a você que não ter fé é se colocar no mesmo patamar que os hereges, e que todos os meios que conduzem a tão boa finalidade, como tirar a heresia cristã fora do mundo, são justos. 

            É através deste princípio apenas, que eu posso considerar seu acréscimo: “Cuja doutrina” (aquela de desfrutar de todos os prazeres sexuais), “ele deduziu dos testemunhos dos Profetas e de João, o Apóstolo, e seguida, pelos Patriarcas do segundo e terceiro século”.  

            A doutrina (como você bem sabe) que Justino deduziu dos Profetas e Apóstolos, e no que ele foi indubitavelmente seguido pelos Patriarcas do segundo e terceiro séculos é esta:  

            As almas daqueles que foram martirizados pelo testemunho de Jesus e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem receberam sua marca, viverão e reinarão com Cristo mil anos.

                        Mas os demais mortos não ressuscitarão até que os mil anos terminem. 

            Agora, dizer que eles acreditavam nisto, não é dizer, nem mais, nem menos, do que eles acreditavam na Bíblias. 

            6. A segunda heresia da qual você o acusa é acreditar que “aqueles ‘filhos de Deus, mencionados em Gênesis 6:4, dos quais é dito, ‘Eles vieram até as filhas dos homens e elas geraram filhos para eles’, eram anjos demoníacos”. E eu admito que ele também recebeu ligeiramente isto sobre os testemunhos dos comentadores judaicos. Mas isto prova apenas que ele era falível; não que ele era um patife, ou que ele não tivesse olhos e ouvidos.  

            7. Em Terceiro Lugar, você o acusa de “tratar os livros espúrios, publicados sob os nomes de Sibyl e Hystespes, com a mesma reverência que as Escrituras proféticas”. As palavras dele são: “O poder dos espíritos demoníacos causou morte ao ler os livros de Hystaspes, ou de Sibyl, ou dos Profetas”. Bem; como isto prova que ele tratou aqueles livros com a mesma reverência que as Escrituras proféticas?  

            “Mas é certo”, você diz, “que este exemplo e autoridade de Justino eram mantidos na mais sublime veneração, pelos Patriarcas e governadores da Igreja, por todas as eras sucessivas”.  

            Eu não compreendo que isto seja certo. Eu espero sua prova, primeiro do fato, depois do motivo que você atribui a isto. O próprio fato, de que “esses livros eram mantidos na mais alta veneração, pelos Patriarcas e governadores, por todas as eras subseqüentes”, de modo algum, é provado por aquela simples citação de Clemente Alexandrino, em que ele persuade os pagãos com os testemunhos de seus próprios autores, de Sibyl e de Hystaspes. Não podemos inferir disto que ele mesmo os mantinha “na mais alta veneração”; muito menos, que todos os Patriarcas o fizeram. E quanto ao motivo que você assegura para aquela veneração – o exemplo e autoridade de Justino – você não cita autor de qualquer tipo, bom ou mau. Assim, aquele que quiser acreditar, pode.  

            Mas alguns, você nos diz, “imputam o forjar esses livros, a Justino”. Fique a vontade para nos dizer igualmente, quem eram esses, e quais os fundamentos que eles alegaram para aquela imputação. Até então, não poderá ser de algum significado.  

            8. Você o acusa, Em quarto Lugar, “de acreditar naquela história tola, com respeito à versão Septuaginta do Velho Testamento, dizendo que ele mesmo, quando em Alexandria, viu os remanescentes das celas nas quais os tradutores foram encarcerados, e de causar um considerável erro na cronologia referente a isto”. E se tudo isto for admitido, e, além disto, que ele “freqüentemente cita livros apócrifos e cita as Escrituras de memória”, o que você ganha, com a prova de sua grande conclusão – de que “ele era um grande tolo, ou um grande patife, para se dar crédito, no tocante à clara questão do fato?”. 

            9. Você parece consciente disto, e, portanto, acrescenta, Em Quinto Lugar: “Talvez, se diga que esses exemplos mostram uma fraqueza de julgamento, mas não toca o crédito de Justino como testemunha do fato”. Mas, você não pode juntar alguma coisa, de todas as esterqueiras da antiguidade que o faça? Eu me atrevo a dizer que você fará o máximo. E, primeiro, você responde: “A falta de julgamento apenas pode, em alguns casos, desqualificar um homem, de ser uma boa testemunha. Assim, o próprio Justino iludiu-se com aqueles de Alexandria, que lhe mostraram algumas velhas ruínas, sob os nomes de celas. E assim ele foi por daqueles que lhe disseram que havia uma estátua em Roma, onde estava inscrito ‘Simoni Deo Santo’, visto que realmente estava inscrito ‘Semoni Sanco Deo’ a uma antiga deidade dos Sabinos. Agora”, você diz, “se ele foi enganado em tais fatos óbvios, quanto mais facilmente seria pelos impostores habilidosos e astuciosos!”. Muito menos facilmente. Um homem de bom julgamento pode ser enganado quanto a essas inscrições de estátuas e pontos da estória primitiva. Mas, se ele tem apenas olhos e ouvidos, e um pequeno grau de bom-senso, ele não será enganado com respeito aos fatos, em que ele é testemunha ocular e auditiva.  

            10. Num sopro de despedida, você se esforça para provar, Em Sexto Lugar, que Justino era patife e tolo. Para isto, você observa que “ele acusa os judeus de apagarem três passagens da Bíblia Grega; uma em que permanece lá ainda, e as outras duas não foram omitidas por alguns judeus, mas acrescidas por alguns cristãos. Mais ainda, que o habilidoso crítico e teólogo, John Croius [Jean Croius, ou De Croi, Ministro Protestante de Usez, escreveu obras teológicas em Latin, morreu em 1659]”  você sabe quando conferir apelações honoráveis), “diz que Justino forjou e publicou esta passagem, para a confirmação da Doutrina cristã, assim como a maior parte dos oráculos Sibilinos e as sentenças de Mercúrio”.  

            Com uma probabilidade ainda maior do que John Croius afirma que Justino forjou essas passagens, um homem imparcial esperaria que ele as lesse em suas cópias (embora incorreto) da Bíblia Grega. E, até que você refute isto ou prove a afirmativa de Croius, você não terá ido um jota adiante, ainda. Mas, não obstante, você tenha se esforçado para difamá-lo com respeito à sua moral e discernimento, ele pode ainda ser um homem honesto e uma excepcional testemunhas quanto aos fatos claros colocados diante de você. 

            11. Em seguida, você nos fala de Irenaeus, e cuidadosamente enumera todos os erros em seus escritos. (1) Que ele defendeu a Doutrina do Milênio, e narrou uma fraca fantasia de Papias, a respeito. (2) Que ele acreditou que nosso Senhor viveu cinqüenta anos. (3) Que Enoque e Elias subiram aos céus, e Paulo fora conduzido ao mesmo paraíso do qual Adão foi expulso. Assim ele poderia, e todos os Patriarcas com ele, sem ser melhor ou pior. (4) Que ele acreditou na história, com respeito à versão Septuaginta; e mais, que as Escrituras foram destruídas no cativeiro Babilônico, mas restauradas novamente, depois de setenta anos, por Esdras, inspirado para este propósito. “Nisto também”, você diz, mas não prova, “ele foi seguido pelos principais Patriarcas que o sucederam; embora não exista alicerce para isto, do que aquela fabulosa relação no Segundo Livro de Esdras”.  (5) Você acrescenta que “ele acreditou que os filhos de Deus que vieram até as filhas dos homens eram anjos demoníacos”.  E que todos os primeiros Patriarcas, você está pronto a acreditar, “incorreram no mesmo erro, pela autoridade do Livro Apócrifo de Enoque, citado por Judas”.  

            12. Não é apenas de sua boa vontade para com Judas ou Irenaeus que você reúne esses fragmentos de erros, de maneira que nada possa ser perdido, mas para com todo o corpo de cristãos primitivos. Porque         “todos esses absurdos”, você diz, “foram ensinados pelos Patriarcas daqueles tempos”, (o que naturalmente implica todos eles), “como doutrinas da Igreja universal, originadas imediatamente dos Apóstolos, e tidas como tão necessárias, que aqueles que defendiam o contrário dificilmente eram considerados cristãos verdadeiros”. Aqui, eu devo implorar que você prove e afirme: (1) que todos esses absurdos a respeito do milênio, no sentido mais grotesco dele, da idade de Cristo, do paraíso, da destruição das Escrituras, da versão Septuaginta, e dos anjos diabólicos misturando-se com as mulheres, foram ensinados por todos os Patriarcas daqueles tempos; (2) que todos aqueles Patriarcas ensinaram essas como doutrinas da Igreja universal, originadas imediatamente dos Apóstolos; e (3) que eles todos negaram que fossem reais cristãos os que defendiam o contrário.  

            13. Em seguida, você cita duas interpretações improváveis das Escrituras e uma fraca, dos escritos de Irenaeus. Mas tudo que as três provam, é que ele não fala com exatidão de julgamento; não que ele fosse incapaz de saber o que viu com seus próprios olhos, ou de verdadeiramente relatar isto aos outros.  

            Antes de prosseguir para o que, com igual bom humor e imparcialidade, você observa, concernente aos demais desses Patriarcas, será apropriado considerar o que mais entremeia, com respeito a estes, na seqüência deste argumento.  

            14. Em Primeiro, você diz: “Justino usou um argumento inconclusivo para a existência das almas, depois da morte”. É possível que ele o fizesse; mas, se era conclusivo ou não, isto não afeta seu caráter moral.  

            Você diz, Em Segundo Lugar: “Era opinião comum de todos os Patriarcas, tomada da autoridade de Justino Mártir, que os demônios necessitavam das fumaças dos sacrifícios para fortalecê-los e desfrutarem de seus prazeres luxuriosos”.  

            Senhor, nenhum homem de bom-senso acreditará nisto, com respeito a qualquer um dos Patriarcas, da mera afirmação que você faz. Portanto, eu desejo que você prove, com mais do que um fragmento de uma sentença: (1) que o próprio Justino defendeu esta opinião; (2) que ele a inventou; (3) que esta era a opinião comum de todos os Patriarcas; e (4) que eles todos a aceitaram. sob a autoridade de Justino. 

            15. Você afirma, Em Terceiro Lugar: “Ele diz que todos os demônios sujeitaram-se e se submeteram ao nome de Jesus; como também ao nome do Deus de Abrão, Isaque e Jacó”.  Muito provavelmente, ele poderia. 

            Por fim. Você cita uma passagem dele, com respeito ao Espírito de Deus, influenciando as mentes dos homens santos. Mas nem isto, em alguma medida, afeta seu crédito como uma testemunha do fato. Consequentemente, depois de tudo que você tem sido capaz de traçar, quer de si mesmo, ou de algum dos escritores primitivos, aqui está uma testemunha de crédito inquestionável, no tocante aos prodígios forjados na Igreja primitiva, no tocante à subsistência dos dons extraordinários, depois dos dias dos Apóstolos. 

            16. Mas vamos uma vez mais a Irenaeus; porque você não lidou com ele ainda. “De invenção”, você diz, “Justino tem sido acusado” (por John Croius e Dr. Middleton), “e pela mesma razão, Irenaeus; porque qual outro relato pode ser dado de seus freqüentes apelos à tradição apostólica, para o suporte de tantas doutrinas inacreditáveis?”. Porque, é muito natural que nos pontos não essenciais, ele também seguiu facilmente a autoridade de Papias, um homem fraco, que em fundamentos débeis, acreditou em muitas coisas levianas, como tendo sido dita ou feitas pelos Apóstolos. E, admitindo tudo isto, ainda assim, ele não nos deus tão “lamentável idéia daqueles tempos primitivos, e líderes primitivos da causa cristã”. 

            O mesmo relato pode ser dado de seu equívoco, concernente a idade de nosso Senhor. Não existe, portanto, razão, nem alguma presença plausível, para se colocar falsidade sobre ele; e, consequentemente, até ai, seu crédito como testemunha permanece claro e inatacável. 

            Mas você diz, Em Segundo Lugar, “Ele foi um zeloso defensor da tradição”. Ele poderia, e, ainda assim, ser um homem honesto, mesmo que equivocado ou não, em supor que Papias tinha sido um discípulo de João, o Apóstolo. 

            Em Terceiro Lugar: Você supõe “que os discípulos de Simão Mago, assim como Carpocrates usaram de artes mágicas”; que “os mortos ressuscitavam frequentemente em seu tempo”;  que “os judeus, em nome de Deus, expulsavam demônios”;  e que “muitos tinham o dom de línguas, embora ele mesmo não tivesse”. 

            17. Esta é toda sua acusação contra Irenaeus. E que alguma pessoa razoável julgue, se tudo isto nos dá o menor motivo para questionar, se ele tinha consciência suficiente, para discernir uma questão clara do fato; ou honestidade, o suficiente, para relatá-lo. Aqui, então, está uma testemunha mais crível dos dons milagrosos, depois dos dias dos Apóstolos. 

            18. O que você apresenta, concernente à história da tradição, eu não me preocupo em defender ou confutar. Apenas observar, que você se esqueceu novamente, onde diz que “as fábulas do milênio, da idade de Cristo, com muito mais, foram todas defendidas pelos primeiros Patriarcas”. Por razões de moderação, senhor, reflita um pouco, antes de falar; e lembre-se que você mesmo nos informou que uma dessas nunca foi defendida, afinal, a não ser por um único Patriarca.  

            19. “Eu não posso”, você diz, “rejeitar este parágrafo, sem tomar conhecimento de que este sortilégio foi universalmente acreditado, através de todas as eras da Igreja Primitiva”. Isto você mostra, pelas citações de diversos Patriarcas, que, igualmente acreditaram, como você nos informa, que “os espíritos diabólicos tinham poder frequentemente, para afligirem tanto os corpos quanto as mentes dos homens”; que eles representavam os papéis dos deuses pagãos, e assumiam as formas daqueles que eram chamados de entre os mortos. Agora, “esta opinião”, você diz, “não é apenas uma prova da mais grosseira credulidade, mas daquelas espécies dela que, de todas as outras, colocam um homem mais aberto à impostura”. 

            E, ainda assim, esta opinião, como você sabe muito bem, tem seu fundamento, não apenas nas histórias de todas as eras e todas as nações, por todo o mundo habitado, mesmo onde o Cristianismo nunca prevaleceu, mas, especialmente nas Escrituras – em abundância de passagens do Velho e Novo Testamento, quanto onde os israelitas eram expressamente comandados a não “permitirem que um feiticeiro vivesse”; onde Paulo numera “feitiçaria’ com as obras da carne” (Gálatas 5:19-20), e a classifica juntamente com adultério e idolatria; e onde João declara: “Ficarão de fora os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas”. (Apocalipse 22:15). Que os deuses dos pagãos são demônios, (I Cor. 10:30) é declarado expressamente por um daqueles que são denominados de escritores inspirados. E muitos compreendem que outro deles nos fornece um claro exemplo de eles “assumirem a forma daqueles que foram chamados de entre os mortos” (I Samuel 28:13-14)

            Do poder dos espíritos diabólicos de afligirem as mentes dos homens, ninguém que acredite que existem alguns desses seres pode duvidar. E do poder de afligirem o corpo, temos abundante prova na história de Jó, e naquela dos demoníacos bíblicos. 

            Eu não pretendo com isto, senhor, acusá-lo de acreditar nessas coisas: você nos tem mostrado que é inocente nesta questão; e que não presta mais cuidado àquele antigo livro, a Bíblia, do que ao Segundo Livro de Esdras. Mas, ai de mim! Os Patriarcas estavam tão longe de serem iluminados. E porque eles idolatravam aquele velho livro, eles consequentemente defendiam como verdade, o que você nos assegura que era mera ilusão e impostura.   

            20. “Uma mente”, você diz, “tão completamente possuída por fantasias supersticiosas, não poderia suspeitar das pretensões daqueles prestidigitadores vagabundos, que, nos tempos primitivos eram tão numerosos e tão engenhosamente empregados na ilusão de seus seguidores. Admite-se que existiam tais impostores em meio aos pagãos, judeus e cristãos”. Através de quem, senhor, admite-se que existiam em meio aos cristãos? Através de quem, a não ser Celsus, afirmou-se tal coisa? Quem o informou que eles cresciam tão numerosamente e usavam de tais artimanhas em seus empreendimentos? Para falar a verdade clara, sua mente parece “estar tão totalmente possuída por” esses “prestidigitadores vagabundos”, que você não consegue dizer uma palavra a respeito da Igreja Primitiva, mas eles imediatamente surgem a sua frente, embora não exista mais prova de que alguma vez existiram do que o de uma bruxa velejar em uma casca de ovo.    

            21. Você conclui este tópico: “Quando os devotos cristãos chegaram a este cume de credulidade, de acreditar que os espíritos diabólicos, ou os homens diabólicos podem operar prodígios, em oposição ao evangelho, a mesma devoção deles os abrigará a admitirem como milagroso o que quer que seja pretendido forjado na defesa disto”. Uma vez mais, você declarou: você tem mostrado sem dissimulação, o que você pensa de Paulo e dos “prodígios de mentira”.  (2 Tessalonicenses 2:9), que ele (pobre homem!) acreditava que os espíritos diabólicos, ou homens diabólicos poderiam operar, em oposição ao evangelho; e que João falava tão em vão daquele que “realiza grandes maravilhas... e enganam aqueles que habitam na terra”, (ainda que não fosse cristãos), “através dos prodígios que ele tinha poder para realizar” (Apocalipse 13:13-14) “E faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta, dizendo aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia”. 

            22. Agora você concluiu a terceira coisa que propôs, que foi “mostrar os caracteres principais dos diversos Patriarcas que atestaram” terem sido testemunhas oculares e auditivas dos dons extraordinários na Igreja primitiva.  

            Você menciona nove desses --- Justino Mártir, Irenaeus, Teófilo, Tertuliano, Minutius Felix, Cipriano, Orígenes, Arnóbio e Lactantio; ao mesmo tempo que observa que muitos outros escritores atestaram o mesmo.  

            Vamos deixar a opinião dos outros de lado. Seriam aqueles homens bons e verdadeiros? Esta é a presente questão.  

            Você responde, “Não”; e para provar que esses nove são patifes, traz diversas acusações contra dois deles, e que foram respondidas amplamente: algumas, provadas serem falsas; algumas, embora verdadeiras, ainda assim, não invalidando sua evidência.  

            Mas, supondo que abandonemos a evidência desses dois, aqui estão sete mais ainda a virem.            

            Mas, você diz: “Se existissem duas vezes sete, eles apenas repetiriam as palavras que esses haviam lhes ensinado”.  

            E você pergunta: Quão frequentemente, você deve ser lembrado que dizer e provar são duas coisas distintas? Eu afirmo que, em três ou quatro opiniões, alguns desses (embora não todos) estavam equivocados, assim como aqueles dois. Mas isto, de modo algum, prova que eles eram todos patifes; ou que, se Justino Mártir ou Irenaeus falaram erradamente, eu não devo dar crédito à evidência de Teófilo ou Minutius Felix. 

            23. Portanto, você realizou uma obra mais imperfeita, se possível, sobre este assunto, do que sobre o precedente. Você prometeu grandes coisas, e realizou exatamente nenhuma. Você deixou três quartos de suas obras, inteiramente intocadas; já que essas duas não são a quarta parte, mesmo dos escritores que você mencionou como atestando a continuidade dos “dons extraordinários”, após a era dos Apóstolos.   

            Mas você mencionou aquele embuste, por fim de seus “prestidigitadores vagabundos” para suprir o defeito de todos os outros argumentos. A cada menção derrubada, você está certo de colocar sobre nós essas queridas criaturas de sua própria imaginação. Elas são a força de sua batalha, sua décima legião. Ainda assim, se um homem impertinentemente pede por prova da existência deles, se ele se aproxima e segura as mãos deles, eles imediatamente desaparecem.  

IV 

            Em Quarto Lugar, você “reverá todos os diversos tipos de dons milagrosos que teriam sido dados, e observará da natureza de cada um, até onde eles podem razoavelmente serem suspeitados”. 

            “Esses”, você diz, “são (1) o poder de ressuscitar o morto; (2) o de curar o doente; (3) de expulsar demônios; (4) de profetizar; (5) de ter visões; (6) de descobrir os segredos dos homens; (7) de explicar as Escrituras; (8) de falar em línguas”.   

            Eu antes teria um relato dos poderes milagrosos como eles nos são mostrados na história do Evangelho. Mas este relato você não está inclinado a dar. Assim, faremos o melhor que pudermos.  

Seção I 

            1. Quanto ao “ressuscitar o morto”. Irenaeus afirma: “Isto foi frequentemente realizado, em ocasiões necessárias; quando, através dos grandes jejuns e súplicas da Igreja, o espírito do morto retornava a ele, e o homem voltava para as orações dos santos”.  

            2. Mas você objeta: “Não existe instância a ser encontrada nos primeiros três séculos”. Eu presumo que você queira dizer que nenhum historiador pagão o mencionou; porque, quanto aos historiadores cristãos não terem, eu respondo: (1) Não é provável que um historiador pagão relatasse tal fato, tivesse ele conhecimento; (2) É igualmente improvável que ele tivesse; uma vez que os cristãos sabiam com quem eles lidavam; e que, tivesse tal instância tornado pública, eles não desfrutariam, por muito tempo, daquele que retornou para as orações deles. Eles não poderiam deixar de lembrar o que eles fizeram antes, quando os judeus buscaram Lázaro também para matá-lo: uma razão óbvia do por que um milagre deste tipo específico não deveria ser publicado nos arredores; -- especialmente considerando (3) que ele não fora designado para a conversão dos ateus, mas, “em ocasiões necessárias”, para o bem da Igreja, da comunidade cristã. (4) Tratava-se de um milagre peculiar, acima de todos os outros, apoiar e confirmar os cristãos, que eram diariamente torturados e assassinados, mas sustentados pela esperança de obterem uma ressurreição melhor.  

            3. Em Segundo Lugar, você objeta: “Os pagãos constantemente afirmaram a própria coisa como impossível”.  Eles o fizeram. Mas é “uma coisa incrível para você que Deus possa ressuscitar o morto?”.  

            4. Você objeta, Em Terceiro Lugar, que, quando “Autolycus, um eminente pagão, escassos quarenta anos depois disto, disse a Teófilo, Bispo da Antioquia: ‘Mostre-me alguém que ressuscitou, para que eu possa ver e crer’. Teófilo não pôde”.  Supondo que ele não pudesse, eu não vejo no que isto contradiz o testemunho de Irenaeus; porque ele não afirma (embora você diga que sim) que isto foi “executado, por assim dizer, em todas as paróquias ou lugares onde havia uma igreja cristã”. Ele não afirma que isto foi executado na Antioquia; provavelmente não em alguma Igreja, exceto onde uma coincidência de circunstâncias importantes requeresse isto. Muito menos ele afirma que as pessoas ressuscitadas na França estariam vivas, quarenta anos depois. Portanto -- embora seja afirmado: (1) que os historiadores daquela época ficaram em silêncio; (2) que os pagãos disseram que a coisa era impossível; e (3) que Feófilo não respondeu à provocação do ateu Autolycus – tudo isto não invalidará, em grau algum, o expresso testemunho de Irenaeus ou provará que ninguém ressuscitou, desde os dias dos Apóstolos.  

Seção II 

            1. “O próximo dom, o da cura, frequentemente executado pela unção com óleo; em favor do qual”, você observa, “os testemunhos antigos eram mais completos e expressos”. Mas “isto”, você diz, “seria considerado, sem um milagre, pela eficácia natural do próprio óleo”. Eu não duvido. Fique a vontade para testar quantos que estejam cegos, surdos, mudos, ou paralíticos, você pode curar desta forma; e a experiência, se não, a filosofia, lhe ensinará que o óleo não tem tal eficácia natural.  

            2. Disto, você não parece insensível, e, portanto, foge para sua suposição favorita, a de que “eles não foram curados, afinal, e que tudo não passou de um embuste, do começo ao fim”.  Mas, através de quais argumentos você demonstra isto? O primeiro é: “Os pagãos pretenderam o mesmo”; não somente isto, e “manejaram a impostura com tanta artimanha, que os cristãos nem puderam negar ou detectá-la. Mas insistiram sempre que fora executada por demônios ou espíritos maléficos”. Mas, ainda assim, os pagãos mantiveram que “as curas foram forjadas por seus deuses – por Esculápio, em particular”.  E onde está a diferença, uma vez que, como foi observado antes, “os deuses dos pagãos não passavam de demônios?”.  

            3. Mas você diz: “Embora os monumentos públicos fossem erguidos em prova e memória dessas curas, quando executadas, ainda assim, é certo que todos esses milagres pagãos eram pura invenção”.  Como é isto certo? Se você pode absorver isto, sem uma boa prova, você é muito mais crédulo do que eu. Eu não posso acreditar que todo o corpo de pagãos, por tantas gerações, estava completamente destituído de bom-senso, não mais do que da honestidade comum. Por que você fixaria tal acusação sobre todas as cidades e regiões? Você não faria mais, se eles tivessem sido cristãos! 

            4. Mas, “doenças consideradas fatais e desesperantes eram, muitas vezes, surpreendentemente curadas”. E, portanto, “não podemos prestar muita atenção a tais histórias, exceto, se soubéssemos mais precisamente, neste caso, os reais limites entre natureza e milagre”. Senhor, eu o entendo bem. A força do argumento é facilmente vista. Ela aponta para o Mestre e Seus servos; e pretendem provar que, depois de todo este falatório a respeito de curas milagrosas, não estamos certos de que eles alguma vez existiram no mundo. Mas isto não causará dano. Porque, embora garantamos (1) que alguns se recuperaram, até mesmo, em casos aparentemente desesperados, e (2) que não conhecemos, em algum deles, os limites entre natureza e milagre; ainda assim, não se segue, portanto, que eu não possa assegurar que alguma vez houve um milagre de cura no mundo. Para explicar isto, através de exemplo: Eu não sei precisamente, até onde a natureza pode ir, na cura, ou seja, no restaurar a vista do cego; ainda assim, eu seguramente sei que, se um homem que nasceu cego é restaurado, através de uma palavra, não se trata de natureza, mas de milagre. E para tal história, bem atestada, todos os homens razoáveis prestarão a maior atenção.  

            5. A conclusão a que você chegou sobre este assunto é: (1) a de que os próprios pagãos tiveram milagres dentre eles; (2) que o óleo pode curar algumas doenças, através de sua eficácia natural; e (3) que não podemos saber os limites precisos da natureza. Tudo isto eu admito. Mas tudo isto não prova que não existiram curas milagrosas, executadas tanto por nosso Senhor e Seus Apóstolos, quanto por aqueles que viveram nos três séculos subseqüentes.   

Seção III 

            1. O terceiro dos poderes milagrosos que haveria na Igreja primitiva é o de expulsar demônios. Os testemunhos concernentes a este são inumeráveis, e tão claros quanto as palavras podem torná-los. Mostrar, portanto, que todos esses significaram nada, e que nunca houve expulsão de demônios, afinal, nem através dos Apóstolos, nem desde os Apóstolos (porque o argumento prova uma coisa e outra), é uma tarefa merecedora de você. E para lhe dar o justo louvor, você mostra toda sua força.  

            2. E ainda assim, eu não posso deixar de apreender que haveria uma maneira muito mais curta. Não teria sido mais fácil destruir todos aqueles testemunhos, a um só golpe, provando que nunca houve qualquer demônio no mundo?  Então, toda a questão de expulsar demônio teria encontrado seu fim.  

            Mas é condescender à fraqueza e preconceito da humanidade que você siga menos da estrada comum, e apenas observe “que aqueles que supostamente estavam possuídos estariam doentes de alguma enfermidade”. E seus sintomas, você diz, “pareciam ser nada mais do que os sintomas comuns de uma epilepsia”.  

Se fosse perguntado: Mas “os discursos e confissões dos diabos e o fato de responderem todas as questões, não eram sintomas de uma epilepsia?”, você entra na segunda hipótese, e troca esses, “pelas artimanhas da impostura e sagacidade entre as pessoas concernentes no ato”.  

Mas não é alguma coisa extraordinária, que os homens, em ataques de epilepsia pudessem ser capazes de tanta arte e perspicácia? Para acabar com esta dificuldade, estamos aptos a supor que arte e perspicácia eram os principais ingredientes; de maneira que devemos acrescentar apenas uma quantidade suficiente (quantum sufficit) de epilepsia, e alguma vezes, deixar isto fora da composição.  

Mas, e a prova, senhor? Onde está a prova? Eu quero um pouco dela também. Em vez disto, temos apenas outra suposição – “a de que todos os Patriarcas eram induzidos por seus preconceitos para fornecerem tão rápido crédito a essas possessões pretendidas, ou eram conduzidos pelo zelo, no apoiarem a ilusão que era útil à causa cristã”.  

Eu afirmo que eles tinham pré-conceito em favor da Bíblia; mas, ainda assim, não podemos concluir fielmente disto, que eles eram um e todos, continuamente enganados por meramente possessões pretendidas, ou que eles todos mentiam por Deus – uma coisa absolutamente proibida naquele livro.  

3. Mas “os líderes das seitas”, você diz, “quaisquer que sejam os princípios que pretendam, raramente têm escrúpulos ao usarem de uma cômoda mentira”. Eu observo que você é completamente imparcial aqui. Você não faz exceção de época ou nação. É tudo uma coisa só, para você, se seu leitor aplica isto ao filho de Abdala, ou ao filho de Maria. Ainda assim, senhor, eu não posso deixar de pensar que existia uma diferença. Não sei ao certo se o judeu era um homem mais honesto do que o árabe; e embora Maomé tenha usado de muitas mentiras cômodas, ainda assim, Jesus de Nazaré não o fez.  

4. No entanto, “nenhum desses Patriarcas teve escrúpulos em usar de estilo hiperbólico” (o que significa, em Inglês claro, mentira),”como um eminente escritor de história eclesiástica declara”. Você deveria dizer um escritor imparcial. Porque, quem teria escrúpulos quanto ao caráter do Sr. Le Clerc? Ainda assim, eu não posso tomar a simples palavra dele e sua por causa disto. Fique a vontade para produzir uma pequena prova. Até aqui, você provou absolutamente nada sobre o assunto, mas (como é comum a você) tomou tudo por garantido.  

5. Em seguida, você relata aquela famosa história de Tertuliano: “Uma mulher foi ao teatro, e retornou possuída de um demônio. Quando o espírito impuro foi questionado, quanto a se atrever a assaltar uma cristã, ele respondeu: ‘eu a encontrei em minha própria casa’”. Depois de relatar outra, que você se esforça para fazê-lo naturalmente, você insinua que esta foi uma mera mentira de Tertuliano. Mas como isto é provado? Porque, “Tertuliano era um inimigo extremo de jogos e espetáculos públicos de teatro”. Realmente era; mas pode alguém inferir disto que ele era um inimigo extremo da honestidade comum? 

6. Você acrescenta: “Os Patriarcas reconhecem que até mesmo os judeus, sim, e os pagãos, expulsavam demônios. Agora esses exorcistas judeus e pagãos eram meros trapaceiros e impostores. Mas os Patriarcas acreditaram que eles realmente expulsavam demônios. E se eles podiam tomar seus truques por efeitos de um poder sobrenatural, eles poderiam bem ser enganados, por seus próprios impostores. Ou eles achariam conveniente contrapor um impostor com outro”.  

“Enganados”, você diz, “por seus próprios impostores”. Porque, eu pensei que eles eram os próprios homens que os colocavam para trabalhar! Aqueles que contrapuseram um impostor com outro! Alunos aptos que agiram tão bem, até mesmo para enganar seus mestres! Mas, o que quer que os pagãos fossem, não podemos garantir que todos os “exorcistas judeus eram impostores”. Quer os pagãos expulsassem demônios ou não, é certo que os filhos dos judeus os expulsavam. Eu quero dizer, na suposição, de que Jesus de Nazaré os expulsou; o que é um ponto a não ser discutido aqui.  

            7. Mas “é muito difícil acreditar que os demônios possuíam e destruíam o gado, como Orígenes declara”. Você poderia dizer o que Mateus e Marcos declaram concernente ao rebanho de suíno; e, ainda assim, nos certificamos que você acredita muito dificilmente nas coisas, do que nisto.  

            Antes de acrescentar a tola história de Hilarion e seu camelo [Jerônimo diz em sua Vita Hilarions Eremitae que um camelo feroz, que pisoteara muitos, foi trazido amarrado por mais de trinta homens a Hilarion. Seus olhos eram sangrentos, sua boca espumante. Hilarion despediu-se dos homens; e quando o camelo investiu contra ele, ele esticou suas mãos e disse: “Tu não me mortificaras, ó demônio, com teu corpo grande, quer esteja numa pequena raposa ou em um camelo, tu és um e o mesmo”. O camelo caiu humildemente a seus pés, com o demônio expulso. Kingsley não forneceu esta história no Os Eremitas], você deveria na candura ter informado seu leitor que se discute, se a vida de Hilarion foi ou não escrita por Jerônimo. Mas seja lá como for, eu não me preocupo por nenhum deles, porque eles não viveram no período das três primeiras eras.  

8. Eu não sei o que você provou até aqui, embora afirmasse muitas coisas, e insinuasse outras mais. Mas agora vamos ao cerne da questão, contida em suas cinco observações. 

Você observa: 

Primeiro: “Que todos os relatos primitivos de expulsão de demônios, embora dados por diferentes Patriarcas e em diferentes épocas, ainda concordam exatamente com respeito a todas as circunstâncias principais”. E isto você entende seja uma marca de impostura. “Parece”, você diz, “como se eles copiassem uns aos outros!”. Agora, um leitor comum teria imaginado que algum simples relato deste tipo deve ser considerado muito mais (não menos) crível, devido relatos paralelos, do que muitos severamente teriam individualmente visto, em diferentes tempos, e em diferentes lugares.  

9. Segundo: “Que as pessoas assim possuídas eram chamadas de ‘ventriloquistas’” (alguns deles eram), “porque geralmente acreditavam falarem, através da barriga. Agora, há aqueles”, você diz, “que pela astúcia e prática, podem falar da mesma maneira. Se supormos, então, que havia artistas deste tipo em meio aos cristãos primitivos, quão facilmente, pela correspondência entre ventriloquista e exorcista, eles iludiriam a maioria sensível de sua audiência!”.  

Mas o que o ventriloquista fazia com sua epilepsia, neste meio tempo? Você não deve deixar isto passar, porque com muitas circunstâncias nele, todos esses relatos concordam que não pode ser toleravelmente considerados sem isto. E, ainda assim, como você fará com que esses dois concordem? É um ponto merecedor de séria consideração.  

Mas trapaceiros, sem dúvida, eles eram, considerem isto quem puder. Mas é estranho que nenhum dos pagãos se certificou que a impostura permanecia completamente oculta, até cento e quatorze anos depois que os impostores estavam mortos! É digno de uma fé muito grande, aquele que puder acreditar nisto – aquele que puder supor que nenhum de todos aqueles impostores poderia, quer através de inadvertência, ou em meio às torturas da morte, ter, alguma vez, insinuado tal coisa.  

10.  Terceiro: “Que muitos demoníacos não poderiam ser curados, através de todo o poder dos exorcistas, e que as curas, que se pretendia forjadas em alguém, era apenas temporária, era apenas a cessação de um ataque específico ou acesso de intemperança”.  

Senhor, você é o mais amável adversário no mundo; porque você continuamente responde aos seus próprios argumentos. Sua última observação confrontou todas as que você apresentou antes. E agora você é tão delicado e confronta esta. Porque, se, afinal, esses demoníacos eram epiléticos reais, e isto no mais alto grau, de maneira a serem totalmente incuráveis, no que se transforma a arte e prática deles, e a mesma boa correspondência entre o ventriloquista e o exorcista? 

            Depois de admitir sua própria suposição, exatamente por quanto tempo possa ser suficiente para confutar a si mesmo, eu devo agora observar que ela não é verdadeira. Porque tudo que é evidente do testemunho da antiguidade é isto: que, embora muitos demoníacos fossem totalmente libertos, ainda assim, alguns não foram, nem mesmo no século três, mas continuaram por meses ou anos, com apenas intervalos de tranqüilidade, antes que fossem inteiramente libertos.  

            11. Quarto: “Que o grande número de demoníacos subsistiu naquelas primeiras eras, cuja principal habitação era, em uma parte da igreja onde, como em uma espécie de hospital, eles estavam sob os cuidados dos exorcistas; o que responderá pela confiança daqueles desafios feitos pelos cristãos, aos pagãos, para que viessem e vissem como eles expulsavam os demônios deles, enquanto mantinham tais números deles em constante atenção, sempre prontos para o espetáculo, provados e disciplinados, por seus exorcistas, a gemerem e uivarem, e darem respostas apropriadas a todas as questões”.   

            Assim, agora, a correspondência entre o ventriloquista e o exorcista fica mais próxima do que nunca! Mas o infortúnio é que esta observação igualmente derruba completamente aquela que veio antes dela. Porque, se todos os gemidos e uivos e outros sintomas eram não mais do que eles “serem disciplinados por seus exorcistas”, então, não pode ser que “muitos deles não pudessem possivelmente ser curados por todos os poderes daqueles exorcistas”. O que? Eles não poderiam possivelmente ser ensinados por seus mestres, a quando finalizarem, assim como iniciarem o espetáculo? Alguém pensaria que as curas forjadas nestes teria sido mais do que temporária. Mais do que isto, é surpreendente que, enquanto eles tinham tais números deles, eles aceitassem sempre a mesma pessoa mostrasse duas vezes. 

            12. Quinto: “que, considerando que este poder de expulsar demônios esteve até aqui nas mãos apenas de uma parte pequena do laicato” (o que necessita de prova), “foi por volta do ano 367, colocado sob a direção do clero; quando foi decretado pelo Concílio de Laodicéia que ninguém seria exorcista, mas aqueles indicados (ou ordenados) pelo bispo. Mas, tão logo isto foi feito, até mesmo por aqueles que favoreceram e desejaram apoiá-lo, então, o próprio dom decresceu e expirou”.  

            Aqui, você derruba, não apenas sua observação imediatamente precedente (como usual), mas igualmente o que observou em outros lugares – que os exorcistas foram ordenados “por volta da metade do século três”. Se for assim, qual a necessidade de decrescê-los agora, cerca de cem anos depois? Novamente: Se os exorcistas foram ordenados cem anos antes desse Concílio, que mudança foi feita pelo mesmo? Ou como o poder de expulsar demônios cessou com ele? Você diz que os bispos ainda favoreceriam e apoiavam isto. Por que, então, eles não apoiaram? Possivelmente aqueles que até aqui mantiveram tal número deles no serviço (não os pobres exorcistas, que eram um nível acima do sacristão). O que aconteceu com eles depois? Todos os gemedores e uivadores morreram, e não mais procurados por dinheiro? Ou antes, os bispos, você acredita, se tornaram sovinas, já que eles ficaram ricos, e assim mantiveram cada vez menos deles em serviço, até que, por fim, todo o ofício foi descontinuado? 

            13. Estas são suas objeções elaboradas contra a grande promessa de nosso Senhor: “Em Meu nome, que eles expulsem demônios”; através do que (para fazer o trabalho certo) você O golpeia e aos Seus Apóstolos, exatamente tanto quanto aos Patriarcas primitivos. Mas, por uma estranha confusão de idéias, você provaria tanto quanto você prova coisa alguma. Ao tentar mostrar todos que reivindicaram este poder, como tolos e patifes, você deteriorou toda sua causa, e na ocasião, nem os mostrou ser uma coisa ou outra, uma vez que metade de seu argumento, continuamente serviu exatamente para derrubar o outro. De maneira que, afinal, os testemunhos antigos no tocante a este dom permanecem firmes e inabalados.  

Seção IV 

            I. Você nos disse acima, que “o quarto dom milagroso foi o de profetizar; o quinto, de ter visões; o sexto de descobrir os segredos dos homens”.  Mas aqui você os colocou todos juntos, dizendo que “o próximo dom milagroso é aquele de visões proféticas e transes extáticos” (êxtase extáticos você deveria dizer), “e o revelar o coração dos homens”. Mas por que você força todos os três em um? Porque, você diz, “esses parecem ser o fruto de um espírito”. Mais certamente eles são, quer do Espírito da Verdade ou (como você supõe) do espírito da ilusão.  

            2. No entanto, com respeito ao segundo desses, sobre o qual você especialmente discorre (o quinto desses, você especificou antes), tomando pouco conhecimento do quarto, “profecia”, e nenhum, afinal, do sexto, “descobrir os segredos dos homens”. Os testemunhos, portanto, para esses permanecem, em sua força total, já que você nem mesmo tenta invalidá-los. Com respeito às visões ou êxtases, você observa: (1) Que Tertuliano chama de êxtase, “uma perda temporária dos sentidos”. Foi assim, com respeito aos sentidos exteriores, que eram, então, encarcerados. (2) Que “Suidas”. [Suídas, viveu por volta de 975-1025, reputado autor de um Léxico Grego, que contém muitas passagens de autores cujas obras estão perdidas], (um autor muito antigo, que viveu entre oitocentos e novecentos anos depois de Tertuliano), “diz que todos os tipos de loucura, aquelas dos poetas e profetas deveriam apenas ser desejadas”. Eu estou em dúvida, quanto ao que isto prova. A questão é: Havia visões na Igreja Primitiva? (3) Que Fil[o, o judeu, diz (eu literalmente traduzi suas palavras, o que você não o fez; porque não responderia ao seu propósito): “Quando a luz divina brilha, a humana se põe; mas quando ela se põe, esta surge. Isto costuma ocorrer aos profetas”. Bem, senhor, e o que é isto para a questão? Porque, “dos testemunhos”, você diz, “podemos compreender que a visão ou êxtase da Igreja primitiva foi do mesmo tipo daquelas de Delphic Pythia ou de Cumaean Sibyl”.  

            Muito bem concluído, de fato! Mas eu desejo um testemunho um pouco melhor do que este, quer de Filo, o judeu, ou Suídas, um lexicógrafo do século onze, antes que eu acredito nisto. Quão pouco, Tertuliano tem a ver com respeito a este assunto, você mesmo mostra na próxima página. 

            3. Você diz, (4) “Montanus e seus associados eram os autores desses transes. Eles, primeiro, levantavam este espírito de entusiasmo na Igreja, e adquiriam grande crédito, através de suas visões e êxtases”. Senhor, você se esqueceu: eles não “levantavam este espírito”, mas antes, Joel e Pedro, de acordo com aquelas palavras, “os jovens tiveram visões”, antes que Montanus nascesse.   

            4. Você observa, (5) como Tertuliano “aproveitou do artifício dos visionários extáticos”, e, então, cai sobre Cipriano, com toda sua força: cujas objeções a ele, agora consideraremos.  

            E, (1) Você coloca como um postulatum que ele “era um aficionado do poder e autoridade episcopal”. Eu não garanto isto, senhor: Eu devo ter alguma prova; do contrário esta e todas   que você afirma servirão para nada.  

            Você diz, (2): “Em todos os pontos questionáveis da doutrina ou disciplina, que ele tentava introduzir na adoração cristã, nós nos certificamos que ele constantemente apelava para o testemunho das visões e revelações divinas. Assim, ele diz a Caecilius que ele era divinamente admoestado a misturar água com vinho no sacramento, com o objetivo de representar isto como eficaz”.   

            É uma demonstração suficientemente triste. Porque isto nunca será uma prova de que Cipriano apelou para visões e revelações, com o objetivo de introduzir pontos questionáveis de doutrina e disciplina, na adoração cristã; este ponto era inquestionável, e não poderia ser “introduzido na adoração cristã”, tendo um lugar constante nela, como você mesmo mostrou, pelo menos, desde o tempo de Justino Mártir. 

            De fato, nem Justino, nem Cipriano usaram essas palavras, “com o objetivo de tornar isto efetivo”. Estas são adições engenhosas e honestas de você mesmo, para criar alguma coisa do nada. 

            5. Eu observo que você usa de muita liberdade em sua próxima citação de Cipriano. “Ele ameaça”, você afirma, “executar o que ele havia ordenado fazer ‘contra eles na visão’”. Aqui também as últimas palavras, “na visão”, são acréscimos ao texto. As palavras de Cipriano são estas: “Eu usarei daquela admoestação que o Senhor ordenou-me usar”. Mas não foi com o objetivo de introduzir algum ponto questionável, quer na doutrina ou disciplina, não mais do que usar da mesma ameaça a Pupianus, que havia falado mal dele, e deixado sua comunhão.  

            6. E você prossegue: “Ele diz igualmente que foi admoestado por Deus a ordenar Numidicus, um confessor, destinado a morrer, em parte, queimado, e, em parte, enterrado sob pedras”. Verdade; mas “que ponto questionável da doutrina ou disciplina”, ele introduziu por meio disto? Ou ordenando a Celerinus, “dominado e constrangido, pela divina visão, a aceitar aquele ofício?”. Assim você afirma que Cipriano diz. Mas não é verdade; ---- pelo menos, não nestas palavras que você cita, e que, literalmente traduzidas, transcorrem assim: “Eu recomendei a você, Celerinus, juntar-se ao nosso clero, não pelo humano sufrágio, mas pelo divino favor”.  

            “Em outra carta, falando de Aurelius, a quem ele ordenara declamador, ele diz a seu clero e povo, ‘Ao ordenar o clero, meu querido irmão, eu costumo consultar você, primeiro, mas não há necessidade esperar pelos testemunhos humanos, quando o divino sufrágio já foi dado”.  

            Alguém imparcial gostaria de saber o que você quer dizer com essas cinco passagens, colocadas juntas. Porque, com a ajuda de um pequeno postulado: “Ele apreciava muito do poder” (você poderia dizer: “Ele apreciava muito a carnificina”), você tornaria isto claro: “tudo não passou de um embuste para aumentar sua autoridade episcopal”. Mas, como este postulado não é permitido, você tem que recomeçar toda sua obra.   

            7. Até aqui, o caráter de Cipriano está incólume; mas você decidiu dinamitá-lo de uma só vez. Assim, você prossegue: “O mais memorável efeito de alguma de suas visões foi fugir de sua Igreja no momento da perseguição. Ele afirma que fora ordenado a se retirar por uma revelação especial do céu. Sim, este pretexto foi uma mera ficção, elaborada para aquietar o escândalo que se ergueu, com sua fuga; e é confutado por si mesmo, quando ele declara que foi o conselho de Tertullus que prevaleceu sobre ela”.  

            Aqui você acusa Cipriano de contradizer-se, por afirmar que ele “se retirou a conselho de Tertullus”; considerando que ele “afirmara que foi ordenado a retirar-se por uma revelação especial do céu”. De fato, ele não o fez: não existe necessidade, afinal, para colocar esta construção nestas palavras: “O Senhor que me ordenou a me retirar”; o que pode, sem qualquer esforço, ser entendido de (Mateus 10:23) “Quando eles os perseguirem nesta cidade, fujam para outra”.  Assim sendo, não está claro que esta acusação, de uma revelação especial, foi alguma vez apresentada. E se foi, ainda resta provar que “ela não passou de uma mera ficção”. 

            8. Ao citar seu editor aqui, você me obriga a acrescentar uma observação, já que você me oferece uma oportunidade contínua: Se tanto Rigalt, Sr. Dodwell, Dr. Grabe, Sr. Thirlby, ou algum outro editor dos Patriarcas alguma vez deixa uma expressão desfavorável ao autor que ele publica ou ilustra, ela se torna muito preciosa a você, e certamente você encontra uma oportunidade de expô-la à visão pública. E todas essas passagens, você cita com este intento. Esses são, sem dúvida, meros oráculos; portanto, ainda que a mesma pessoa fale em favor de algum Patriarca, sua autoridade é sem valor. Mas você “não tem quaisquer dessas artimanhas, que são comumente empregadas pelos contendores para disfarçarem a má causa!”.  

            9. O que você relata de Dionísio, Bispo de Alexandria, você não diz de si mesmo, mas apenas de alguém que viveu próximo, centenas de anos depois da morte de Dionísio. Portanto, ele não é, afinal, adequado para isto; como nem eu sou para qualquer visão de Jerônimo. Mas estou preocupado com sua conclusão:”Se esta foi uma ficção, então, a de Cipriano também foi”. Não procede assim. Muitas objeções podem ser colocadas contra alguém, e que nada têm a ver com respeito ao outro. 

            10. Você agora faz uma grande descoberta, a de que “todas as visões daqueles dias eram elaboradas, ou autorizadas, pelo menos, pelos líderes da Igreja. Porque elas eram todas aplicadas: (1) para desculparem a conduta de algumas pessoas, em algumas instâncias sujeitas à censura; ou (2) para reforçarem alguma doutrina ou disciplina, imposta por alguém, mas não apreciada por outras; ou (3) para confirmarem coisas apenas frívolas, e, algumas vezes, até mesmo supersticiosas e prejudiciais”. 

            Bem, senhor, aqui está a proposição. Mas onde está a prova? Eu espero que você a tenha em sua próxima Inquirição Livre; e que você nos dê alguns exemplos de tais aplicações dos escritores dos três primeiros séculos.  

            11. Não estando disposto a isto no momento, você cai novamente no pobre “herético Montanus, quem primeiro deu preferência” (como você exprime) “para as visões e êxtases na Igreja Cristã”. Assim você nos disse antes. Mas não podemos acreditar nisto ainda, porque Pedro e Paulo nos dizem o contrário.  

            De fato, você não menciona Montanus, porque ele é alguma coisa para a questão, mas apenas para observar que aqueles que escreveram contra ele “empregaram tais argumentos contra sua profecia, de maneira a estremecer o crédito de todas as profecias. Porque Epifânio faz do próprio critério entre o verdadeiro e o falso profeta, ‘o fato de que o verdadeiro não tinha êxtases, e mantinha constantemente seus sentidos, e, com firmeza de mente, apreendia e afirmava os oráculos divinos’”. Senhor, você não se enganou? Você não transcreveu uma sentença, e traduziu outra? Aquela sentença que permanece em sua margem é esta: “Quando havia necessidade, os santos de Deus, em meio aos Profetas, profetizavam coisas com o Espírito da verdade e com um profundo entendimento e sensatez de mente”. Agora é difícil se certificar, como isto vem “abalar todas as profecias”.  

            12. Uma vez que: “Antes que os Montanistas tivessem levado tais êxtases ao descrédito, a profecia do ortodoxo também se manifestava no êxtase. E assim também as profecias do Velho Testamento, de acordo com a opinião corrente naqueles primeiros dias”. 

            De que esta era, então, “a opinião corrente”, você traz três citações para provar. Mas se você citasse três Patriarcas mais, durante os três primeiros séculos, expressamente afirmando que os Profetas eram transportados para fora de seus sentidos, eu não tomaria a palavra deles. Porque, embora eu considere que a maioria dos Patriarcas fosse sábia e boa, ainda assim, eu não sei se algum deles era infalível. Mas mesmo esses três afirmam expressamente isto? Não, nenhum deles – pelo menos, não nas palavras que você citou.  

De Atenagoras, você cita apenas parte de uma sentença, que, traduzida, tão literalmente quanto ela pode suportar, transcorre assim: “Aquele que em êxtase, movido pelo Divino Espírito, falava coisas com as quais era inspirado, até mesmo como um flautista respira em uma gaita de fole”. Será que Atenagoras afirma expressamente nestas palavras, que os Profetas “eram transportados para fora de seus sentidos?”. Eu espero, senhor, que você não entenda o Grego. Porque assim, você mostraria aqui apenas um pouco de ignorância inofensiva.  

            13. De Justino Mártir, você cita também apenas parte de uma sentença. Ele fala muito proximamente a isto: “Que o Espírito de Deus, descendo dos céus, e utilizando-se dos homens justos, como a pena golpeia a harpa ou lira, pode nos revelar o conhecimento das coisas divinas e celestes”. E com isto, Justino afirma expressamente que todos os Profetas “eram transportados para fora de seus sentidos?”.  

            As palavras de Tertuliano são: “Para um homem estar no Espírito, especialmente quando observa a glória de Deus, ele necessita perder os sentidos”. Agora, como não está claro que ele quer dizer com isto, “perder seu entendimento” (sendo, pelo menos, igualmente provável que ele não pretende mais do que não se utilizar de seus sentidos exteriores), nem se pode dizer que Tertuliano expressamente afirma que “Os Profetas eram transportados para fora de seus sentidos”. Portanto, você não tem mais do que um Patriarca para atestar o que você afirma ser a “opinião corrente naqueles dias”.  

            14. Todo homem de entendimento pode observar uma circunstância que envolve todas as suas citações. A força de seus argumentos está na maneira livre e parafrástica de traduzir. A minha está na tradução mais restrita e literal;  de maneira a fortalecer os meus argumentos, na mesma proporção em que enfraquece os seus; uma prova clara, como você observa, em outra parte, de que você “não se utiliza de refinamentos sutis ou construções forçadas”.  

            15. Retornemos a Cipriano. “Eu não posso deixar de observar”, você diz, “três mais de suas maravilhosas histórias. A primeira: a de que um homem que negava Cristo ficou presentemente mudo: A segunda: uma mulher que também O negava foi aprisionada por um espírito imundo, e logo depois morreu em grande angústia: a terceira, da qual ele diz ter sido testemunha, é esta: -- Os magistrados pagãos deram a uma criança cristã, parte do que oferecera a um ídolo. Quando o diácono forçou o vinho consagrado nesta criança, ela foi imediatamente atacada com convulsões e vômitos; assim como uma mulher que havia abjurado, ao tomar os elementos consagrados”. As outras duas relações, Cipriano não afirma serem de seu conhecimento pessoal.  

            “Agora, o que podemos pensar”, você pergunta, “dessas estranhas histórias, a não ser que elas foram parcialmente forjadas, e parcialmente revestidas nesta forma trágica, para garantir a disciplina da Igreja naqueles tempos de perigo e prova?”. 

            Porque, muitos acreditarão que algumas delas são verdadeiras, até pela maneira em que são relatadas; e que, se alguma não era, Cipriano pensou que fosse, e a relatou na sinceridade de seu coração. Mais do que isto, alguns acreditarão que a sabedoria de Deus poderia “naqueles tempos de perigo e prova” operar desta forma, para a mesma finalidade, “garantir a disciplina da Igreja”.  E até que você mostre falsidade, ou, pelo menos, improbabilidade, o caráter de Cipriano permanece intocável; não apenas como homem consciente (o que você mesmo admite), mas, igualmente, de eminente integridade; e, consequentemente, é indiscutível que as visões, o quinto dom milagroso, permaneceram na Igreja, depois dos dias dos Apóstolos.  

Seção V 

            1. O sexto dom que você enumerou acima, ou seja, o “discernimento dos espíritos”, você apenas cita, e, então, não faz uso. O sétimo, é o de “expor as Escrituras”. Você inclui nele, “ou expor os mistérios de Deus”. Mas, porque ainda não são concordantes (como foi insinuado acima), embora sejam o mesmo dom, podem ser deixados fora. 

            2. Agora, a isto, você diz: “Não existe traço a ser encontrado, desde os tempos dos Apóstolos. Porque, até mesmo no segundo e terceiro séculos, um método mais estúpido e extravagante de expor, prevaleceu. Porque, quando censuramos algum Patriarca, em especial, seus apologistas unanimemente alegam: ‘Isto deve ficar por conta da época em que ele viveu, e que não teria inclinação, ou suportaria algo melhor’”. 

            Eu duvido muito, que você possa trazer um simples apologista para qualquer “comentário ridículo sobre escrito sagrado”, e que “alegue que o segundo ou terceiro séculos não teriam inclinação ou suportariam algo melhor”. Mas, se todos eles disserem isto, em uma só voz, ainda assim, nenhum homem razoável poderia acreditar neles; porque seria notoriamente contrário à questão do fato. Podemos admitir que alguns desses Patriarcas, temerosos de uma maneira muito literal de expor as Escrituras, inclinaram-se, algumas vezes, para o outro extremo. Mas nada pode ser mais injusto do que inferir disto que “a época em que viveram não teria inclinação ou suportaria algo melhor, a não ser os comentários estúpidos, extravagantes, fanáticos e ridículos sobre os escritos sagrados”. 

            Você diria que todos os comentários sobre as Escrituras, que ainda podem ser encontrados nos escritos de Ignácio, Policarpo, Atenágoras, ou mesmo de Orígenes e Clemente Alexandrino, são estúpidos e extravagantes? Se não, esta acusação deve cair por chão; uma vez manifesto que, até mesmo “a época em que eles viveram” poderia  “inclinar-se e suportar” comentários profundos, conscientes, racionais (ainda que espirituais) sobre o escrito sagrado.  

            Ainda assim, esta acusação extravagante você repetiu várias vezes, nas diversas partes de sua obra, forçando-a sobre seu leitor, em qualquer época: quão razoavelmente, que os homens imparciais julguem.  

            3. No tocante ao dom de expor as Escrituras, você diz: “Justino Mártir afirma que este foi conferido a ele, através da graça especial de Deus”. Eu não consigo encontrar aqui, onde ele afirma isto. Não nas palavras que você cita, que, literalmente traduzidas (como observado antes), transcorrem assim: “Ele nos revela o que quer que entendamos, através de sua graça; também a respeito das Escrituras”. Você parece consciente que essas palavras não provam o ponto, e, portanto, acrescente a elas  aquelas de Monsieur Tillemont [Louis Sebastien de Tillemont (1637-98), o historiador eclesiástico; ordenado padre em 1676. Ele tomou seu nome de Tillemont, próximo a Paris, onde se estabeleceu]. Mas suas próprias palavras, e não outra, me satisfarão. Eu não posso acreditar nisto, exceto se dito por ele mesmo. 

            4. Enquanto isto, eu não posso deixar de observar uma estranha circunstância -  a de que você usa aqui de toda sua força, para confutar uma proposição que (se verdadeira ou falsa), nenhum de seus antagonistas afirma. Você se esforça para provar que “não existiu na Igreja Primitiva tal dom miraculoso como aquele de expor as Escrituras”.  Eu lhe peço, senhor, quem disse que havia? Nem Justino Mártir; nem um, dentre todos os Patriarcas, os quais você citou como testemunhos de dons milagrosos, desde a décima até a décima-oitava página de sua Inquirição. Se você acredita que eles o fizeram, eu estou pronto para seguir você, passo-a-passo, através de toda citação que fez.  

            5. Não, nem isto é mencionado em algum registro de dons milagrosos que eu possa encontrar nas Escrituras Sagradas. A Profecia, de fato, é mencionada mais de uma vez pelos Apóstolos, assim como os Patriarcas. Mas o contexto mostra, onde ela é prometida como um dom miraculoso,  que isto significa predizer coisas vindouras. Tudo, portanto, que você diz sobre o assunto é uma mera ‘ignoratio elenchi’, “um equívoco da questão a ser provada”.   

Seção  VI 

            1. O oitavo e último dos dons milagrosos, você registrou como o dom de línguas. E isto, é verdade, foi reivindicado pelos primitivos cristãos; porque Irenaeus diz expressamente: “Nós ouvimos muitos na Igreja falando em todos os tipos de línguas”.  “E ainda”, você diz, “isto foi afirmado apenas em ocasiões especiais, e, então, retirado novamente dos próprios Apóstolos; de maneira que, no curso ordinário do ministério deles, eles eram geralmente destituídos deste dom.. Isto, você diz, “eu mostrei em outros lugares”.  Eu presumo que em alguns tratados que eu não vi.  

            2. Mas Irenaeus, que declara que “muitos tinham este dom, em seu tempo, ainda afirma que ele mesmo não possuía”.  Esta é apenas uma prova de que o caso foi, então, o mesmo que Paulo observou muito tempo antes: “Serão todos operadores de milagrafes? Todos têm os dons de cura? Todos falam em línguas?”.  (I Cor. 12: 19-30).  Não, nem mesmo quando aqueles dons se espalharam de uma maneira mais abundante.  

            3. “Mas nenhum outro Patriarca fez a menor reivindicação dele”. Talvez, nenhum daqueles, cujos escritos existem hoje – pelo menos, não naqueles escritos existentes. Mas, o que são esses, em comparação com aqueles que estão perdidos? E quantos foram queimados nos três primeiros séculos depois de Cristo, que não escreveram relato deles mesmos, afinal – ao menos, nenhum que chegou em nossas mãos? Mas, quem são aqueles que falam dele, como um dom peculiar dos tempos dos Apóstolos? Você diz: “Não existe um único Patriarca que se aventure a falar dele, de alguma outra maneira”.  Bem, traga-me, ao menos, seis Sacerdotes ante-Nicene, que falaram dele, desta maneira, e eu desistirei de todo o ponto.  

            4. Mas você diz: “Após os tempos apostólicos, não existe, em toda a história, um exemplo de alguma pessoa específica que alguma vez exerceu este dom”. Você quer dizer que, tanto os pagãos não mencionaram exemplo deste tipo (o que não é surpresa, afinal), ou Irenaeus não menciona os nomes daquelas muitas pessoas, que, em seu tempo, exerceram este dom. E isto também pode ser admitido, sem afetar, de alguma forma, a credibilidade de seu testemunho concernente a eles. 

            5. Eu devo observar aqui outra de suas proposições que o conduz a muitos equívocos. Com respeito aos tempos passados, você continuamente toma como certo que:: “O que não está registrado, não aconteceu”.  Mas isto é, de modo algum, um axioma auto-evidente.--- mais ainda, possivelmente, isto não é verdadeiro. Porque podem existir muitas razões, na profundidade da sabedoria de Deus, para o Seu fazer muitas coisas, em diversos tempos e lugares, quer através de Seu poder natural, ou sobrenatural, que nunca foi registrado, afinal. E muito mais foi registrado, e com a mais completa evidência, e que, não obstante, não encontramos comprovação certa agora, no percurso de mil e quatrocentos anos.  

            6. Talvez, isto aconteça no próprio caso diante de nós. Muitos podem ter falado novas línguas, e isto não foi registrado – pelo menos, os registrados foram perdidos no decurso de muitos anos. Mais do que isto, não é apenas possível que isto possa ser assim, mas é absolutamente certo que é: e você mesmo deve reconhecer; porque você reconhece que os Apóstolos, quando em regiões estranhas, falaram línguas estranhas – que João, por exemplo, quando na Ásia Menor; Pedro, quando na Itália (se realmente esteve lá), e outros Apóstolos, quando em outras regiões, em Parthia, Média Phrygia, Pamphylia, falaram para os nativos de cada uma delas, em suas próprias línguas, as maravilhosas obras de Deus. E, ainda assim, não existe um registro autêntico disto: não existe, em toda a história, um exemplo bem-atestado de algum Apóstolo exercitando este dom em qualquer região que seja. Agora, senhor, se seu axioma fosse admitido, qual seria a conseqüência? Ainda que os próprios Apóstolos não mais falassem em línguas, do que quaisquer de seus sucessores.  

            7. Eu não preciso, portanto, me preocupar a respeito de suas conclusões subseqüentes, uma vez que elas estão construídas em tal alicerce. Apenas devo observar um equívoco histórico que ocorre em toda a sua página seguinte. Desde a Reforma, você diz, “este dom nunca tinha sido ouvido ou pretendido pelos próprios Romanistas”.  Mas ele foi pretendido (quer merecidamente ou não) por nenhum outro, embora não pelos Católicos? Ele “nunca foi ouvido, até aquele tempo? “.  Senhor, sua memória  falha novamente: sem dúvida, foi pretendido, e isto, não muito distante, quer de nosso tempo ou país. Ouviu-se mais que uma vez,  não muito longe dos vales de Dauphiny. E nem cinqüenta anos atrás, desde que os Protestantes daqueles vales tão ruidosamente pretendessem este e outros poderes milagrosos, de maneira a causarem perturbação na própria Paris. E como o rei da França confutou esta presença e impediu de ser ouvida? Não pela pena de seus estudiosos, mas (uma maneira verdadeiramente pagã) pelas espadas e baionetas de seus dragões.  

            8. Você encerra este tópico com um pensamento muito extraordinário. “O dom de línguas pode”, você diz, “ser considerado como um teste apropriado ou critério para determinar as pretensões miraculosas de todas as Igrejas. Se, em meio aos dons extraordinários, elas não podem nos mostrar isto, nada têm a mostrar que seja genuíno. 

            Agora, eu realmente penso que seja o contrário. Eu acredito que se trata de uma regra declarada no caso: “Todos esses são operados por um e o mesmo Espírito, repartindo para cada homem, individualmente, conforme Sua vontade;” e como é para cada homem, assim é para cada Igreja, para todo o corpo coletivo de homens. Mas se assim for, então, o seu teste não é apropriado para determinar as pretensões de todas as Igrejas: uma vez que Ele opera conforme Sua vontade, e com Sua permissão, possibilita o dom de línguas, onde ele não possibilita outro; e vê muitas razões para fazer isto, quer você e eu as vejamos ou não. Porque, nem sempre temos conhecimento da mente do Senhor, já que não fazemos parte de Seus conselheiros. Por outro lado, ele pode conceder muitos outros dons, onde não é de Sua vontade outorgá-los; especialmente, onde não for de algum uso, como na Igreja onde todos são de um só pensamento e falam a mesma língua. 

            9. Você finaliza, de certo modo, o que propôs, em quarto lugar, que foi “rever todos os diversos tipos de dons miraculosos que parecem ter existido na Igreja primitiva “. De fato, você colocou um ou dois deles, de passagem: contra os demais você mostrou suas razões mais fortes. Essas razões têm sido friamente examinadas. No entanto, que todo homem imparcial, toda pessoa de razão confiável e sem preconceitos, calmamente considere e julgue, se você distinguiu  um ponto de todos os que você teve em mão, e se alguns milagres de cada tipo não foram forjados na Igreja primitiva, em vão, você se esforçou para o contrário.

             10. Da página 127 à 158, você relata milagres que se acredita forjados no século quatro. Eu não me preocupo com esses; mas devo pesar um argumento que você mistura com isto, repetidas vezes. Em essência é: “Se não podemos acreditar nos milagres atestados pelos recentes Patriarcas, então, não devemos acreditar naqueles que são atestados pelos primeiros escritores da Igreja”. Eu respondo: A conclusão é equivocada, porque não se trata do mesmo caso. Diversas objeções que não dizem respeito ao primeiros, podem se colocar contra os recentes milagres, -- traçadas tanto da própria improbabilidade dos fatos, tal como não temos precedente nos escritos santos, quanto da incompetência dos instrumentos utilizados para executá-los, tais como ossos, relíquias, ou santos mortos; ou da grosseira “credulidade de um preconceituoso ou da desonestidade de um relator interessado.  

            11. Uma ou outra dessas objeções se mantém contra a maioria dos recentes, embora não contra os primeiros milagres. E, se apenas uma se mantém, é suficiente; é o alicerce competente para fazer a diferença. Se, no entanto, for verdade que não houve um simples Patriarca do quarto século que não foi igualmente piedoso como a maioria dos anciãos, ainda devemos consistentemente rejeitar a maioria dos milagres do século quatro, enquanto admitimos aqueles das eras precedentes, quer pela maior improbabilidade dos fatos quanto pela incompetência dos instrumentos.  

            Mas não é verdade que “os Patriarcas do século quatro”, os quais você menciona, eram tão piedosos quanto a maioria das eras precedentes. Mais do que isto, de acordo com seu relato (que eu não devo agora contestar), eles não eram piedosos, afinal; porque você diz: “Eles eram obstinados, mentirosos habituais”. Assim sendo, eles não tinham um grão de devoção. Agora, que os primeiros Patriarcas não eram tais, tem sido mostrado largamente; ainda que você os contemple com o mesmo caráter. Consequentemente, se esses recentes Patriarcas devem ser acreditados ou não, não podemos seguramente acreditar nos anteriores, que não se atreveriam a fazer o mal, para que o bem surgisse ou mentir, quer para Deus ou para o homem.  

            12. Não pretendo dizer algo mais, com respeito a qualquer dos milagres das recentes eras; mas sua maneira de esclarecer um, que se entende forjado no quinto século, é extremamente curiosa, de maneira que não posso deixar passar.  

            A história parece ser esta: “Hunneric, um príncipe Ariano, em sua perseguição ao ortodoxo na África, ordenou que as línguas de uma certa sociedade fossem cortadas pela raiz. Mas, por um exemplo surpreendente da boa providência de Deus, eles foram capacitados a falarem articuladamente e distintamente, sem suas línguas. E assim, continuando a declarar a mesma doutrina que antes, eles não só se tornaram pregadores, mas testemunhas vivas de sua verdade”. 

            Não me interprete mal, senhor: Eu não pretendo, afinal, atestar como verdade este milagre. Eu o deixo exatamente como o encontrei. Mas me preocupo com sua maneira de considerá-lo.   

            13. Primeiro, você diz: “Não é improvável supor que, embora suas línguas fossem cortadas pela raiz, ainda assim, a sentença não fosse estritamente executada, de maneira a deixar em alguns deles, tal porção daquele órgão, suficiente, em um grau tolerável,  para o uso da fala”. 

            Assim você pensa, senhor, que, se apenas uma polegada da língua do homem fosse habilmente cortada, ele seria capaz de falar toleravelmente bem, tão logo a operação terminasse. 

            Mas a parte mais maravilhosa ainda ficou para trás. Porque você acrescenta: “Para chegar mais perto ao ponto, -- se nós admitirmos que as línguas desses confessores foram cortadas pela raiz, o que o doutor erudito diria, se este milagre alardeador não fosse milagre, afinal?”.  

            “Diria?”. Porque, para que você tenha mais habilidade do que todos os “errantes prestidigitadores” dos primeiros três séculos? 

            Mas quanto ao ponto: Vamos ver como você se sai a respeito. Uma vez que, “a língua” (como você justamente observa sutilmente) “geralmente é considerada como absolutamente necessária ao uso da fala; de maneira que ouvir os homens falarem, sem ela, passaria facilmente por um milagre naquela época crédula. Ainda assim, sempre houve lugar para dúvida, se  existiu alguma coisa milagrosa nisto ou não. Mas temos um exemplo, no presente século, que esclarece todas as nossas dúvidas e decide inteiramente a questão: Refiro-me ao caso de uma garota, nascida sem a língua, que falou tão facilmente e distintamente, como se ela tivesse uma; um relato fornecido pelas Memórias da Academia de Ciência de Paris”.   

            14. E você pode realmente acreditar nisto, que uma garota “falou distinta e facilmente”, sem língua, afinal? E depois de declarar esta crença, você questiona a credulidade de outros homens? Eu gostaria de saber, se tal voluntário na fé, poderia se confundir com alguma coisa. Sem dúvida, fosse isto relatado como natural apenas, não milagroso, você acreditaria que um homem poderia ver sem os olhos.  

            Certamente existe alguma coisa muito peculiar nisto – alguma coisa extraordinária, embora não milagrosa – que um homem que seja muito sábio para acreditar na Bíblia, acredite em tudo, mas, com respeito à Bíblia, eu acreditaria em qualquer narrativa, de maneira que Deus estaria  fora da questão, ainda que improvável, ainda que impossível! 

15. “Eu agora”, você diz, “reuni tudo que eu coletei para o suporte de meu argumento”; depois de uma imperfeita recapitulação dele, que você acrescenta com um ar de triunfo e satisfação: “Eu espero que os Patriarcas, os mais hábeis defensores que o Papismo pode proporcionar; porque o Protestantismo, estou certo, não pode suprir quem eles escolherem para manter na causa deles – ninguém que possa defendê-los, sem contradizer sua própria profissão e desonrar seu próprio caráter, ou produzir alguma coisa, a não ser o que merece ser escarnecido, preferivelmente, a ser respondido”.  

Não seria melhor, senhor, não estar completamente certo disto, ainda? Você nem sempre pode ter o escárnio do seu lado. Você ainda não está infalivelmente seguro, mas mesmo o Protestantismo pode produzir alguma coisa merecedora de uma resposta. Podem existir alguns Protestantes, você sabe, que tenham algum bom-senso restante, e podem achar uma maneira de defender, pelo menos, os Patriarcas Ante-Nicene, sem “desonrarem seu próprio caráter”. Mesmo alguém como eu, tenho tentado fracamente isto; embora nunca tenha, nem espero ter, qualquer primazia, nem mesmo ser um capelão Lambeth, o que, se o Dr. Middleton não é, não é por culpa dele.  

            1.  A última coisa que você propôs foi “contestar algumas das mais plausíveis objeções que foram feitas até hoje”,  Ao que você ofereceu neste tópico, eu devo igualmente tentar uma resposta breve. 

            Você diz: “Primeiro, objeta-se que, pelo caráter que eu tenho dado aos Patriarcas, a autoridade dos livros do Novo Testamente, que nos foram transmitidos, através das mãos deles, serão considerados  precários e incertos”. 

            Depois de simular confundir-se com isto, você francamente reconhece o todo desta objeção. “Eu posso me aventurar”,  você diz, “a declarar que, se esta objeção for verdadeira, ela não pode ferir meu argumento. Porque, se for natural e necessário que a simulação e credulidade das testemunhas possam sempre diminuir o crédito do testemunho delas, então, quem poderá ajudar nisto? E, se esta acusação for provada sobre os Patriarcas, ela deve ser admitida, até onde as conseqüências possam chegar”. 

            “Se for provada!”.  Muito verdadeiro. Se esta acusação contra os Patriarcas for realmente e substancialmente provada, a autoridade do Novo Testamente estaria no fim, até onde ela depende de um tipo de evidência. Mas esta acusação não está provada. Portanto, mesmo a autoridade tradicional do Novo Testamento está tão firme como sempre.  

            2. “Em Segundo Lugar, objeta-se”, você diz, “que toda a suspeita de fraude no caso dos milagres primitivos foi excluída por aquele apelo e objeção pública que os apologistas cristãos fizeram a seus inimigos, os pagãos, para que viessem e vissem com seus próprios olhos a realidade dos fatos que eles atestavam”.  

            Você responde: “Esta objeção não tem peso real com quem quer que esteja familiarizado com a condição dos cristãos naqueles dias”. Você, então, estende-se (como parece, com um prazer peculiar) sobre a objeção geral e ódio que existe desde a primeira aparição do Cristianismo no mundo, até que ele foi estabelecido pelo poder civil.  

            “Nestas circunstâncias, não se pode imaginar”, você diz, “que os homens de posição e fortuna prestariam alguma atenção às apologias ou escritos de uma seita tão extremamente menosprezada”. Mas, senhor, eles eram odiados, tanto quanto desprezados; e isto pelo grande vulgar, assim como pelo pequeno. E este mesmo ódio naturalmente os incitaria a examinarem o fundamento das provocações diariamente repetidas por aqueles que eles odiavam;  fosse apenas pelo descobrir a fraude (que não lhes faltava oportunidade, nem habilidade) eles teriam uma razão melhor, para atirar os cristãos aos leões do que porque o Nilo não inundou ou o Tiber, sim.   

            3. Você acrescenta: “Muito menos, podemos acreditar que o Imperador ou Senado de Roma prestasse alguma atenção a essas apologias, ou mesmo soubesse, de fato, que alguma tal era endereçada a eles”.  

             Porque, senhor, pelo seu relato, você nos faria acreditar que todos os Imperadores e Senadores, juntos, eram “uma raça insensata e estúpida de  cabeças-duras e brutos”, assim como os próprios cristãos.  

            Mas espere. Você vai provar isto também. “Porque”,  você diz, “se o mesmo caso acontecesse agora, em que algum Metodista, Morávio, ou profeta francês”  (habilidosamente colocados juntos) “publicassem uma apologia a seus irmãos, endereçada ao Rei e ao Parlamento, não seria totalmente improvável que o Governo prestaria alguma atenção a ela?”. Você deveria acrescentar (para traçar um paralelo completo), “ou saber que alguma tal fora endereçada a eles”.  

            Não: Eu entendo a improbabilidade que supostamente se coloca totalmente do outro lado. O que quer que o Governo dos pagãos romanos fosse (o que eu presumo você não depreciará), o Governo da Inglaterra é notável pela ternura para com o súdito mais inferior. Portanto, não é improvável, de maneira alguma, que um discurso de algumas centenas desses súditos, e quão desprezíveis fossem, eles eram geralmente estimados, fosse totalmente desconsiderado por tal Governo. Porém, que “não soubessem que algum tal fora endereçado a eles” não é apenas improvável, mas moralmente impossível.  

            Se, portanto, fosse possível para os pagãos “terem uma opinião pior dos cristãos primitivos do que temos”, você diz, “de nossos fanáticos modernos”,  ainda assim, é totalmente inacreditável que o Governo Romano não apenas “não tomasse conhecimento das apologias deles”, mas “nem mesmo soubesse que alguma tal fora endereçada a eles”.  

            4. “Mas os livros publicados eram mais caros do que são agora; e, portanto, não podemos acreditar que os cristãos daqueles dias fossem capazes de proverem tal número deles, suficiente para a informação do público”. 

            Mais do que isto, se eles não eram capazes de proverem alimento e vestimenta para si mesmos, eles certamente proveriam suficiente número desses – suficiente, pelo menos, para a informação do Imperador e Senado, aos quais aquelas apologias eram endereçadas. E quão grande número, você supõe, seria suficiente? Quantas centenas ou milhares de cópias? Eu penso que o Imperador ficaria contente com uma; e uma mais seria necessária para o Senado. Agora, eu realmente acredito que os cristãos daqueles dias eram capazes de prover ambas essas cópias – ou mesmo duas mais, se ocorresse de dois ou três Imperadores estarem no trono; embora possamos supor que no tempo de Tertuliano havia quarenta mil deles em toda a Roma. 

            5. No entanto, você se precipita: “Uma vez, então, que os cristãos não eram capazes de suportar o custo de copiá-las”  (quer os pagãos estivessem dispostos a comprá-las ou não, no momento está fora de questão), “existe grande motivo para acreditar que as apologias deles, quão gravemente endereçadas aos Imperadores e Senados, permaneceram desconhecidas por muitos anos”. Não existe motivo para se acreditar nisto, de alguma coisa que você já apresentou. Você acrescenta: “Especialmente quando a publicação delas não foi apenas cara, mas igualmente criminosa, de maneira a expô-los frequentemente ao perigo, e mesmo à punição capital”.  

            De fato, senhor, algumas vezes, eu me vejo inclinado a suspeitar que você mesmo está relacionado com certos Patriarcas antigos (não obstante as citações doutas que adornam sua margem), que costumavam dizer: 'Graecum est; non potest leg” – Quem pode andar em suas pernas traseiras).  Assim, você me coloca debaixo de uma tentação quase invencível de pensar desta forma, por esta mesma razão. Porque, o que o persuadiria, se você já sabia o que ele disse, de maneira a colocar no rodapé desta mesma página, uma passagem de um desses apologistas, Justino Mártir, que tão claramente contesta seu próprio argumento? As palavras são: “Embora a morte seja determinada contra aqueles que ensinam e confessam o nome de Cristo, nós ambos o admitimos e ensinamos em todos os lugares. E, se você também recebe essas palavras como inimigas, você nada mais pode nos fazer do que nos matar”. Poderia o perigo, então, ou o temor da “punição capital”, impedir aqueles cristãos de apresentarem essas apologias? Não; a punição capital não era terror para aqueles que diariamente se ofereciam às chamas, até que os próprios açougueiros pagãos estivessem cansados de trucidá-los.  

            Não pode existir, portanto, sombra de dúvida restante em qualquer homem ponderado e imparcial, a não se que essas apologias foram apresentadas à maioria dos pagãos eminentes, aos Magistrados, ao Senado, aos Imperadores. Nem, consequentemente, existe o menor motivo para duvidar da verdade dos fatos, uma vez que os apologistas constantemente desejaram que seus inimigos “viessem e vissem com seus próprios olhos” --  um risco que aqueles “astuciosos homens” nunca correriam, não estivessem os próprios fatos infalivelmente certos. Esta objeção, então, se coloca contra você, com força total; porque tal apelo público aos mais amargos inimigos deve excluir toda a suspeita razoável de fraude no caso dos milagres primitivos.  

            6. Você nos diz que se objeta, em terceiro lugar, “que nenhuma suspeita de fraude pode razoavelmente ser tomada em consideração contra aqueles que se expuseram ao martírio na confirmação da verdade que eles ensinavam”.  

            Com o objetivo de invalidar esta objeção, você afirma que alguns cristãos primitivos se exporiam ao martírio da mera obstinação, outros de um desejo de glória, outros por temor da reprovação, mas a maioria deles da esperança de uma recompensa maior nos céus. Especialmente porque eles acreditavam que o fim do mundo estava próximo e que os mártires não sentiriam dor na morte. “Todos esses tópicos”,  você diz, “quando dispostos com arte, eram suficientes para inflamar a multidão a admitir qualquer martírio”.  

             Isto parece muito plausível na especulação. Mas o fato e experiência não responderão. Você é um homem eloqüente, você é capaz de dispor qualquer tópico que lhe agrade com destreza suficiente. Ainda assim, se você tentasse com toda aquela arte e eloqüência persuadir, através de todos esses tópicos, não uma multidão, mas um simples e crédulo camponês,  a aceitar levar um tiro na cabeça, eu temo que dificilmente o convenceria, afinal, a admitir até mesmo aquele martírio leve. E seria ainda mais difícil encontrar um homem, que da obstinação, temor da vergonha, ou desejo de glória, calma e deliberadamente aceitasse ser queimado vivo em Smithfield.   

            7. Você, alguma vez, considerou, senhor, como o caso se situa em nosso próprio país, nem duzentos anos atrás? Não uma multidão, na verdade, mas também, não poucos de nossos próprios conterrâneos expiraram nas chamas. E não houve consenso entre eles, de que os mártires não sentem dor na morte. Que esses sentiram, assim como outros homens, apareceu claramente no caso do Bispo Ridley gritando: “Eu não posso ser queimado! Eu não posso ser queimado!, quando suas partes inferiores eram consumidas. Você acredita que o temor da vergonha ou desejo de louvor foi a razão porque isto aconteceu? Ou você tem motivo para acreditar que foi a mera obstinação que os impediu de aceitar o livramento? Senhor, “uma vez que a natureza do homem sempre foi a mesma, assim é que nossa experiência do que agora se passa em nossa própria alma será a melhor explicação sobre o que nos é entregue, concernente a outros”, permita-me pedir-lhe para fazer deste o seu caso. Você não deve dizer: “Eu não sou um dos vulgares ignorantes; eu sou um homem de senso e discernimento”. Assim eram muitos deles – não inferiores, até mesmo, a você, quer nos dons naturais ou adquiridos. Eu pergunto, então, seriam alguns desses motivos suficientes para induzi-lo  a se deixar queimar em uma estaca? Eu imploro, senhor, coloque sua mão no coração, e responda, entre Deus e sua própria alma, qual motivo o estimularia a caminhar para o fogo, a não ser a esperança total da imortalidade? Quando você menciona este motivo, você fala direto ao ponto. E, ainda assim, mesmo a este respeito, você e eu descobriríamos, fosse possível, que a esperança de um tolo, ou a esperança de um hipócrita não nos serviria. Descobriríamos que nada mais nos apoiaria naquela hora, a não ser a confiança bem fundada de uma ressurreição melhor; nada menos do que “firmemente olhar para os céus, e observar a glória que seria revelada”. 

            8. “Mas os heréticos”, você diz,  “têm sido mártires”.  Eu responderei mais particularmente, quando você especificar quem e quando. Pode ser suficiente dizer agora, que, quem quer que ele seja, que, preferivelmente a ofender Deus, calma e deliberadamente escolhe a morte, eu não posso alegremente falar mal dele.  

            Mas Cipriano diz: “Alguns que sofreram torturas por Cristo, ainda assim, mais tarde, caíram em grosseiro e declarado pecado”. Pode ser que sim; mas isto é nada para a questão. Isto não prova, de maneira alguma, o que você trouxe para provar – ou seja, “que os homens ímpios suportaram o martírio”. Não se esquive, senhor, e diga, “sim, os tormentos são um tipo de martírio”. Verdade, mas não o martírio do qual falamos.  

            9. Você remedia tudo, por fim, declarando gravemente: “Não é meu objetivo depreciar, de alguma maneira, o justo louvor daqueles mártires primitivos que apoiaram a causa de Cristo, à custa de suas vidas”. Não. Quem, alguma vez, suporia isto? Que imaginaria que era seu objetivo depreciar o justo louvor de Justino, Irenaeus, ou Cipriano? Você apenas pretendeu mostrar qual era o justo louvor – ou seja, o louvor dos batedores de carteira, dos trapaceiros comuns e impostores. Nós entendemos o que você quis dizer, portanto, quando você acrescenta: “É razoável acreditar que eles eram a melhor espécie de cristãos, e os principais ornamentos da Igreja em suas diversas épocas”. 

            10. Você conclui: “Meu ponto de vista é mostrar que o martírio deles não acrescenta peso algum ao testemunho deles”. Quer acrescente ou não, “isto nos dá uma prova mais convincente” (como você mesmo afirma) “da sinceridade da fé deles”; e, consequentemente prova que “nenhuma suspeita de fraude pode razoavelmente ser cogitada contra eles”. Mas esta (que você parece ter esquecido completamente) era o todo da objeção; e, consequentemente, esta, assim como as objeções anteriores ,permanece em sua plena força.  

            11. Objeta-se”, em quarto lugar, você diz, que você “destrói a fé e o crédito de toda a história”. Mas esta objeção, que você afirma, “quando seriamente considerada, não parece ter sentido, afinal, nisto”.  

             Isto, tentaremos. E uma passagem, direto ao ponto, é tão boa quanto milhares. Agora, senhor, esteja a vontade para olhar para trás. Em seu Prefácio, página 9, eu li essas palavras:  “A credulidade dos fatos se coloca aberta ao julgamento de nossa razão e sentidos. Mas a credulidade das testemunhas depende de uma variedade de princípios, totalmente ocultos a nós; e, embora em muitos casos, possamos razoavelmente presumi-la, ainda assim, em nenhum, ela pode ser certamente conhecida”.  

            Se isto for como você afirma (eu repito novamente), então, adeus ao crédito de toda a história. Senhor, isto não é o  jargão dos fanáticos; você não precisa escapar assim: trata-se da clara e sóbria razão. Se a credulidade das testemunhas, de todas as testemunhas (porque você não faz distinção), depende, como você  categoricamente afirma, de uma variedade de princípios totalmente ocultos a nós, e, consequentemente, embora possa ser presumida em muitos casos, ainda assim, não pode ser certamente conhecida, em ninguém, então, está certo que toda a história, sagrada ou profana, é extremamente precária e incerta. Então, eu posso, de fato, presumir, mas não posso certamente saber, que Julio César foi morto no Senado;  não posso certamente saber que houve um Imperador no Governo, chamado Charles V, que Leão X, alguma vez, se sentou na diocese de Roma, ou Luiz XIV no trono da França.  Agora que algum homem de bom-senso julgue se esta objeção tem algum sentido nisto ou não.  

            12. Sob o mesmo tópico, você recai, no caso da feitiçaria, e diz? “Não existe em toda história, qualquer fato milagroso tão autenticamente atestado como a existência de bruxas. “Todas as nações cristãs” (sim, e todas as pagãs) “ o que quer que sejam, têm consentido na crença delas. Agora, negar a realidade dos fatos, tão solenemente  atestados e tão universalmente acreditados, parece desmentir o sentido e experiência de toda a Cristandade, as mais sábias e melhores de todas as nações, e os monumentos públicos que subsistem até nossos dias”. 

            O que o obriga, então, a negar isto? Você responde: “A incredulidade da coisa”.  Ó, senhor, nunca se empenhe na incredulidade disto, depois de ter aceito centenas de pessoas falarem sem suas línguas!”.  

            13. O que você almeja nisto também está claro, assim como seu relato da Abadia de Paris. O ponto de seu argumento é: “Se você não pode acreditar nesses, então, você não deve acreditar na Bíblia; a incredulidade das coisas relatadas devem destruir todo testemunho, qualquer que seja”.  

            Seu argumento, por fim, transcorre assim: 

            “Se as coisas forem inacreditáveis, em si mesmas, então, esta incredulidade deve destruir todo o testemunho concernente a elas”. 

            “Mas os milagres evangélicos são inacreditáveis em si mesmos”.  

            Senhor, esta proposição eu nego. Você não a provou ainda. Você, até agora, de passagem, fez uma tentativa de prová-la. E até que isto seja feito, você fez nada com toda a algazarra que criou.   

            14, Você reserva o golpe final por último: “Dificilmente existiu um milagre, forjado nos tempos primitivos, mas o que se diz executado em nossos dias. Mas todas essas modernas pretensões, nós atribuímos à causa verdadeira delas – a habilidade de alguns poucos, em brincarem com a credulidade de muitos, por interesses pessoais. Quando, portanto, lemos a respeito das mesmas coisas feitas pelos anciãos, e para as mesmas finalidades – adquirir saúde, crédito, ou poder – como possivelmente podemos hesitar de imputar a eles, a mesma acusação de fraude e impostura?”.  

            A razão de nossa hesitação é esta: eles não responderam às mesmas finalidades. O clero moderno de Roma granjeia  crédito e saúde, através de seus milagres simulados. Mas o antigo clero adquiriu nada, através de seus milagres, a não ser “ferir-se, ser destituído, ser atormentado”. Um ganhou todas as coisas, através disto: os outros perderam todas as coisas. E isto, acreditamos, faz alguma diferença. “Mesmo na presente hora”, diz um deles (escrevendo àqueles que facilmente o refutaria, se não falasse a verdade), “ sofremos fome, e sede, e estamos nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa, Sendo injuriados, nós bendizemos; perseguidos, suportamos, Difamados, suplicamos: nós nos tornamos como a imundície do mundo, como a escória de todas as coisas até o presente dia”. (I Cor. 4: 11-13). Agora, senhor, qualquer que seja o pensamento de outros, nós compreendemos que tal clero como esse, esforçando-se, até a morte, para tal crédito e saúde, não deva ser acusado de fraude e impostura.  

VI 

            1.  Agora você finalizou o que teria a dizer, com respeito ao seu livro. Ainda assim, eu penso que a benevolência requer de mim, acrescentar algumas poucas palavras, com respeito a alguns pontos frequentemente tocados nele, que, talvez, você não entende tão claramente.  

            Há muito, temos discutido a respeito dos cristãos, a respeito do Cristianismo, e a evidência que é, por meio disto, apoiada. Mas o que esses termos significam? Quem é cristão, de fato? Qual é o Cristianismo real, genuíno? E qual a evidência mais certa e mais acessível (se eu posso falar assim), por meio da qual eu posso saber que provém de Deus? Possa o Deus dos cristãos me capacitar a falar nesses assuntos, de uma maneira adequada à importância deles!  

Seção I 

            1. Eu gostaria de considerar, primeiro, o que é um cristão, de fato? O que este termo propriamente implica? Ele tem sido há muito abusado, eu temo, não apenas por significar nada, afinal, (e o que é muito pior do que nada) mas por ser um disfarce para a mais vil hipocrisia, para as mais grosseiras abominações e imoralidade de todo o tipo, de maneira que chegou o momento de resgatá-lo das mãos dos patifes que são uma reprovação à natureza humana, e mostrar determinadamente como é o homem, para o qual este nome, por direito, pertence.  

            2. Um cristão não pode pensar no Autor de sua existência, sem humilhar-se diante Dele, sem um profundo senso da distância entre um verme da terra e Aquele que se senta no círculo dos céus. Na presença Dele, ele mergulha no pó, reconhecendo que é menos do que nada a Seus olhos, e consciente, como as palavras podem expressar, de sua própria  insignificância, ignorância, tolice. De maneira que ele pode apenas clamar, com todo seu coração: “Oh! Deus, o que é o homem? O que eu sou?”.  

            3. Ele tem um senso continuo de sua dependência da Fonte do bem, para sua existência e todas as bênçãos que a atendem. A Ele, ele dirige todo dom natural e todo dom moral, com tudo que é comumente atribuído, tanto a prosperidade, quanto à sabedoria, coragem, ou mérito do possessor. E consequentemente, concorda, com o que quer que pareça ser a vontade Dele, não apenas com paciência, mas com gratidão. Ele prontamente entrega tudo que ele é, tudo que ele tem, à disposição sábia e graciosa Dele. O temperamento prevalente de seu coração é a mais absoluta submissão, e a mais terna gratidão ao seu soberano Benfeitor. E este grato amor cria um temor filial, uma reverência respeitável em direção a Ele, e um cuidado sincero de não dar lugar a alguma disposição, nem admite uma ação, palavra, ou pensamento, que, em algum grau, desagrade aquele poder indulgente, ao qual ele deve sua vida, respiração e todas as coisas.  

            4. E como ele tem a mais forte afeição pela Fonte de todo o bem, então, ele tem a mais firme confiança Nele – uma confiança que nem o prazer, nem a dor, nem a vida, nem a morte, podem estremecer. Mas, ainda assim, muito longe de criar ranhura ou indolência, o impulsiona para a mais vigorosa diligência. Ela faz com que ele siga, com toda sua força, na obediência Daquele em quem ele confia. De maneira que ele nunca enfraquece em sua mente, nunca se cansa de fazer o que quer que ele acredite seja a vontade Dele. E como ele sabe que a mais aceitável adoração a Deus é imitá-Lo, ele adora, assim, ele continuamente se esforça para  reproduzir em si mesmo, todas as perfeições imitáveis Dele – em especial, Sua justiça, misericórdia, e verdade, tão eminentemente manifestas em todas as Suas criaturas.   

            5. Acima de tudo, lembrando que Deus é amor, ele age de acordo com a mesma semelhança. Ele é um tolo do amor, para com seu próximo, de amor universal, não confinado a uma seita ou facção, nem restrito àqueles que concordam com ele nas opiniões, ou modos de adoração, ou com aqueles que estão ligados a ele, pelo sangue, e recomendados pela proximidade de local. Nem ele ama somente aqueles que o amam ou são estimados por ele, pela intimidade de conhecimento. Mas seu amor se assemelha ao Daquele cuja misericórdia está sobre todas as Suas obras. Isto se eleva acima de todos esses limites restritos, abraçando seu próximo e aos estrangeiros, amigos e inimigos – sim, não apenas o bom e gentil, mas também o obstinado, o ímpio e o ingrato.  Porque ele ama todas as almas que Deus criou; todo filho do homem, qualquer que seja o lugar ou nação. E, ainda assim, esta benevolência universal, de maneira alguma, interfere com seu peculiar cuidado para com suas relações, amigos, e benfeitores, um amor fervente por seu país e a mais estimada afeição por todos os homens de integridade, e de clara e generosa virtude.  

            6. Seu amor, para com esses, assim como para com toda a humanidade é, em si mesmo, generoso e desinteressado, brotando de nenhuma vantagem para consigo, da não preocupação com relação ao ganho ou louvor – não, nem mesmo pelo prazer do amor. Esta é a filha, não os pais, de sua afeição. Mas a experiência que ele tem, concernente ao amor social, se ele significa o amor ao nosso próximo, é absolutamente diferente do amor próprio, até mesmo, o do tipo mais admitido – exatamente tão diferente quanto os propósitos que ele objetiva. E, ainda assim, é certo que, se eles estão debaixo de regras justas, cada determinação acrescenta uma força adicional a outra, até que se unam para nunca mais se separarem.  

            7. Este amor universal, desinteressado, é produtor de todas as afeições corretas. É fecundo de gentileza, ternura, doçura, de humanidade, cortesia, e afabilidade. Ele faz com que um cristão se regozije com as virtudes de todos, e desempenha um papel na felicidade deles, ao mesmo tempo em que é solidário com suas dores e tem compaixão de suas enfermidades. Ele propicia a modéstia, condescendência, prudência, juntamente com a calma e uniformidade de temperamento. Ele é a origem da generosidade, sinceridade, franqueza, nulo de ciúme e suspeita. Ele produz candura, e prontidão para acreditar e esperar o que quer que seja agradável e amistoso em cada homem, e paciência invencível, nunca superando o mal, mas vencendo o mal com o bem.  

            8. O mesmo amor o constrange a conviver, não apenas com um restrito cuidado para com a verdade, mas com natural sinceridade e genuína simplicidade, como alguém em quem não existe fraude. E, não contente em abster-se de todas as tais expressões que sejam contrárias à justiça ou verdade, ele se esforça para refrear toda palavra desafetuosa, quer em direção à pessoa presente ou ausente; em todas as suas relações objetivando isto, quer para aprimorar-se no conhecimento ou na virtude, ou, de alguma maneira, tornar aqueles com quem convive, mais sábios ou melhores, ou mais felizes do que eram antes.  

            9. O mesmo amor é produtor de todas as ações corretas. Ele o conduz para uma sincera e firme execução de todos os ofícios sociais, para o que quer que seja devido às relações de todos os tipos – com relação aos seus amigos, seu país, e uma comunidade específica, de onde ele é um membro.  Ele o impede de ferir ou afligir qualquer homem. Ele o guia para uma prática uniforme da justiça e misericórdia, igualmente extensiva ao princípio de onde ela flui. Ele o constrange a fazer todo o bem possível, de todos os tipos possíveis, a todos os homens; ele se prontifica a fazer ao outro, em todas as circunstâncias da vida, o que ele desejaria que fosse feito consigo, se estivesse na mesma situação.  

            10. Como ele é afável, para com os outros, ele é afável para consigo mesmo. Ele está livre das inchações do orgulho, das chamas da ira, das tempestuosas erupções da obstinação irregular. Ele não é mais torturado com a inveja ou malícia, ou com o desejo irracional e danoso. Ele não é mais escravo dos prazeres dos sentidos, mas tem o completo poder sobre sua mente e corpo, em um contínuo curso agradável de sobriedade, de temperança e decência. Ele sabe como usar de todas as coisas em seus lugares, e, ainda assim, é superior a todas elas. Ele se situa acima desses prazeres inferiores da imaginação que aprisionam as mentes vulgares, quer surjam daquilo que os mortais denominam grandeza, novidade ou beleza. Todos esses, ele pode experimentar, e ainda assim, olhar para o alto, e aspirar aos nobres prazeres. Muito menos, é escravo da fama; murmúrios populares não o afetam; ele permanece firme e centrado em si mesmo.  

            11. E ele, que não busca o prazer, não pode temer o desprazer. A desaprovação não o deixa desconfortável, já que está consciente de que ele não pode prontamente ofender e que tem a aprovação do Senhor de todos. Ele não teme a privação, sabendo em que mãos estão a terra e tudo que existe nela, e que é impossível a Deus negar, a alguém que o teme, o que quer que seja bom. Ele não teme a dor, uma vez que ela nunca ocorrerá, a menos que seja para seu real proveito, e que, então, suas forças lhe serão propiciadas para isto, como sempre ocorreu. Ele não teme a morte; e é capaz de confiar Naquele que ama com toda sua alma, e seu corpo; sim, satisfeito por deixar o corpo corruptível no pó, até que ele seja erguido, incorruptível e imortal.  De maneira que, na honra ou vergonha, na abundância ou necessidade, no conforto ou na dor, na vida ou na morte, sempre, e em todas as coisas, ele aprendeu a estar satisfeito, a ser afável, agradecido e feliz.  

            12. E é feliz, por saber que existe um Deus, uma Causa inteligente e Senhor de todos, e que ele não é produto do acaso ou inexorável necessidade. Ele é feliz, na completa segurança que tem de que este Criador e Fim de todas as coisas é um Ser de ilimitada sabedoria, de infinito poder para executar todos os desígnios dela, e de não menos infinita bondade, no direcionar todos os poderes Dele para o proveito de todas as Suas criaturas. Mais ainda, até mesmo a consideração de Sua imutável justiça, retribuindo a todos o que lhes é devido, de Sua imaculada santidade, de Sua auto-suficiência, e aquele imenso oceano de todas as perfeições, que se centram em Deus, de eternidade em eternidade, é o contínuo acréscimo para a felicidade de um cristão. 

            13. Um acréscimo adicional é feito, no contemplar as coisas que o cercam, enquanto aquele pensamento toca calorosamente seu coração – Essas são as Tuas gloriosas obras, Pai do bem [Paraíso Perdido]; enquanto toma conhecimento das coisas invisíveis de Deus, mesmo de Seu eterno poder e sabedoria nas coisas que são vistas – os céus, a terra, os pássaros, os lírios do campo; enquanto regozija-se do cuidado constante que Ele ainda tem pela obra de Sua própria mão, ele irrompe em um êxtase de amor e louvor: “Ó, Senhor, nosso Governador, quão excelentes são Teus caminhos em toda a terra! Tu estabeleceste Tua glória acima dos céus!”. Enquanto vê o Senhor sentado em Seu trono, e governando bem todas as coisas; enquanto observa a providência geral de Deus co-estendida a toda sua criação, e examina todos os efeitos dela, nos céus e terra, como um satisfeito espectador; ele vê a sabedoria e bondade de Seu governante geral, transmitidas a cada pessoa, governando todo o universo, assim como governa uma simples pessoa, de maneira a cuidar de cada pessoa, como se ela fosse todo o universo; -- como ele exulta, quando revê os vários sinais da bondade Onipotente, na qual ele tem sobrevivido, nas diversas circunstâncias e mudanças de sua vida! Tudo que ele agora vê, foi concedido a ele, e repartido em número, peso e medida.  Com que triunfo de alma, na avaliação quer da providência geral ou particular de Deus, ele observa toda linha indicando um futuro, toda cena abrindo-se para a eternidade!  

            14. Ele está estranha e inexprimivelmente feliz, com a mais clara e completa convicção. “Este Ser todo poderoso, toda sabedoria, toda graça, este Governador de todos, me ama. Este amante de minha alma está sempre comigo, nunca se afasta, nem por um momento. E eu O amo: não existe nada no céu, mas a Ti, nada na terra que eu deseje além de Ti! E Ele me permitiu assemelhar-me a Si mesmo; Ele estampou Sua imagem em meu coração. E eu vivo junto a Ele; eu faço apenas Sua vontade; eu O glorifico com meu corpo e meu espírito. E não demorará até que eu morra junto a Ele; eu deverei morrer nos braços de Deus. E, então, adeus pecado e dor; então, apenas me restará que eu viva com Ele para sempre”.  

            15. Esta é a simples, a imagem verdadeira de um cristão. Mas não seja preconceituoso contra ele, por causa de seu nome. Esqueça suas particularidades de opinião e (o que você pensa) modos supersticiosos de adoração. Essas são circunstâncias, mas de pequena preocupação, e não fazem parte da essência de seu caráter. Cubra-as com o véu do amor, e olhe para a essência – seus temperamentos, sua santidade, sua felicidade. 

            Pode a calma razão permitir mais amabilidade, ou um caráter mais desejável? 

            Este é o seu? Fora com os nomes! Fora com as opiniões! Eu não me preocupo como você é chamado. Eu não pergunto (isto não merece um pensamento) de que opinião você é, assim você se conscientiza de que você é um homem a quem eu tenho sido (embora ligeiramente) descrito.  

            Você não sabe que deverá ser desta forma? O Governante do mundo está satisfeito que você não seja? 

            Você (pelo menos) deseja isto? Eu peço a Deus que este desejo possa penetrar o mais profundo de sua alma, e que você não tenha descanso em seu espírito, até que você seja, não apenas quase, mas um cristão completo! 

Seção II 

            1. O segundo ponto a ser considerado é: Qual o verdadeiro e genuíno Cristianismo? Que falemos dele como um princípio na alma ou como um modelo ou sistema de doutrina.  

            Cristianismo, tomado desta última forma, é aquele sistema de doutrina que descreve o caráter acima descrito, o que assegura que ele será meu (desde que eu não descanse até que eu o obtenha), e que me diz como eu devo alcançá-lo.   

            2. Primeiro: Ele descreve este caráter em todas as suas partes, e isto da maneira mais viva e efetiva. As linhas principais deste retrato são belamente traçadas em muitas passagens do Velho Testamento. Essas são empregadas no Novo, retocadas e finalizadas com toda a habilidade de Deus.  

            O mesmo temos em miniatura mais de uma vez, especialmente no 13º. Capítulo da Epístola primeira aos Coríntios e naquele discurso que Mateus registra como entregue por nosso Senhor em Sua entrada junto ao Seu ministério público.  

            3. Segundo: O Cristianismo promete que este caráter será meu, se eu não descansar até que eu o obtenha. Isto é prometido tanto no Velho, quanto no Novo Testamento. Na verdade, o Novo Testamento é, em efeito, toda a promessa; uma vez que toda a descrição dos servos de Deus mencionada nele tem a natureza de um mandamento, como conseqüência daquelas injunções gerais: “Sejam meus seguidores, como eu sou de Cristo” (I Cor. 11:1); “Sejam seguidores daqueles que, pela fé e perseverança herdarão as promessas” (Hebreus 6:12). E todo mandamento tem a força de uma promessa, na virtude daquelas promessas gerais: “Um novo coração eu darei a você; ... e eu colocarei Meu Espírito em você, e farei você caminhar em Meus estatutos, e você manterá Meus julgamentos, e os cumprirá”. (Ezequiel 36:26-7); “Esta é a aliança que eu farei, depois daqueles dias, diz o Senhor; eu colocarei Minhas leis em suas mentes, e as escreverei em seus corações” (Hebreus 8:10). Assim sendo, quando se diz: “Deverás amar ao Senhor teu Deus com todo teu coração, e com toda tua alma, e com toda tua mente” (Mateus 22:37), não é apenas uma orientação que eu deverei seguir, mas uma promessa do que Deus fará em mim; exatamente equivalente com o que está escrito: “O Senhor, teu Deus, circuncidará teu coração, e o coração de tua semente” (aludindo ao costume, então, em uso), “para amares o Senhor teu Deus, com todo teu coração, e com toda tua alma”. (Deuteronômio 30:6).   

            4. Isto, observado, rapidamente aparecerá, a toda pessoa séria que lê o Novo Testamento, que aquele cuidado, que a importância do assunto demanda, e todo ramo específico do caráter precedente estão manifestamente prometidos nele, quer explicitamente, sob a forma de uma promessa, ou virtualmente, sob aquela da descrição ou mandamento.  

            5. O Cristianismo me diz, em Terceiro Lugar, como eu posso obter a promessa --- ou seja, através da fé.  

            Mas o que é fé? Não uma opinião, não mais do que ela é uma forma de palavras; não algum número de opiniões, colocadas juntas, sejam elas sempre tão verdadeiras. A corrente de opiniões não é fé cristã, mais do que uma corrente de rosários seja santidade cristã.  

            Não é um consenso para qualquer opinião, ou qualquer número de opiniões. Um homem pode concordar com três ou vinte e três credos, ele pode concordar com todo o Velho e Novo Testamento (pelo menos, até onde ele os entende), e, ainda assim, não ter fé cristã, afinal.  

            6. A fé, através da qual a promessa é obtida, é representada pelo Cristianismo como um poder, forjado pelo Altíssimo, em um espírito imortal, habitando uma casa de barro, para que ele possa ver, através daquele véu, dentro do mundo dos espíritos, dentro das coisas invisíveis e eternas; um poder para discernir aquelas coisas que com os olhos da carne e sangue, nenhum homem viu ou poderá ver, em razão da natureza delas, que (embora nos cerquem de todos os lados) não é perceptível por aqueles sentidos grosseiros, ou em razão de sua distância, já que está ainda muito longe no seio da eternidade.  

            Crer (no sentido cristão) é, então, caminhar na luz da eternidade, e ter um claro sinal e confiança no Altíssimo, reconciliado comigo, através do Filho de Seu amor.  

            8. Agora, quão sublime tal fé, fosse apenas vista sobre seu próprio relato! Quão pouco, o mais sábio dos homens conhece de alguma coisa mais do que ele pode ver com seus olhos! Quantas nuvens e escuridão cobrem todo o cenário das coisas invisíveis e eternas! O que ele conhece, mesmo de si mesmo, quanto à sua parte invisível?  O que, de seu modo futuro de existência? Quão melancólico relato, o filósofo curioso e culto (talvez, o mais sábio e melhor de todos os pagãos), o grande, o venerável Marco Antonio, fornece dessas coisas! Qual foi o resultado de todas as suas buscas sérias, de suas contemplações sublimes e profundas? “Tanto a dissipação da alma, assim como do corpo, na massa comum, irracional; ou a re-absorção no fogo universal, a fonte ignorante de todas as coisas; ou alguma maneira desconhecida da existência consciente, depois que o corpo sucumbe para não mais se levantar!”. Um desses três, ele supôs deve suceder a morte; mas o que ele não tinha luz para determinar. Pobre Antonio! Com toda sua riqueza, sua honra, seu poder; com toda sua sabedoria e filosofia, - 

             Quais pontos do conhecimento ele ganhou?

            Aquela vida é toda sagrada – e vã:

            Sagrada, quão sublime, e vã, quão miserável

            Ele não poderia dizer, mas morreu para saber”  [Epitáfio de Gambold: onde na linha 2 está: “era”, não, “é”; e na linha 4, “Ele não sabia aqui, mas morreu para saber”]. 

            9. “Ele morreu para saber!”. E, assim, você deve, exceto se você é agora um parceiro da fé cristã. Ó, considere isto!  Mais ainda, considere, não apenas quão pouco você sabe da imensidão das coisas que estão além dos sentidos e tempo, mas quão incertamente você conhece, até mesmo deste pouco! Quão fracamente brilhante é a luz que você tem! Pode se dizer propriamente que você conhece alguma dessas coisas? Será este conhecimento algo mais do que mera conjectura? E a razão é simples: Você não tem sentidos adequados aos objetos invisíveis e eternos. Quão necessários, então, especialmente ao racional, a parte refletiva da humanidade, são esses – para um conhecimento mais extensivo das coisas invisíveis e eternas, uma maior certeza em qualquer que seja o conhecimento delas que tivermos, e (com finalidade de ambos) para a capacidade de discernir as coisas invisíveis! 

            10. Não é desta forma? Que a razão imparcial fale. Todo homem pensante não deseja uma janela, não tanto no peito de seu vizinho, como em seu próprio peito? Ele deseja uma abertura lá, de qualquer tipo, que possa conduzi-lo na luz da eternidade. Ele está atormentado, porque este sentimento em busca de Deus é tão obscuro, tão incerto; por saber tão pouco de Deus, e mesmo tão pouco de algo além dos objetos materiais. Ele está preocupado que ele deva ver mesmo aquele pouco, não diretamente, mas em um espelho dos sentidos, turvo, manchado; e, consequentemente, tão imperfeita e obscuramente daquilo que é tudo mero enigma ainda.   

            11. Agora, a própria fé supre o que é necessário. Ela fornece um conhecimento mais extensivo das coisas invisíveis, mostrando o que os olhos não tinham visto, nem os ouvidos, ouvido, nem poderiam, antes de entrar em nosso coração, conceber. E todos esses, ela mostra em uma luz mais clara, com a mais completa certeza e evidência. Porque não nos deixa receber nossas notificações deles, pela mera reflexão de um espelho pouco transparente dos sentidos; mas soluciona milhares de enigmas, da mais alta preocupação, fornecendo faculdades adequadas às coisas invisíveis. Oh! Quem não desejaria receber tal fé, fosse ela apenas por esses relatos! Quanto mais, se, através disto, eu posso receber a promessa, para que eu possa alcançar toda aquela santidade e felicidade! 

            12. Assim, o Cristianismo me diz; e assim, eu o encontro, possa todo cristão verdadeiro dizer. Eu agora estou seguro de que essas coisas são assim: eu as experimento em meu próprio peito. O que o Cristianismo prometeu (considerado como uma doutrina) é finalizado em minha alma. E o Cristianismo, considerado como um princípio interior, é a conclusão de todas essas promessas. Ele é santidade e felicidade, a imagem de Deus, impressa em um espírito criado, uma fonte de paz e amor, brotando na vida eterna.  

Seção III 

            1. E isto eu concebo ser a mais forte evidência da verdade do Cristianismo. Eu não subestimo a evidência tradicional. Que ela tenha seu lugar e sua devida honra. É altamente útil em seu tipo e em seu grau. E, ainda assim, eu não posso colocá-la no mesmo nível desta.  

            Geralmente se supõe que a evidência tradicional seja enfraquecida pelo tempo, quando necessariamente deva passar por muitas mãos, em uma sucessão contínua de eras. Mas nenhum decurso de tempo pode provavelmente afetar a força desta evidência interna. É igualmente forte, igualmente nova, embora o curso de mil e setecentos anos. Ela é transmitida agora, como foi no início, diretamente de Deus, para a alma do crente. Você acredita que o tempo alguma vez secará esta correnteza? Oh, não! Ela nunca será interrompida: 

      Labitur et labetur in omne volubilis aevum. [Horace's Epistles, I. ii. 43: “Ela flui e fluirá para sempre”'] 

2. A evidência tradicional é de uma natureza extremamente complicada, necessariamente incluindo tantas e tão várias considerações, que apenas homens de um forte e claro entendimento podem estar conscientes de sua força total. Do contrário, quão claro e simples é isto! E quão inabalável para a mais medíocre capacidade! Não é esta a conclusão – “Uma coisa eu sei; eu estive cego, mas agora vejo!”. Um argumento tão claro, que um lavrador, mulher ou criança podem sentir toda sua força? 

3. A evidência tradicional do Cristianismo se situa, por assim dizer, bem fora do caminho; e, portanto, embora fale alto e claro, ainda causa uma impressão menos vívida. Ela nos dá um relato do que foi traduzido há muito, em tempos e lugares muito distantes. Visto que a evidência interior está intimamente presente a todas as pessoas, em todos os tempos e em todos os lugares. ‘Está em ti, em tua boca, e em teu coração, se tu creres no Senhor Jesus Cristo’; “Este”, então, “é o registro”, esta é a evidência, enfaticamente assim chamada, “de que Deus nos deu vida eterna; e esta vida está em Seu Filho”.  

4. Se, então, fosse possível (o que eu compreendo que não é) estremecer a evidência tradicional do Cristianismo, ainda aquele que tem uma evidência interna (e todo crente verdadeiro tem o testemunho ou evidência em si mesmo) permaneceria firme e inabalável. Ainda ele diria para aqueles que foram golpeados pela evidência externa: “Fira Anaxágoras”.  [Anaxágoras (500-456 a.C), o mais ilustre dos filósofos Iônicos; teve Eurípides, Péricles, e possivelmente Sócrates, em sua escola filosófica em Atenas. Ele acreditou que todos os corpos eram compostos de átomos, moldados através do nous, ou mente. Ele foi condenado por impiedade, e apenas se salvou da morte, pela influência e eloqüência de Péricles]. Mas você não pode mais ferir minha evidência de Cristianismo do que o tirano poderia ferir o espírito daquele homem sábio.  

5. Algumas vezes, quase me sinto inclinado a acreditar que a sabedoria de Deus tem permitido, nas últimas eras, que a evidência externa do Cristianismo seja mais ou menos obstruída e dificultada para esta mesma finalidade, a de que os homens (da reflexão especialmente) não repousem nisto, mas sejam constrangidos a olharem dentro de si mesmos também, e a atenderem à luz brilhando em seus corações.  

Mais do que isto, ele parece (se nos fosse permitido inquirir as razões das dispensações divinas) que, especialmente nesta época, Deus permitiu que todo tipo de objeções fosse erguida contra a evidência tradicional do Cristianismo, que os homens de entendimento, embora não desejosos de desistirem dele, ainda assim, ao mesmo tempo, defendiam esta evidência, não pudessem descansar toda a força da causa deles nisto, mas buscar um suporte mais profundo e firme para ele. 

6. Sem isto, eu não posso deixar de duvidar, quer possam manter a causa deles por muito tempo; quer, se eles não obedecerem ao alto chamado de Deus, e colocarem muito mais ênfase do que fizeram até aqui nesta evidência interna do Cristianismo, que eles, um após o outro, não desistirão da evidência externa, e (no coração, pelo menos) ganharão a aceitação daqueles com os quais contendem; de maneira que, em um século ou dois, o povo da Inglaterra estará fielmente dividido em verdadeiros deístas e reais cristãos.  

E eu compreendo que isto não seria perda, afinal, mas, antes, uma vantagem para a causa cristã; mais ainda, talvez, fosse a maneira mais rápida, sim, a única maneira efetiva de trazer todos os deístas razoáveis para se tornarem cristãos.  

7. Posso me permitir falar livremente? Posso eu, sem ofensa, perguntar a vocês, chamados cristãos, qual perda real vocês sofreriam ao desistirem de sua atual opinião, de que o sistema cristão é de Deus? Embora vocês carreguem o nome, vocês não são cristãos; vocês não têm nem a fé, nem o amor cristão. Vocês não têm a divina evidência das coisas invisíveis; vocês não entraram no mais santo, através do sangue de Jesus. Vocês não amaram a Deus com todo seu coração; nem a seu próximo como a si mesmo. Vocês não são felizes, nem santos. Vocês não aprenderam, em qualquer condição, a estarem contentes; a se regozijarem sempre mais, mesmo na necessidade, dor, morte; e em todas as coisas darem graças. Vocês não são santos no coração; superiores ao orgulho, a ira, aos desejos tolos. Nem vocês são santos na vida; vocês não caminham como Cristo também caminhou. A maioria de seu Cristianismo não se situa em sua opinião, adornado com algumas poucas observâncias exteriores? Porque quanto à moralidade, até mesmo a moralidade honesta, pagã (Ó, deixe-me afirmar uma melancólica verdade!), muitos daqueles a quem vocês denominam deístas, existem razões para temer, têm muito mais dele do que vocês.  

8. Sigam em frente, cavalheiros, e prosperem. Envergonhem esses cristãos nominais, por esta pobre superstição a qual eles chamam de Cristianismo. Justifiquem, zombem, riam deles, por causa de suas formas mortas, vazias, nulas de espírito! De fé, de amor. Convençam-nos de que tal desprezível esplendor (porque tal manifestadamente é, se existe nada no coração correspondente com a mostra exterior) é absolutamente sem valor, vocês não precisam falar a Deus, mas a algum homem que seja dotado de entendimento comum. Mostrem a eles que enquanto se esforçam para agradar a Deus assim, eles estão apenas golpeando o ar. Conheçam seu tempo; pressionem; impulsionem suas vitórias, até que vocês tenham conquistado todos que não conhecem a Deus. E. então, Ele, a quem nem eles nem vocês conhecem agora, erga-se e envolva-se com força e prossiga em Seu amor onipotente, e docemente conquiste vocês todos.  

9. Oh! Se chegasse o tempo! Há quanto tempo, eu espero que vocês sejam parceiros das excessivamente grandes e preciosas promessas! Quanto eu me afligi, ao ouvir algum de vocês usar daqueles termos tolos que os homens da forma têm lhes ensinado, chamando a menção da única coisa que vocês desejam, “jargão”! A mais profunda sabedoria, a mais sublime felicidade de “fanatismo”. Que ignorância é isto! Quão extremamente desprezível ele os tornariam aos olhos de qualquer um, a não ser de um cristão! Mas não pode decepcioná-lo, aquele que o ama como sua própria alma, que está pronto a dar sua vida por sua causa.  

10. Talvez, você diga “Mas esta evidência interna do Cristianismo afeta apenas aqueles nos quais a promessa é cumprida. Ela não é evidência para mim”. Existe verdade nesta objeção. Ele afeta a eles, principalmente, mas não afeta apenas a eles. Ele não pode, na natureza das coisas, ser tão forte evidência a outros como é para eles. Mas, ainda assim, pode trazer um grau de evidência, pode refletir alguma luz sobre você também.  

            Porque (1) Você vê a beleza e amabilidade do Cristianismo, quando ele é corretamente entendido, e você tem certeza de que não existe coisa alguma a ser desejada em comparação a ele.  

            (2) Você sabe que as Escrituras prometem isto, e diz que isto é obtido pela fé, e por nenhum outro modo. 

            (3) Você vê claramente quão desejável é a fé cristã, até mesmo sobre o relato de seu próprio valor intrínseco.  

            (4) Você é testemunha de que a santidade e felicidade acima descritas podem ser obtidas de outra forma. Quanto mais você se esforça em busca da virtude e felicidade, mais convencido você fica disto. Até ai, você não precisa apoiar-se em outros homens; até ai, você tem a experiência pessoal.  

            (5) Que razoável segurança você pode ter das coisas em que você não tem experiência pessoal? Suponha que a questão existisse, pode o cego ser restaurado na visão? Isto você não experimentou em si mesmo. Como, então, você saberá que tal coisa sempre existiu? Pode existir uma maneira mais fácil e certa do que falar com alguém ou algum número de homens que era cego, mas agora está restaurado para a visão? Eles não podem estar enganados quanto ao fato em questão; a natureza da coisa não deixa dúvida para isto. E, se eles eram homens honestos (o que você pode saber de outras circunstâncias), eles não o enganarão.  

            Agora, transfira isto para a causa diante de nós: e aqueles que eram cegos, mas agora vêem – aqueles que estavam doentes, por muitos anos, mas agora estão curados – aqueles que eram miseráveis, mas agora estão felizes – propiciarão a você também, uma forte evidência da verdade do Cristianismo, tão forte quanto pode ser na natureza das coisas, até que você experimente em sua própria alma; e isto, embora se admita que fossem apenas homens simples, e, em geral de fraco entendimento – e mais, embora alguns deles se equivocassem em outros pontos, e mantivessem opiniões que não podem ser defendidas.  

            11. Tudo isto podemos admitir, com respeito aos Patriarcas primitivos; eu me refiro, especificamente Clemente Romano, Ignácio, Policarpo, Justino Mártir, Irenaeus, Orígenes, Clemente Alexandrino, Cipriano; aos quais eu acrescentaria Macário e Efraim Sirus.  

            Eu admito que alguns desses não tinham uma compreensão natural forte, que poucos tinham muito aprendizado, e nenhum as assistências que nossa época desfruta, em alguns aspectos, acima de todos que vieram antes.  

            Consequentemente, eu não duvido que quem quer que se esforce para ler os escritos deles para esta pobre finalidade, encontrará muitos equívocos, muitas suposições fracas e muitos conclusões mal traçadas.  

            12. Mas, ainda assim, eu reverencio excessivamente a eles, assim como seus escritos, e os considero altamente no amor. Eu os reverencio, porque eles eram cristãos, tais cristãos como estão acima descritos. E eu reverencio seus escritos, porque eles descreveram o verdadeiro, genuíno Cristianismo, e nos direcionaram para a mais forte evidência da doutrina cristã.  

            De fato, ao discursar aos pagãos daqueles tempos, eles misturaram outros argumentos; especialmente, aqueles traçados dos numerosos milagres que eram, então, executados na Igreja, para os quais eles necessitavam apenas abrir os olhos, e verem diariamente forjados na face do sol.  

            Mas eles não desistiram disto ainda: “O que as Escrituras prometem, eu desfruto. Venham e vejam o que o Cristianismo tem feito aqui, e reconheçam que ele é de Deus”. 

            Eu reverencio esses cristãos primitivos (com todas as suas falhas), e mais, porque eu vejo tão poucos cristãos agora; porque eu leio tão pouco dos escritos dos últimos tempos, e ouço tão pouco do Cristianismo genuíno; e porque a maioria dos modernos cristãos (assim chamados), não contente de ser totalmente ignorante dele, é profundamente preconceituosa contra ele, chamando-o de “fanatismo” e não sei o que.  

Que o Deus do poder e amor possa tornar ambos, e você e eu, tais cristãos como aqueles Patriarcas foram, é a oração sincera, reverendo senhor, de 

Seu verdadeiro amigo e servo 

24 de Janeiro de 1749 

J.Wesley

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Tradução: Izilda Bella