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Dr. Conyers Middleton
Londres, 4 de
Janeiro, 1749
Reverendo Senhor,
1. Em sua última inquisição, você se esforçou para provar
(1) que não existiram milagres forjados na igreja primitiva;
(2) que todos os anciãos eram tolos ou patifes, e a maioria
deles, tanto uma coisa quanto outra: e é fácil observar que todo o
teor de seu argumento tende a provar (3) que não existiram
milagres forjados por Cristo ou Seus Apóstolos; e (4) que
esses também eram tolos ou patifes, ou ambos.
2. Eu não estou de acordo com você em algum desses tópicos.
Minhas razões eu devo colocar diante de você, de uma maneira tão
livre, embora não em uma linguagem tão polida ou elaborada, como
você colocou as suas diante do mundo.
3. Mas eu nem tenho inclinação, nem tempo livre para
segui-lo, passo a passo, através de trezentas e setenta e três
páginas de livro. Portanto, deixarei de lado, tudo que eu
considerar, em sua obra, que não toca os méritos da causa, e,
igualmente, contradiz a própria questão, aos primeiros três séculos;
porque eu não tenho mais a fazer com os escritores ou milagres do
quarto, do que com aqueles do século quatorze.
4. Você naturalmente pergunta: “Por que você parou lá? Que
motivo você pode dar para isto? Se você permite milagres, antes do
Império tornar-se cristão, por que não, depois, também?”. Eu
repondo: Porque “depois do Império tornar-se cristão” (essas
são suas próprias palavras), “uma corrupção geral, tanto da fé e
moral, infectou a Igreja Cristã; e por causa desta revolução, como
diz Jerônimo, ‘perdeu-se tanto da sua virtude quanto se ganhou em
prosperidade e poder’”. E este mesmo motivo, deu Crisóstomo nas
palavras que você citou mais tarde: ‘Alguns perguntam, por que
não se executou milagres ainda. Por que não existem pessoas que se
ergueram dos mortos, ou curas de enfermidades?’ Para o que ele
responde que é devido à falta de fé, virtude e devoção naqueles
tempos.
1. Você inicia seu Prefácio, observando que se pretendeu
publicar a Inquirição, algum tempo atrás; mas, depois de refletir,
você resolveu “soltar primeiro alguns esboços que você projetara”,
e, assim, “publicou o Discurso Introdutório”, embora
“prevendo que ele encontraria toda a oposição que o preconceito,
idolatria, e superstição, prepararam para todas as inquirições”
desta natureza. Mas para seu “conforto, isto excitaria
inquiridores sinceros a pesar o mérito e as conseqüências dele”.
2. As conseqüências dele são toleravelmente claras, até
mesmo, para livrar as boas pessoas da Inglaterra de todo o
preconceito, idolatria, e superstição, vulgarmente chamada de
Cristianismo. Mas não está tão claro que “este seja o único
expediente que pode assegurar a religião Protestante contra os
esforços de Roma”. Pode-se duvidar, se o Deísmo é o único
expediente para nos assegurar contra o Papismo; porque alguns são da
opinião que existem pessoas no mundo que não são Deístas, nem
Papistas.
3. Você expõe a causa, ardilosamente, o suficiente, através
de uma citação do Sr. Locke. Mas concordamos em construir nossa fé
na autoridade de homem nenhum. Suas razões serão consideradas em
seus lugares.
“Aqueles que escreveram contra a opinião dele e de vocês”,
você diz, “mostraram grande avidez, mas pouco conhecimento da
questão; persuadidos pelas esperanças de honra, e preparados para
lutar por cada estabelecimento que ofereça tal pagamento aos seus
defensores”. Eu não li um desses; ainda assim, de bom grado eu
acredito que nem a esperança de honra, nem o desejo de pagar foram o
único, ou de fato, o principal motivo que os estimulou ou a você a
comprometerem-se a escrever.
Mas eu admito que eles sejam examinados, se argumentam contra você,
por citar “os testemunhos dos antigos Sacerdotes”, uma vez
que facilmente perceberiam que você não presta atenção a esses, mais
do que aos Evangelistas ou Apóstolos. Nem eu os aprovo, se
“insinuam suspeita de conseqüências perigosas ao Cristianismo”.
Por que eles insinuariam esses, eu não posso conceber: eu não
necessito insinuar que o sol brilha ao meio-dia. Você tem
“mostrado tão grande esplendor ao público” para deixar algum
espaço para tal insinuação. Embora, para salvar as aparências, você
gravemente declare ainda: “Fosse permitido ao meu argumento ser
verdadeiro, o crédito dos milagres bíblicos não poderiam, em grau
algum, serem estremecidos por ele”.
4. Até ai, é ostentação. Agora vamos ao ponto. “A presente
questão”, você diz, “depende da credibilidade dos fatos e das
testemunhas que os atestam, especialmente”, sobre o primeiro.
Porque, “se os fatos forem inacreditáveis, nenhum testemunho pode
alterar a natureza das coisas”. Tudo isto é muito verdadeiro.
Você prossegue: “A credibilidade dos fatos se coloca aberta à
prova de nossa razão e sentidos. Mas a credibilidade das testemunhas
depende da diversidade dos princípios totalmente ocultos de nós. E,
embora em muitos casos possa razoavelmente ser presumido, ainda
assim, em nenhum pode ser certamente conhecido”. Senhor, você se
retratará ou manterá o que disse? Se você defende, e pode provar,
assim como afirmar isto, então, adeus ao crédito de toda a história,
não apenas sagrada, mas profana. Se “a credibilidade das
testemunhas” (de todas as testemunhas, porque você não faz
distinção) depende, como você autoritariamente afirma, “de uma
variedade de princípios totalmente ocultos de nós”; e,
consequentemente, “embora possa ser presumido em muitos casos,
ainda assim, pode ser certamente conhecido em nenhum” – então,
está claro que toda a história da Bíblia é extremamente precária e
incerta; então, eu posso, de fato, presumir, mas não posso
certamente saber, que Jesus de Nazaré, alguma vez nasceu, e muito
menos que ele curou o doente e ressuscitou quer Lázaro ou a Si
mesmo. Agora, senhor, prossiga e declare novamente, quão preocupado
você está pelo “crédito dos milagres evangélicos!”.
5. Mas, por temer que alguém – considerando quão “franca e
aberta” sua natureza é, e quão “calorosamente disposto a
falar o que você toma como verdade” – fosse julgar o que você
quis dizer nesta declaração, você cuida de informá-los, logo depois:
“O todo que a sabedoria do homem pode possivelmente descobrir,
tanto dos caminhos, ou vontade do Criador, deve ser adquirido por
atender seriamente” -- ao que? À revelação Judaica, ou Cristã?
Não; mas “a esta revelação que Ele fez de Si mesmo, desde o
princípio na bela construção deste mundo visível”.
6. Eu acredito que seus oponentes não argumentarão, daqui em
diante, quer com aquela passagem de Marcos, ou alguma outra das
Escrituras – pelo menos, eu não irei, exceto se eu me esquecer; como
eu observo você fez exatamente agora. Porque você disse, neste
momento: “Antes que prossigamos na verificação dos testemunhos,
na decisão desta contenda, nosso primeiro cuidado deveria ser nos
informarmos da natureza daqueles poderes milagrosos que são o objeto
dela, uma vez que eles são apresentados a nós, na história do
Evangelho”. Muito verdadeiro; “este seria nosso primeiro
cuidado”. Eu, portanto, prestarei toda a atenção para ouvir seu
relato “da natureza daqueles poderes, como eles são apresentados
a nós no Evangelho”. Mas, ai de mim! Você não diz uma palavra a
mais a respeito disto; mas escorrega para aqueles “zelosos
defensores que pretenderam” (homens como eram) “refutar o
Discurso Introdutório”.
Talvez você diga: “Sim, eu repito aquele texto de Marcos”.
Você o faz; ainda assim, não descreve a natureza daqueles poderes,
apenas dá oportunidade para “um de seus antagonistas”; de
quem você mesmo afirma que “nenhum deles parece ter gasto um
pensamento em considerar aqueles poderes como eles são representados
no Novo Testamento”. Consequentemente, o mero repetir daquele
texto não prova que você (não mais do que eles) “gastou algum
pensamento sobre o assunto”.
7. Deste antagonista, você perambula para outro; depois de
uma longa citação de quem, você anexa: “De acordo, então, que na
promessa original não existe insinuação de algum período específico
para o qual a continuidade deles fosse limitada”. Senhor, você
se perdeu. Ainda temos nada a ver com a continuidade deles.
“Porque, até que tenhamos aprendido daqueles registros sagrados”
(eu uso suas próprias palavras), “o que eles eram e a maneira que
foram exercidos pelos Apóstolos, não podemos formar um julgamento
apropriado dessas evidências que são trazidas, tanto para confirmar,
quanto refutar a continuidade deles na Igreja; e deve
conseqüentemente contestar ao acaso, quando a oportunidade ou
preconceito possa nos induzir a respeito de coisas que nos são
desconhecidas”.
Agora, senhor, se isto for verdade (como, sem dúvida, é), então,
segue-se necessariamente que – desde o início de seu livro até o
fim, você não gasta uma página para informar-se, ou aos seus
leitores, com respeito à natureza desses poderes miraculosos,
“como eles nos são representados na história do Evangelho” --
você discute, através do todo, “ao acaso, quando a oportunidade
ou preconceito o induz, a respeito de coisas que lhe são
desconhecidas”.
8. Você
responde “aos adversários de seu método”. Eu posso deixar
apenas para o presente; e o preferível, porque os argumentos usados
nele ocorrerão repetidas vezes. Apenas aqui eu tomo conhecimento de
uma afirmação – “que os poderes milagrosos conferidos aos
próprios Apóstolos eram concedidos apenas no momento da aplicação
deles, e introvertido novamente tão logo aquelas ocasiões
específicas eram servidas”. Você não deveria afirmar isto, seja
verdadeiro ou falso, sem uma prova mais convincente. “Isto, eu
digo, é evidente”, não é prova suficiente; nem, “um tratado é
preparado sobre aquele assunto”. Nem provado por aquele
comentário de Grotius sobre a promessa do Senhor, ['Non omnibus
omnia-ita tamen cuilibet credenti tunc data sit admirabilis
facultas, quae se, non semper quidem, sed data occasione explicaret'
(Grotius in Marcum xvi. 17)] que, literalmente traduzido, segue
assim: “A todo crente havia, então, algum poder maravilhoso, que
era exercido, não, de fato, sempre, mas quando havia oportunidade”.
9. Mas, deixando isto de lado, eu concordo que “o ponto
simples na disputa é, se o testemunho dos Sacerdotes é alicerce
suficiente para acreditar que os dons milagrosos subsistiram,
afinal, depois dos dias dos Apóstolos”. Mas com isto você
mistura outra questão – se os Sacerdotes não eram todos tolos ou
patifes: uma vez que você fortemente insinua: (1) que tais
dons nunca subsistiram, e (2) que os Apóstolos eram
igualmente sábios e bons com os “encantadores” (seu termo
favorito) que os seguiam.
Quando,
portanto, você acrescenta, “minha opinião é – que, depois da
ascensão do Senhor, os dons extraordinários que Ele prometeu foram
derramados sobre os Apóstolos, e os outros instrumentos primários do
estabelecimento do evangelho, com a finalidade de capacitá-los a
vencerem os preconceitos inveterados, ambos dos judeus e gentios, e
testemunharem contra os ataques de ira e perseguição popular” --
eu penso que isto é mera caricatura. Você não acredita em uma
palavra do que diz; você não pode, se você acredita no que disse
antes: porque, quem pode acreditar em ambos os lados de uma
contradição?
10. De qualquer forma, eu suponho que você acredite nisto, e
argumentarei com você, a partir de suas próprias palavras. Primeiro,
nos permita um pouco mais delas: “No decurso do tempo, já que os
poderes milagrosos começaram a ser cada vez menos necessários,
então, eles começaram gradualmente a declinar, até que finalmente se
retraíram”; “e provavelmente podemos pensar que isto ocorreu,
enquanto alguns Apóstolos ainda viviam”.
Esses foram dados, você diz, para os primeiros plantadores do
evangelho, “com o objetivo de capacitá-los a vencerem os
preconceitos inveterados, ambos dos judeus e gentios, e
testemunharem contra os golpes de perseguição”. Até ai,
concordamos. Eles foram dados para essas finalidades. Mas, se você
admite isto, você não pode supor, consistentemente consigo mesmo,
que eles se retraíram até que essas finalidades foram completamente
cumpridas. Logo, portanto, uma vez que aqueles preconceitos
subsistiram, e os cristãos foram expostos aos ataques de
perseguição, você não pode negar que existiram as mesmas
oportunidades para que aqueles poderes continuassem, como aconteceu
a princípio. E isto, você diz, é “um postulatum, a que todas as
pessoas concordarão, a de que eles continuaram, por quanto tempo
foram necessários à Igreja”.
11.
Agora, aqueles preconceitos cessaram ou foi a perseguição,
enquanto alguns dos Apóstolos ainda viviam? Você mesmo mostrou
abundantemente que não cessaram. Você sabe que existiu tão dura
perseguição no século três, quando aconteceu no século primeiro,
enquanto todos os Apóstolos estavam vivos. E com respeito aos
preconceitos, você habilmente observou que “os principais
escritores de Roma, que fazem alguma menção aos cristãos, a respeito
do tempo de Trajano, falam deles como uma seita de desprezíveis,
obstinados, e, até mesmos fanáticos miseráveis”; que
“Suetonius os chama de ‘uma raça de homens de uma nova e perniciosa
superstição’”; e que Tácito, descrevendo as horríveis torturas
que sofreram, sob o governo de Nero, diz: “Eles foram detestados
por suas práticas infames; possuídos de uma superstição abominável;
e condenados, não tanto pelo seu suposto crime de incendiar a
cidade, quanto pelo ódio de toda a humanidade”.
E “a condição deles”, você diz, “continuou a mesma, até
que eles foram instituídos pelo poder civil. Durante todo aquele
tempo que foram constantemente insultados e caluniados por seus
adversários pagãos, como uma seita estúpida, crédula, ímpia, a
própria escória da humanidade”. Em uma palavra, ambos com
respeito ao preconceito e perseguição, eu li nas suas paginas
seguintes:
“Os
magistrados ateus não se dariam ao trabalho de fazerem a menor
inquirição nas maneiras ou doutrinas deles, mas os condenaram pelo
mero nome, sem exame, ou prova; tratando os cristãos, é claro, como
culpados de todo o crime, como inimigos dos deuses, imperadores,
leis e da própria natureza”.
12. Se, portanto, a finalidade daqueles poderes milagrosos
foi “vencer os preconceitos inveterados, e capacitar os cristãos
a testemunharem contra os ataques de perseguição”, como você
pode possivelmente conceber que aqueles poderes cessariam, enquanto
alguns dos Apóstolos viviam? Com que nuança você pode afirmar que
eles eram menos necessários para aquelas finalidades, no segundo e
terceiro século, do que na era apostólica? Com que sombra de razão,
você pode manter que (se eles sempre subsistiram, afinal) eles se
retraíram finalmente, antes que o Cristianismo fosse estabelecido
pelo poder civil? Então, de fato, essas finalidades declaradamente
cessaram, a perseguição chegou ao fim, e os preconceitos
inveterados, de tanto tempo, foram, em grande medida, arrancados –
outra razão clara, porque os poderes que deveriam equilibrar esses
deveriam permanecer na Igreja, por aquele tempo, e não
mais.
13. Você continua a nos informar, com as excelências de seu
desempenho. “O leitor”, você diz, “encontrará nesses
papéis, nenhuma daquelas artimanhas que são comumente empregadas
pelos contendores para desorientar uma boa causa, ou mitigar uma má;
nenhum requinte tênue, construções forçadas, ou distinções evasivas;
mas o claro raciocínio, alicerçado nos fatos óbvios, e publicados
com uma visão honesta e desinteressada, com o objetivo de livrar as
mentes de uma impostura inveterada. Eu mostrei que os antigos
Sacerdotes, que impuseram aquela ilusão, foram extremamente crédulos
e supersticiosos, possuidores de fortes preconceitos, e não
hesitantes na arte ou meios, pelos quais, eles propagariam o mesmo”.
Certamente, senhor, você acrescenta a última parte deste parágrafo
de propósito para confundir o anterior; porque exatamente aqui você
usa uma das artimanhas mais desonestas que a maioria dos contendores
desonestos pode empregar, no esforço de evitar o julgamento do
leitor, e lesá-lo contra aqueles homens sobre os quais ele não
deveria passar qualquer sentença, antes que ele ouvisse a evidência.
1. No início de seu Discurso Introdutório, você declara as
razões que o moveram a publicá-lo. Uma dessas, você diz, foi o
recente aumento do Papismo, neste reino; principalmente ocasionado,
como você supõe, pelas afirmações presunçosas dos emissários
Papistas de que houve uma sucessão de milagres em suas Igrejas desde
a era apostólica, até a presente. Para prevenir esta contestação,
você “estabeleceria algumas regras, para discernir o verdadeiro
do falso, de maneira a dar uma razão para admitir os milagres de uma
época, e rejeitar aqueles de outra”.
2. Isto soa
agradável, e é extremamente bem arquitetado, para predispor um
leitor Protestante a seu favor. Você, então, desliza com grande
artimanha em seu assunto: “Esta reivindicação de poder milagroso,
agora peculiar para a Igreja de Roma, foi afirmada em todas as
regiões cristãs, até a Reforma”. Mas, então, “a fraude foi
detectada” – mais do que isto, os homens começaram a
“suspeitar que a Igreja, há muito, havia sido governada pelas mesmas
artimanhas”. “Porque foi fácil localizá-las na Igreja primitiva, mas
não fixar o tempo em que a fraude começou; mostrar por quanto tempo
depois dos dias dos Apóstolos, os dons milagrosos continuaram na
Igreja”. No entanto, crê-se comumente que eles continuaram até
que o Cristianismo foi estabelecido como religião. Alguns, de fato,
os estendem até o quarto e quinto séculos; mas esses, você diz,
traem a causa Protestante. “Porque no terceiro, quatro e quinto,
as principais corrupções do Papismo foram introduzidas, ou, pelo
menos, as sementes delas plantadas. Por esses eu quero dizer
comportamento; adoração às relíquias; invocação dos santos; orações
pelos mortos; o uso supersticioso de imagens, de sacramentos, o
sinal da cruz, e o óleo consagrado”.
3. Eu nada tenho a ver com o quarto ou quinto século. Mas o
que você alega em apoio a esta acusação, até onde ela se refere ao
terceiro século, eu tenho algumas coisas a responder.
Primeiro, você não citou uma linha de qualquer Ancião no terceiro
século, em favor da prática monástica, a adoração às relíquias, a
invocação dos santos, ou o uso supersticioso quer de imagens ou óleo
consagrado. Como é isto, senhor? Você trouxe oito acusações, de uma
vez, contra os Anciãos do terceiro, assim como dos séculos
seguintes; e quanto aos do quinto e oitavo, quando lhe é requerido a
prova, você tem nada a dizer! Quanto ao sexto, você diz: “No
sacramento da eucaristia, diversos abusos foram introduzidos”.
Você exemplifica, primeiro, o misturar o vinho com a água. Mas, como
aparece que este seria algum abuso, afinal? Ou que “Irenaeus
declarou que isto tem sido ensinado, assim como praticado por nosso
Salvador?”. As palavras que você citou para provar não provam,
afinal; elas simplesmente relatam a matéria do fato – “Tomar o
pão, Ele confessou ser este Seu corpo; e o cálice misturado, Ele
afirmou que era Seu sangue”. Você não pode ser ignorante deste
fato – de que o cálice usado depois da ceia pascal sempre foi
misturado com água. Mas “Cipriano declarou que este mistura fora
prescrita para si mesmo, pela revelação divina”. Se ele o fez,
isto não prova que seja um abuso; de maneira que você está distante
do ponto em questão ainda.
Você
exemplifica a seguir que o enviar o pão ao doente; (assim como a
mistura) é mencionado por Justino Mártir. Com este fato igualmente
concordamos; mas você não provou que este seja um abuso. Eu concordo
que, há aproximadamente cem anos, alguns começaram a ter um cuidado
supersticioso com este pão. E que “nos dias de Tertuliano, foi
levado para casa e trancado como um tesouro divino”. Eu peço que
prove; tanto quanto que a comunhão infantil foi um abuso, ou o
chamar isto de “o sacrifício do corpo de Cristo”. Eu acredito
que o oferecê-lo aos mártires foi um abuso; e que este, juntamente o
uso supersticioso do sinal da cruz, existiram, se não nos
primórdios, afinal, ainda assim, tão logo quanto algum que se moveu
para dentro da Igreja Cristã.
4.
É certo que “orar para o morto era comum no segundo século”.
Você poderia dizer: “E no primeiro, também”; vendo que a
petição, “Teu reino vem”; declaradamente se refere aos santos
no paraíso, assim como aqueles sobre a terra. Mas isto está longe de
afirmar que “o propósito era procurar alívio e conforto para as
almas dos mortos, em algum estado intermediário das dores
expiatórias”, ou que “esta foi a opinião geral daqueles
tempos”.
5. Quanto ao “óleo consagrado”, você parece se
esquecer completamente que não foi Jerônimo, nem Crisóstomo, mas
Tiago quem disse, “Existe algum doente entre vocês? Que ele seja
enviado para os anciãos da Igreja; e que eles orem sobre ele,
ungindo-o com óleo, em nome do Senhor: e a oração da fé salvará o
doente, e o Senhor o ressuscitará”. (versículo 14-15).
Em resumo: você acusa os Anciãos do terceiro século com oito das
principais corrupções do Papismo – (1) monastério; (2)
adoração às relíquias; (3) invocação dos santos; (4) o
uso supersticioso de imagens; (5) o óleo consagrado; (6)
os sacramentos; (7) com o sinal da cruz; (8) orar
pelos mortos.
E por
que desta acusação pesada, finalmente? Porque, exatamente assim:
alguns deles, no início do século terceiro, usaram
supersticiosamente o sinal da cruz; e outros, na metade daquele
século, ofereceram eucaristia para os mártires em seus festivais
anuais; ainda assim, como você faz disto “o uso supersticioso dos
sacramentos”, eu não sei, ou como esses se tornam “as
principais corrupções do Papismo”.
Orar assim para os mortos, “para que Deus logo concluísse o
número de Seus eleitos e apressasse Seu Reino”, e o ungir o
doente com óleo, você não provará facilmente que sejam corrupções,
afinal.
Quanto
ao monastério, a adoração de relíquias, invocação dos santos, e o
uso supersticioso de imagens, você nem mesmo tentou provar que esses
Anciãos eram culpados; de maneira que, pelo que parece, você
poderia, tanto quanto, ter colocado a culpa deles sobre os
Apóstolos. “Ainda que não sejam mais”, você solenemente nos
assegura, “do que o fato e verdade o obriguem a dizer!”.
Quando eu me deparar com algumas dessas afirmações para o tempo
vindouro, eu me lembrarei de me precaver.
6.
Nas páginas seguintes, você argumenta contra os milagres do
quarto e quinto século. Depois, acrescenta: “Mas, se esses devem
ser rejeitados, onde, então, devemos parar? E em que período,
devemos nos restringir? Esta, de fato, é a grande dificuldade, e tem
intrigado todos os outros doutores que consideraram a mesma questão
antes de mim”. Senhor, sua memória é curta. Neste mesmo
discurso, você disse exatamente o contrário. Você nos disse, há
pouco, que não apenas o Dr. Marshall [Thomas Marshall, D.D., Reitor
do Lincoln Colllege 1672], Dr. Dodwell, e o Arcebispo Tillotson, mas
a generalidade dos doutores Protestantes estavam de acordo com qual
período deveriam se restringir, acreditando que os milagres
subsistiram, através dos três primeiros séculos, e cessaram no
início do quarto.
7.
De qualquer forma, já que nenhum deles pode ficar perplexo mais,
você “colocará alguns princípios gerais, que podem nos conduzir a
uma solução mais racional para o assunto, do que alguma que nos foi
oferecida até aqui”. Novamente, eu estava todo atento. E o que a
montanha produziu? Quais são esses princípios gerais, precedidos por
tão solene declaração, e colocados nas treze páginas consecutivas?
Porque, eles diminuem para um – “que os milagres forjados no
quarto século mancham o crédito de todos os últimos milagres!”.
Eu gostaria que você provasse que os milagres do quarto século foram
todos forjados, mas este não é o assunto de nossa questão.
8.
Mas você se esforça para mostrar: “Porque aquela
surpreendente confiança”, você diz, “com que os Sacerdotes do
quarto século afirmaram como verdade, aquilo que eles mesmos
forjaram, ou, pelo menos, sabiam que fora forjado” (um pouco
mais prova disto), “faz com que suspeitemos que tão arrojado
desafio da verdade não se tornaria geral, de repente, mas seria
conduzido gradualmente até aquele patamar, pelo costume e exemplo
dos tempos anteriores”. Não parece que ele se tornou geral, até
muito tempo depois do quarto século. E já que esta suposição não é
suficientemente provada, a inferência dela não tem importância.
9.
Em Segundo Lugar, você diz: “Esta época, em que o
Cristianismo foi estabelecido, não deu oportunidade para quaisquer
milagres. Portanto, eles não forjariam milagres, quando não havia
tentação específica para isto”. Sim, a maior tentação no mundo,
se eles eram homens como você supõe. Se não tivessem escrúpulos na
arte ou forma de aumentar o próprio crédito e autoridade deles, eles
naturalmente “começariam a forjar milagres”, num tempo em que
os milagres reais não existiam mais.
10.
Em Terceiro Lugar, você diz: “Os Sacerdotes posteriores
tinham a mesma devoção que os anteriores, mas mais aprendizado, e
menos credulidade. Se, se constatasse, então, que esses forjaram
milagres, ou propagaram o que eles sabiam que eram forjados, ou se
iludiram com as mentiras de outros, isto estimularia a mesma
suspeita de seus predecessores”.
Eu respondo: (1) não está claro, que os Sacerdotes
posteriores tinham igual devoção que os anteriores. Nem (2)
que eles tinham menos credulidade. Parece que alguns deles tinham
muito mais: notificavam o camelo de Hilarion, e sentiam o odor do
diabo ou de um pecador; embora não tivessem o olfato tão apurado
quanto o de Pachomio, que (como muitos acreditam até hoje) podia
“sentir o odor de um herético a milhas de distância”. Mas, se
(3) os primeiros Sacerdotes eram mais santos do que os
posteriores, eles não apenas iludiam menos os outros, mas (mesmo na
suposição de Platão) iludiam a si mesmos; porque eles teriam mais
assistência de Deus.
11. Mas, você diz, Em Quarto Lugar: “As
primeiras eras da Igreja não foram mais puras do que as recentes:
Mais do que isto, em alguns aspectos, foram piores: porque nunca
tantas heresias florescentes foram professadas, ou tantos livros
espúrios, forjados e publicados, sob os nomes de Cristo e Seus
Apóstolos; diversos dos quais, citados pelos mais eminentes
Sacerdotes dessas eras, com a mesma autoridade que as Escrituras. E
ninguém pode duvidar que aqueles que forjassem ou fizessem uso de
livros forjados, fariam uso de milagres forjados”.
Eu respondo: (1) Admite-se que, antes do fim do terceiro
século, a Igreja encontrava-se grandemente degenerada de sua
primeira pureza. Ainda assim, eu não duvido (2) que
abundantemente mais heresias grosseiras foram publicamente
confessadas nas muitas eras posteriores; mas não publicamente
protestadas, e, portanto, os historiadores não as registraram.
(3) Você não pode deixar de saber que tem sido sempre
entendimento dos homens eruditos (que você é livre para refutar, se
for capaz), que muito mais foram compilados pelos inaptos, homens
bem intencionados do que havia sido oralmente passado pelos
Apóstolos. Mas (4) sempre existiram na Igreja, desde o
início, homens que tinham apenas o nome de cristãos. E esses, sem
dúvida, eram capazes de fraudes religiosas (assim chamadas). Mas
isto não deveria colocar a culpa sobre todo o corpo. Acrescente a
isto (5) o que é observado pelo Sr. Daille – “Eu atribuo
grande parte deste dano àqueles homens que, antes da invenção da
imprensa, eram os que copiavam os manuscritos. Podemos bem presumir
que eles tiveram a mesma liberdade em forjar, como lamenta Jerônimo,
o que fizeram nos livros corrompidos, especialmente uma vez que esta
medida era benéfica a eles, o que a outra não era”. Muito mais
para este mesmo propósito temos em seu tratado do Uso Correto dos
Sacerdotes. Esses copiadores não eram todos cristãos – não, nem
no nome; talvez, poucos, se algum deles, no século primeiro. (6)
Mas com que evidências, você prova que esses livros espúrios
“eram frequentemente citados pelos mais eminentes Sacerdotes, não
apenas como genuínos, mas com a mesma autoridade que as próprias
Escrituras?”. Ou, por fim, que eles tanto forjaram esses livros,
quanto fizeram uso do que sabiam ser forjados? Essas coisas também
você não deve tomar como garantido, mas provar, antes que seu
argumento possa ser forçado.
12. Chegamos por fim, à sua conclusão geral: “Não existe
suficiente razão para se crer que alguns poderes milagrosos
subsistiram em alguma época da Igreja, depois dos tempos dos
Apóstolos”.
Mas pretensos milagres, você diz, surgiram assim: “Quando a suma
autoridade dos escritos apostólicos estimulou alguns dos mais
eruditos cristãos” (prove isto) “a forjarem livros, sob seus
nomes; de maneira que a grande fama dos milagres apostólicos
naturalmente estimularia alguns dos mais astuciosos, quando os
Apóstolos já estavam mortos para atacarem alguns embustes
fraudulentos na imitação deles. E quando esses simuladores ardilosos
mantiveram seu pretexto, por todos os três primeiros séculos, os
primeiros clérigos do quarto entenderam o interesse deles muito bem,
para discordarem do antigo argumento de dons milagrosos”.
Consideráveis afirmações, de fato! Mas certamente, senhor, você não
pensa que os homens razoáveis tomaram isto como provas! Você está
aqui apresentando uma acusação da mais perversa natureza. Mas onde
estão suas provas? Onde estão os testemunhos para apoiarem isto? Até
agora, você não foi capaz de produzir um, no curso de trezentos
anos; exceto se produzir aqueles pagãos, de cujos preconceitos
estúpidos, impudentes, você mesmo tem dado tão claro relato.
Mas você
pretendeu produzir seus testemunhos na Inquirição Livre, um ano ou
dois depois que o Discurso Introdutório foi publicado. Assim, você
os condena, primeiro, e os prova, depois; agora você dará a
sentença, e ouvirá a evidência, mais tarde! Um exemplo genuíno
daquela “preocupação imparcial com a verdade”, que você
professa em todas as ocasiões.
13.
Outro exemplo disto, em sua nota periférica: “Os cristãos
primitivos foram perpetuamente reprovados por sua grosseira
credulidade”. Eles foram; mas por quem? Ora, pelos judeus e
pagãos. Assim sendo, os dois testemunhos que você produziu aqui são
Celsus, o Judeu, e Juliano, o apóstata. Mas, com receio de que isto
não fosse suficiente, você os faz confessar a acusação. ”Os
Sacerdotes”, estas são suas palavras, “se defenderam,
dizendo que eles não fizeram mais do que os filósofos sempre
fizeram: que os preceitos de Pitágoras foram inculcados com um ipse
dixit, e consideraram o mesmo método proveitoso que o vulgar”. E
esta é toda a defesa? Os próprios homens aos quais você se refere,
Orígenes e Arnobius, nos mesmos tratados aos quais você alude, não
deram outra resposta do que este argumento apelativo? Permaneça
esta, como outra prova genuína da candura e imparcialidade do Dr.
Middleton!
14.
Eu encontro na página seguinte, uma prova adicional de sua
“natureza franca e aberta”, e de seu “contentar-se com o
desencargo de sua consciência, através da livre declaração de seus
reais sentimentos”. Aqui, você solenemente declara: “O
Cristianismo é confirmado pela evidência de tais milagres, quando,
de todos os outros registros, são os menos propensos à exceção, e
carregam as marcas mais claras da sinceridade deles; sendo
produzidos por Cristo e Seus Apóstolos, para uma finalidade tão
grande, tão importante, de maneira a ser altamente merecedora da
interposição da Deidade; produzidos pelos homens comuns e simples, e
entregues pelas testemunhas oculares, cujas reputações excluem a
suspeita de fraude”. Senhor, você acredita em uma palavra do que
tão solenemente declara? Você mesmo tem feito o contrário. Mas se
você não o faz, como devemos considerá-lo? Ou como poderemos
acreditar em você numa outra oportunidade? Como podemos saber, eu
não sei dizer, quando você fala a verdade, a não ser quando você nos
faz pensar que fala? Por qual critério devemos distinguir entre o
que é falado em seu caráter verdadeiro, e o que é falado em seu
caráter simulado? Como discernir, quando você fala como o Dr.
Middleton, e quando fala como um bibliotecário público?
15.
Você prossegue: “Por outorgar aos Católicos Romanos, apenas
uma simples era de milagres, depois dos Apóstolos, nos emaranhamos
em dificuldades, de onde nunca poderemos nos libertar, até que
admitamos os mesmos poderes na presente século”. Eu os admito,
no entanto, três séculos de milagres, e que eles façam qual proveito
disto, eles puderem.
Você prossegue: “Se as Escrituras são uma regra completa (eu
rejeito a palavra ‘suficiente’, porque ela é ambígua), nós não temos
necessidade de Sacerdotes como guias, ou, se claras, como
intérpretes. Uma estima por eles tem levado muitos a erros
perigosos: o negligenciar deles pode ter nenhuma conseqüência má”.
Eu respondo: (1) As Escrituras são uma regra completa de fé e
prática; e elas são claras em todos os pontos necessários; mas,
ainda assim, a clareza delas não prova que elas não necessitam ser
explicadas, nem sua inteireza, de que não precisam ser reforçadas.
(2) A consideração dos escritos dos três primeiros séculos,
não igualmente como as Escrituras, mas próximos a elas, nunca
conduziram homem algum a erros perigosos, nem provavelmente o fará.
Mas isto tem trazido muitos dos erros perigosos, e especialmente dos
erros do Papismo. (3) O negligenciar, em seu sentido de
Sacerdotes primitivos – ou seja, o pensar que eles eram todos tolos
e patifes – tem esta conseqüência natural (que eu garanto não é
prejudicial, de acordo com seus princípios), de faz com que todos os
que não são verdadeiros cristãos acreditem que Jesus de Nazareth e
Seus Apóstolos eram tão honestos e sábios como eles.
16. Você, em seguida, se esforça para mostrar como a Igreja
da Inglaterra veio a ter tal consideração pelos Patriarcas do
passado. Existem diversos pormenores neste relato que estão
propensos à exceção. Mas, eu os deixarei passar, quando eles tiverem
pequena ligação com o ponto em questão.
17. Você conclui seu Discurso Introdutório: “O objetivo do
presente tratado é fixar a religião dos Protestantes em seus
alicerces apropriados – ou seja, sobre as Sagradas Escrituras”.
Aqui, novamente, você fala, em seu caráter pessoal, como também,
quando “livremente utiliza-se dos escritores primitivos, no
testar e transmitir a nós os genuínos livros das Santas
Escrituras!”. Livros para o completo testemunho, assim como a
segura transmissão, a respeito do que, você, sem dúvida, tem a mais
profunda preocupação!
18. Eu não posso repudiar este Discurso, sem deixar de
observar que a incomum destreza e malícia, que resplandecem através
de toda sua obra, necessitam causar aversão a todo homem honesto e
de coração correto; nem ele é algum crédito, afinal, à causa que
você expôs. Mais do que isto, eu estou persuadido de que existem
muitos nesses reinos que, embora pensem como você, com respeito ao
sistema cristão, ainda assim, não suportariam a idéia de escrever
contra ele, da maneira como você o faz; de combater fraude (se for
assim) com fraude, e praticar a mesma coisa que eles professaram
expor e abominar.
Em sua Inquirição Livre, você propõe: -
I. “Formular, em ordem, todos os principais testemunhos
que se refiram aos dons milagrosos, como eles são encontrados nos
escritos dos Patriarcas, desde as eras mais antigas, depois dos
Apóstolos, de onde teremos uma visão de toda a evidência, através da
qual, eles têm sido apoiados”.
II. “Juntar tudo que aqueles Patriarcas declararam, com
respeito às pessoas terem sido dotadas com aqueles dons”.
III. “Ilustrar as características específicas e opiniões
dos que atestam aqueles milagres”.
IV. “Rever todos os tipos de milagres que se entende,
forjados, e observar da natureza de cada um, até onde, eles podem
ser razoavelmente prováveis”.
V. “Refutar algumas das mais plausíveis objeções que foram
feitas”.
Eu tinha esperanças que você desse, pelo menos, no adentrar em sua
principal obra, o que você prometeu há muito, um relato da
“natureza e condição apropriada daqueles poderes milagrosos que são
o objeto de toda disputa, como eles são representados a nós, na
história do Evangelho”. Mas, como você não parece ter qualquer
intenção de fazer isto, afinal, você me permite, por fim, que eu o
faça por você.
A
promessa original transcorre assim: ”Esses sinais seguirão aos
que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas
línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa
mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os
enfermos, e os curarão”. (Marcos 16:17-18).
Um relato adicional é dado deles, por Pedro, no mesmo dia, em que
aquela promessa foi cumprida: “Isto foi o que o profeta Joel
falou: E nos últimos dias, disse Deus... seus filhos e filhas
profetizarão, e os jovens terão visões, e os velhos sonharão”.
(Atos 2:16-17).
O
relato de Paulo é um pouco mais completo do que este: “Existe uma
diversidade de dons” (carismavtwn, o termo bíblico usual, para
os dons milagrosos do Espírito Santo), “mas o mesmo Espírito. A
um, foi dada a palavra de sabedoria; a outro, os dons de cura; a
outro, a obra de outros milagres; a outro, profecia; a outro,
discernimento dos espíritos; a outros, a variedade de línguas; a
outro, a interpretação das línguas: todos esses, operados pelo mesmo
Espírito, repartindo, a cada homem, exatamente como Ele deseja”.
(I Cor. 12:4-11).
De onde podemos observar, que o principal carivsmata, “dons
espirituais”, conferidos à Igreja apostólica foram: (1)
expulsar demônios; (2) falar novas línguas; (3)
escapar de perigos, dos quais, ao contrário, teriam perecido; (4)
curar o doente; (5) profetizar, predizer coisas futuras;
(6) visões; (7) sonhos divinos; e (8) discernir
dos espíritos.
Alguns desses parecem ter sido principalmente designados para a
convicção dos judeus e pagãos, como o expulsar demônios, e falar
novas línguas; alguns, especialmente, para o benefício de seus
camaradas cristãos, como a cura do doente, predizer coisas
vindouras, e o discernimento dos espíritos; e todos, com a
finalidade de capacitar aqueles que forjaram ou os viram “a
assumirem pacientes a corrida que se coloca diante deles”, em
meio a todas as tempestades de perseguição que a maioria dos
preconceitos inveterados, ira, e malícia, levantaria contra eles.
I
1.
Você deve, primeiro, “formular, em ordem, todos os principais
testemunhos que se refiram aos dons milagrosos, como eles são
encontrados nos escritos dos Patriarcas das primeiras eras, depois
dos Apóstolos”.
Você começa com os Patriarcas apostólicos – ou seja, aqueles que
viveram e conversaram com os Apóstolos. “Existem diversos”,
você diz, “com esta característica, cujos escritos ainda
permanecem: Barnabé, Clemente, Inácio, Policarpo, Hermas. Agora, se
esses dons subsistiram, até depois dos dias dos Apóstolos, esses
devem ter tido uma larga porção deles. Mas, se algum deles tiveram,
ele mencionaria isto em seus escritos, o que nenhum deles o fez”.
O
argumento, completamente proposto, transcorre assim:
Se algum
desses dons subsistiu neles, ou no tempo deles, eles deveriam tê-lo
mencionado em suas Epístolas circulares às igrejas (para este
propósito, seus predecessores, os Apóstolos, o fizeram); mas eles
não mencionaram quaisquer dons nela; portanto, eles não subsistiram
nele, ou em seu tempo.
Seu
argumento, portanto, prova muito; nem pode ele concluir contra algum
Patriarca apostólico, sem concluir contra o Apóstolo também.
Se,
portanto, os Patriarcas apostólicos não mencionaram algum dons
milagrosos, em suas Epístolas circulares às igrejas, você não
poderia concluir que eles não possuíam algum; uma vez que nem os que
admitem possuí-los, os mencionam em suas Epístolas circulares.
De todos
os Apóstolos, você pode produzir apenas um, Paulo, que faz menção a
esses dons: e isto, não em suas Epístolas circulares às Igrejas;
porque eu não sei se ele escreveu alguma delas.
2.
Todo este tempo, eu tenho argumentado com suas próprias
suposições de que esses cinco Patriarcas apostólicos escreveram
Epístolas circulares às Igrejas, e, ainda assim, nunca mencionaram
esses dons nelas. Mas, nenhuma dessas suposições é verdadeira.
Porque, (1) Hermas não escreveu Epístola, afinal. (2)
Embora o restante escrevesse Epístolas às Igrejas específicas
(Clemente aos Coríntios, Ignácio aos Romanos, etc.), também nenhum
deles escreveu qualquer Epístola circular às Igrejas, como aquelas
de Tiago, e Pedro, exceto se admitirmos que seja uma Epístola
genuína a que leva o nome de Barnabé. (3) Você reconhece que
eles todos “falaram de dons espirituais, em meio aos cristãos
daquela época”; mas afirma, “que esses não podem significar
algo mais do que fé, esperança, e caridade”. Você afirma: mas, a
prova, senhor, eu quero a prova. Embora eu seja apenas o inculto,
ainda assim, eu não sou metade tão crédulo quanto você considera que
os primeiros cristãos foram. Algo afirmado, não me satisfaz: eu
quero prova clara, limpa, lógica; especialmente, quando eu considero
o quanto você constrói encima disto – que é o principal alicerce em
que suas hipóteses se situam. Você mesmo deve admitir que nas
Epístolas de Paulo, os “dons espirituais” sempre significam
mais do que fé, esperança e amor; e que eles significam
constantemente, “dons milagrosos”. Como, então, você prova
que nas Epístolas de Ignácio, menciona-se completamente outra coisa?
Nem dons milagrosos, mas apenas os dons comuns e as graças do
evangelho? Eu penso que “o leitor não deve encontrar distinções
evasivas nos papéis seguintes”. Prove, então, que esta
distinção não é evasiva, que algumas palavras significam coisas
absolutamente diferentes. Até que isto seja clara e solidamente
feito, os homens razoáveis devem acreditar que esta e expressões
semelhantes querem dizer a mesma coisa nos escritos dos Patriarcas
apostólicos, quanto nos escritos dos Apóstolos – ou seja, não as
graças comuns do evangelho, mas os dons extraordinários do Espírito
Santo.
3.
Você almeja, de fato, como prova, o que seria expressivo ao
ponto, se você não seria capaz de distinguir isto. “Esses mesmos
Patriarcas parecem desaprovar todos os dons de um tipo mais
extraordinário. Assim, Policarpo, em sua Epístola aos Filipenses,
diz: ‘Nem eu, nem qualquer outro tal como eu, pode chegar à
sabedoria do abençoado Paulo’. E na mesma Epístola, ele declara:
‘que não é concedido a ele praticar isto’. Indignem-se, e não
pequem’. Ignácio, também, em sua Epístola aos Efésios, diz: ‘Essas
coisas eu prescrevo a vocês, não como se eu fosse alguém
extraordinário; porque eu penso que eu sou constrangido pelo nome
Dele, e não sou ainda perfeito em Jesus Cristo’”. Eu penso
verdadeiramente que essas provas extraordinárias podem ficar sem
qualquer resposta.
4.
Ainda assim, você cortesmente acrescenta: “Se das passagens
referidas acima, ou de alguma outra, parecer provável a alguém que
eles foram favorecidos em algumas ocasiões com algumas iluminações,
visões, ou divina impressões extraordinárias, eu não discutirei
aquele ponto; mas os lembro apenas que esses dons foram transmitidos
para o conforto específico deles, e, portanto, de maneira alguma
afetam ou se referem à questão agora diante de nós”.
Eu peço perdão, senhor. Esses afetam profundamente, e bem próximo se
referem também à questão agora diante de nós, mesmo quando você
coloca, que, em admitir esses, você desiste da matéria da questão.
Você mesmo declarou que uma grande finalidade dos dons
extraordinários, conferidos sobre os Apóstolos, foi “capacitá-los
a resistirem contra os impactos da ira popular e perseguição”.
Agora, não foram as “iluminações, visões, e impressões
extraordinárias”, se dadas, afinal, dadas para esta mesma
finalidade – “para o conforto específico deles”, como você
agora exprime isto? Portanto, em admitir esses aos Patriarcas
apostólicos, você admite os dons extraordinários, que foram
anteriormente concedidos aos Apóstolos, de subsistirem na Igreja,
depois deles, e para a mesma finalidade de antes.
5.
Portanto, os escritores apostólicos não nos deixaram no escuro,
com respeito ao nosso presente argumento, e, consequentemente seu
triunfo também vem logo: “Aqui, então, há um intervalo de meio
século, no qual temos a mais forte razão para presumir que os dons
extraordinários da era apostólica foram removidos”. Não, nem se
todos os Patriarcas apostólicos falassem dos dons espirituais, como
abundando em meio aos cristãos daquela época; nem se “as
extraordinárias iluminações, visões e impressões divinas ainda
subsistissem dentre eles”. Porque, já que você coloca nisto,
“como exercidos abertamente na Igreja para a convicção dos
descrentes”, eu desejo que você retire novamente; porque se
tornou um grande acordo, tarde demais. A questão entre mim e você
foi colocada sem esta afirmação, centenas de páginas atrás. Ainda
que seja admitida, não será de utilidade para você; uma vez que sua
proposição é negar que houve “dons milagrosos depois dos dias dos
Apóstolos”, quer eles fossem “abertamente exercidos para a
convicção dos descrentes” ou não.
6.
Eu fiquei um pouco surpreso que você se despedisse dos
Patriarcas apostólicos tão cedo. Mas, procurando mais adiante, minha
surpresa chegou ao fim: Eu não o considerei culpado de qualquer
intento de dispensá-los; mas apenas de adiar suas observações, até
que o leitor pudesse se preparar para o que o teria chocado, se
colocado em seu lugar apropriado.
Eu não
acho, de fato, que você faz alguma objeção a alguma parte das
Epístolas de Ignácio; não, nem à Epístola Católica, assim chamada, e
que está inscrita com o nome de Barnabé. Isto claramente me convence
de que você não a leu – e eu estou apto a pensar, que nem uma página
dela; porque, se você tivesse lido, você nunca teria deixado passar
tal oportunidade de expor um daqueles que foi chamado de Patriarca
apostólico.
7.
Mas seria estranho, se você não tivesse, em algum lugar, trazido
a famosa fênix de Clemente Romano. E assim, você é mais
misericordioso neste assunto, observando meramente, que “ele
alegou a ridícula história de fênix, como um tipo e prova de
ressurreição. Quer todos os escritores pagãos tratem isto como nada
mais, a mera fábula, eu não conheço”. Mas se for assim, está
certo, e consequentemente, o argumento traçado, a respeito dela, é
fraco e inconclusivo. No entanto, consequentemente não se segue que
Clemente era um fraco ou que ele não tinha dons extraordinários do
Espírito.
8.
Não existe mancha verdadeira a ser encontrada em todo o caráter
de Policarpo. Mas existe uma circunstância deixada, concernente a
ele que tem a aparência de fraqueza. E com isto, você não falha em
familiarizar o leitor, na ocasião conveniente – ou seja, “que, na
maioria das disputas antigas, com respeito à data certa da Páscoa,
Policarpo e Aniceto, duramente alegaram a tradição católica para sua
prática diferente”. E não é improvável que ambos alegaram o que
era verdade; que, em um ponto de tão pouca importância, os Apóstolos
se diversificavam, alguns deles observando-a, no décimo-quarto dia
da lua, e outros, não. Mas, seja como for, isto não pode ser prova,
de que Policarpo era ou não um homem santo, ou que ele não fora
favorecido com os dons extraordinários e comuns do Espírito.
9.
Com respeito à narrativa de seu martírio, você afirma: “É uma
das mais autênticas peças em toda a Antigüidade primitiva”. Eu
não me responsabilizarei por esta autenticidade; não, portanto, pela
estória da pomba, a chama formando um arco, o cheiro de fragrância,
ou a revelação a Pionius. Mas sua tentativa de relatar essas coisas
é verdadeiramente curiosa. Você diz: “Um arco de fogo, em redor
de seu corpo é uma forma, que facilmente acontece dos efeitos comuns
do vento. E a pomba dita voar dele, seria levada para dentro da
madeira, que estava preparada para consumi-lo”. Quanto mais
natural seria supor que se trata de uma ficção moderna, escrita na
ocasião daquele relato mencionado por Eusébio, mas perdido muitos
anos atrás! Mas, o que quer que seja pensado a respeito deste relato
de sua morte, nem isto afeta a questão, se durante sua vida, ele foi
dotado ou não dos dons milagrosos do Espírito Santo.
10.
Existe ainda um daqueles que você denomina de os Patriarcas
apostólicos, de quem você fala de maneira tão completa quanto os
demais; eu quero dizer, Hermas: “a quem”, você diz,
“alguns imputam a fraude de forjar os livros Sibyllines”. Não
seria impróprio se você nos dissesse, quais dos anciãos, quer
cristãos, judeus, ou pagãos, alguma vez o acusou disto. Se nenhum o
fez, alguns estão aptos a pensar que é dado à pessoa uma medida
dura, ao trazer uma acusação contra aquele de quem nunca se ouviu um
til, mil e seiscentos anos, depois de sua morte.
Mas eu
posso mais facilmente desculpá-lo, porque ele é uma pessoa de quem
você não está totalmente familiarizado. Embora seja muito, a
curiosidade não o conduziu, quando você teve a tradução do Arcebispo
Wake, em sua mão, a ler a respeito, a não ser, doze páginas de seu
Pastor famoso. Mas a caridade me obriga a acreditar que você nunca o
fez. Ao contrário, eu não posso conceber que você tão
autoritariamente afirmasse dele e dos demais: “Não existe a menor
reivindicação ou pretensão, em todas as diversas peças, a algum
desses dons extraordinários que são o objeto desta inquirição”.
Eu estou espantado, senhor, você nunca teve um amigo no mundo?
Mesmo que você seja ignorante disto, ninguém o informou que todos os
três livros de Hermas, da primeira página à última, são nada mais do
que um recital de seus dons extraordinários, suas visões, profecias,
e revelações?
Você
pode esperar, depois disto, que algum homem em seu juízo, possa
tomar sua palavra por alguma coisa debaixo do céu? Que alguém possa
creditar alguma coisa que você afirma? Ou acreditar mais em você, do
que aquilo ele pode ver em você? Jesus, a quem você persegue, pode
perdoá-lo disto; mas como você poderá perdoar-se?Alguém poderia
pensar que você grita dia e noite: “O Pastor de Hermas não vai me
deixar dormir!”.
11. Você prossegue para o testemunho de Justino Mártir, que
escreveu cerca de cinqüenta anos depois dos Apóstolos: “Ele diz
(eu traduzi suas palavras literalmente), ‘que existem dons
proféticos em nosso meio, até mesmo agora. Você pode constatar
conosco, que ambos, homens e mulheres têm dons do Espírito de Deus’.
Ele especialmente insiste naquele de ‘expulsar demônios, como
qualquer pessoa pode ver com seus próprios olhos”.
“Irenaeus, que escreveu alguma coisa, mais tarde, afirma, ‘que todos
que foram verdadeiramente discípulos de Jesus, forjaram milagres em
Seu nome; alguns expulsaram demônios; outros tiveram visões, ou o
conhecimento de eventos futuros; outros curaram o doente’. E quanto
ao ressuscitar os mortos, ele declara que isto tem sido
frequentemente executado em ocasiões necessárias, pelo grande jejum
e a súplica conjunta da Igreja’. ‘E ouvimos muitos’, ele diz, ‘falar
em todos os tipos de línguas, e expor os mistérios de Deus’”.
“Teófilo, Bispo da Antioquia, que viveu na mesma época, fala em
expulsar demônios, como sendo comum na Igreja”.
12. “Tertuliano, que viveu já no fim do século dois, acusa
os magistrados pagãos de ‘levarem, para diante do tribunal, pessoas
possuídas de demônio. E, se o espírito endemoniado, quando ordenado
por algum cristão, não confessasse ser o diabo, e chamasse a si
mesmo de um deus, eles tirariam a vida daquele cristão’”.
“Minutius Felix, que, se supõe, escreveu no início do século três,
apresentando-se para seu amigo pagão, diz: ‘A maior parte de vocês
sabe quais confissões os demônios fazem, concernentes a eles mesmos,
quando vocês os expulsam dos corpos dos homens’”.
“Orígenes, mais jovem do que Minutius, declara que restaram ainda as
indicações manifestas do Santo Espírito. ‘Porque os cristãos’, ele
diz, ‘expulsam demônios, executam muitas curas, predizem coisas. E
muitos se converteram ao Cristianismo, através de visões. Eu tenho
visto muitos exemplos deste tipo’”.
Em outro lugar, ele diz: “Os sinais do Espírito Santo foram
mostrados no início do ensinamento de Jesus” (não, como você
traduz isto, “os milagres começaram com a pregação de Jesus”,
é uma coisa completamente diferente); “mais foram mostrados
depois da ascensão Dele, porém, mais tarde, menos. No entanto, até
mesmo agora, existem ainda alguns deles restantes com poucos, cujas
almas estão limpas, pela palavra e uma vida em conformidade”.
Novamente: “Alguns”, diz ele, “curam o doente. Eu mesmo
vi muitos, assim curados, da perda de sentidos, loucura e
inumeráveis outros males, que nem homens, nem demônios podem
curar”. “E isto é feito, não pelas artimanhas mágicas, mas pela
oração e certas súplicas claras, tais que qualquer cristão comum
pode usar; já que a generalidade dos homens comuns faz coisas deste
tipo”.
14. “Cipriano, que escreveu por volta da metade do século
três, diz: ‘Além das visões da noite, até mesmo durante o dia,
crianças inocentes em nosso meio são preenchidas com o Santo
Espírito, e em êxtases vêem e ouvem e falam aquelas coisas, através
das quais, Deus se agrada de nos admoestar e nos instruir’”. Em
algum outro lugar, ele menciona especialmente o expulsar de
demônios: “que”, ele diz, “tanto se afastam imediatamente,
quanto por graus, de acordo com a fé do paciente, ou a graça daquele
que opera a cura”.
“Arnóbius, que se supõe ter escrito no ano de 303 de Cristo, nos
diz: ‘Cristo aparece até mesmo agora aos homens impolutos e
eminentemente santos que O amam; cujos próprios nomes expulsam
espíritos demoníacos, emudecem seus profetas, destituem os
advinhadores do poder de responderem, e frustram os atos dos
prestidigitadores arrogantes’”.
“Lactantius, que escreveu por volta da mesma época, falando de
espíritos demoníacos, diz: ‘Abjurado pelos cristãos, eles se retiram
dos corpos dos homens, se confessam demônios, e dizem seus nomes,
mesmo os que são adorados nos templos’”.
“Esses”, você diz, “são os principais testemunhos que afirmam
os dons milagrosos, durante os três primeiros séculos; que seriam
apoiados por muitos do mesmo tipo, dos mesmos escritores, ou de
escritores diferentes. Mas ninguém terá receio em ariscar o fato da
causa, sobre esses”. Até ai, eu não tenho receio. Eu não duvido,
mas os testemunhos desses nove, acrescentados à evidência dos
Patriarcas apostólicos, satisfarão todo homem imparcial, com
respeito ao ponto em questão. Ainda assim, eu não vejo motivo, se
existem mais nove testemunhos, para desistir da evidência deles; uma
vez que você pode possivelmente levantar objeções contra aqueles,
com os quais os outros estão despreocupados.
Se, então, você pudesse invalidar o que eu tenho a responder a favor
das testemunhas agora produzidas, você teria feito apenas metade de
sua obra. Eu devo mais tarde, requerer um ouvido justo para as
outras também.
16.
Você encerra este tópico, com argumentos:
(1) “De que o silêncio de todos os escritores apostólicos
sobre o assunto desses dons deve nos dispor a concluir que eles
foram, então, retirados”. Meu senhor, não mencione isto mais!
Eu suplico a você que nunca mais cite o silêncio deles novamente.
Eles falaram o suficiente para envergonhá-lo, por quanto tempo você
viver. Você não pode, entretanto, falar com alguma graça do
“avivamento pretendido deles, depois de uma suspensão de quarenta ou
cinqüenta anos”, ou traçar conclusões do que nunca existiu.
(2)
Sua segunda observação é perfeitamente nova: Eu me atrevo a
dizer que ninguém alguma vez observou antes de você que esta
circunstância específica dos cristãos primitivos, “conduzia com
ela um ar de impostura” -- ou seja, “o de desafiarem todo o
mundo verem os milagres que eles forjaram!” Para completar o
argumento, você acrescentaria, “e o marcar a vida deles sobre a
realização desses”.
17.
Eu duvido que você não tenha ido um passo adiante ainda. Você,
de fato, apresentou muitas afirmações audazes; mas não provou
fielmente uma simples conclusão com respeito ao ponto em questão.
Mas o
efeito natural de sua imaginação brilhante é que desde então, você
argumenta mais e mais fracamente; visto que, quanto mais longe você
vai, mais coisas você imagina (e apenas imagina) ter provado.
Consequentemente, como você ajuntou mais equívocos a cada passo que
deu, cada página é mais precária, do que a anterior.
II
I.
A segunda coisa que você propôs foi “juntar tudo que aqueles
Patriarcas entregaram, concernente às pessoas terem sido dotadas com
os dons extraordinários do Espírito”.
“Agora, quando quer que você pense e pense com reverência”,
você diz, “ a respeito daqueles tempos primitivos, é sempre em
relação àqueles mesmos Patriarcas, cujos testemunhos eu coletei. E
eles eram, de fato, as principais pessoas e heróis da causa cristã,
os pastores, bispos, e mártires da Igreja primitiva – ou seja,
Justino Mártir, Irenaeus, Teófilo, Tertuliano, Minutiu Felix,
Orígenes, Cipriano, Arnóbio, Lactantius”. Senhor, você tropeçou
na soleira da porta. Um dicionário comum pode informá-lo de que
esses não foram todos quer pastores, bispos, ou mártires.
2.
Você prossegue como demonstrou: “Ainda assim, nenhum desses,
alguma vez, afirmou que eles próprios eram dotados com algum poder
de operar milagres”. Você deveria dizer,”com algum daqueles
dons extraordinários prometidos por nosso Senhor e concedível aos
Seus Apóstolos”.
Não! “Nenhum desses, nenhuma vez, afirmou que eles próprios eram
dotados” com algum dos dons extraordinários? O que você pensa do
primeiro deles, Justino Mártir? Tanto você está completamente
equivocado no relato que deu dele, quanto ele afirmou isto de si
mesmo, repetidas vezes. E quanto a Cipriano, você logo gastará
diversas páginas consecutivas, sobre os dons extraordinários que ele
afirmou ser dotado.
Mas,
suponha que eles não tivessem afirmado isto de si mesmos, o que você
concluiria, então? Que eles não eram dotados com algum dos dons
extraordinários? Então, pelo mesmo método de argumentação, você
deveria provar que nem Pedro, nem Tiago, nem João eram dotados com
algum tal dom; porque nem eles afirmaram isto de si mesmos em
quaisquer dos escritos que deixaram atrás deles.
3.
Seu argumento, com respeito aos Patriarcas apostólicos, é
exatamente tão conclusivo quanto este. Porque se você diz: “Os
escritores, seguindo os Patriarcas apostólicos, não afirmam que
estes tiveram algum dos dons milagrosos, portanto, eles tiveram
nenhum”, pela analogia, você deveria dizer: “Os escritores,
seguindo os Apóstolos, não afirmam que estes tiveram algum dos dons
milagrosos, portanto, os Apóstolos tiveram nenhum”.
4.
Seu próximo argumento contra a existência desses dons é “que os
Patriarcas não nos disseram os nomes daqueles que os tinham”.
Isto não é completamente verdadeiro. Os nomes de Justino Mártir e
Cipriano eram muito bem conhecidos; como é, em meio aos eruditos, o
de Dionísio, Bispo da Alexandria.
5.
Mas, e se não fossem? Supondo-se que os poderes milagrosos foram
abertamente executados na Igreja, e que não apenas eles, mas todos
podiam ver isto, quando quisessem, – se qualquer pagão poderia ver,
quando lhe agradasse – pode um homem justo desejar mais? O que
significou para aquele que conhece os nomes dos que ele ouviu
professarem ou viu operarem milagres? Embora, sem dúvida, quem quer
que presencie os milagres forjados, facilmente aprendem os nomes
daqueles que os forjaram; o que, não obstante, os cristãos não
tiveram necessidade de proclamar, para expô-los ainda mais à ira e
malícia de seus perseguidores.
6.
Seu terceiro argumento é: “Os cristãos realizadores de
milagres foram sempre acusados de impostura por seus adversários.
Luciano nos diz: ‘Quando quer que algum astucioso prestidigitador
viesse aos cristãos, ele enriquecia imediatamente’. E Celsus mostra
os prestidigitadores cristãos, como meros vagabundos e impostores
comuns que perambulam em feiras e mercados”.
E
não é de se admirar que um judeu ou um pagão pudessem mostrá-los
assim? Senhor, eu não o culpo por não acreditar no sistema cristão,
mas por revelar tão grave parcialidade, por coletar cada sobra do
escândalo pagão e impingir sobre nós como evidência inquestionável,
e por não traduzir, nem mesmo esses miseráveis fragmentos com alguma
precisão ou fidelidade. Em vez de nos entregar o texto, péssimo como
ele é, você comumente o substitui com uma paráfrase ainda pior. E
isto, o leitor inculto naturalmente supõe uma tradução fiel. Não é
crédito à sua causa, se necessita de tal suporte. E não é crédito a
você, se ele não apóia.
7.
Quanto àquela de Luciano e Celsus, você acrescenta a evidência
de Caecilius também, que chama esses prestidigitadores, você diz, de
“uma nação emboscada, evitando a luz”. Então, eles foram
estranhamente alterados de repente; porque você nos disse que,
exatamente antes, eles se provaram impostores, por um método
largamente diferente – por “provocarem os magistrados e as
pessoas, e desafiarem todo o mundo, a constatar o que eles faziam!”.
Eu não fui informado de que você começou a “coletar, ao acaso,
tudo que os Patriarcas entregaram, concernente às pessoas ditas
dotadas com aqueles dons extraordinários”. E parece que você
concluiu isto! E assim, resume a prova, “observar, do todo,
desses caracteres dos prestidigitadores primitivos, fornecidos, por
amigos e inimigos, que podemos concluir fielmente que os dons dessas
eras foram geralmente elaborados pelos cristãos privados que
viajavam de cidade em cidade, para ouvirem os pregadores comuns, na
conversão dos pagãos, através dos milagres extraordinários que eles
fingiam executar”.
8. “Caracteres fornecidos por amigos e inimigos”. Eu
suplico, senhor, quais amigos você citou para este caráter? Ou quais
inimigos, exceto apenas Celsus, o judeu? (E você é um intérprete
miserável dele!). Assim, de um simples testemunho, você escreve como
uma verdade profética, que todos os prestidigitadores dos primeiros
três séculos, eram “meros vagabundos, e impostores comuns”,
perambulando de cidade em cidade para presenciarem a conversão de
pagãos, através de truques e impostura! E isto você ingenuamente
chama de “coletar tudo que os Patriarcas entregaram, concernente
a eles!”.
9. Mas, para completar, você diz: “Aqui novamente vemos
uma dispensação das coisas atribuídas a Deus, completamente
diferente daquilo que encontramos no Novo Testamento”. “Vemos uma
dispensação!”. Onde? Não na igreja primitiva; nem nos escritos
de um único cristão; nem de um pagão: e apenas de um judu; porque o
pobre Celsus não teve um segundo, embora ele multiplicasse, sob sua
mão criadora, nuvens de testemunhas.
Ele apenas atribui isto aos antigos cristãos, os quais você em nome
deles, atribui a Deus. Com o mesmo respeito à verdade, você
prossegue: “Naqueles dias, o poder dos milagres” (você
deveria dizer os dons extraordinários) “foram realizados por
ninguém, a não ser os que presidiam na Igreja de Cristo”. Falta
prova para isto. Mas eu não posso tomar sua palavra, especialmente,
quando os Apóstolos e Evangelistas dizem o contrário. “Mas,
quanto ao avivamento pretendido daqueles poderes”, -- Senhor,
não pretendemos o avivamento deles, uma vez que acreditamos que eles
nunca foram interrompidos, até que você prove o contrário, --
“nós consideramos a administração deles completamente leal, não para
aqueles que tinham o governo da Igreja, não para os bispos, os
mártires, ou os líderes principais da causa cristã, mas para os
garotos, as mulheres, e, acima de tudo, aos leigos privados e
obscuros, não apenas de um caráter inferior, mas, algumas vezes,
também de um mau caráter”.
Certamente, senhor, você fala enquanto dorme: você jamais falaria
assim, se tivesse seus olhos abertos, e seu entendimento consigo.
“Nós achamos a administração deles completamente leal, não para
aqueles que tinham o governo da Igreja!”. Não! Eu penso que
Cipriano tinha o governo da Igreja em Cartago, e Dionísio, na
Alexandria! “Não, para os bispos”. Quem eram esses, então,
que foram mencionados por último? Bispos, ou não bispos? “Não
para os mártires”. Bem, se Cipriano nem foi bispo, nem mártir,
eu espero que você admita a pretensão a Justino. “Nem aos
principais líderes da causa cristã”. E, ainda assim, você nos
diz, não, em três páginas, desde então, que “esses mesmos
Patriarcas foram os principais líderes da causa cristã naqueles
dias!”. “Mas aos meninos e mulheres”. Eu respondo: “Isto é o
que foi falado pelo Profeta Joel: ‘Derramarei Meu Espírito, diz o
Senhor, e seus filhos e filhas profetizarão!’” – uma
circunstância que torna este argumento completamente contra você,
até que abertamente você reconheça que não acredita naquelas
profecias. “E acima de tudo, aos leigos privados e obscuros, não
apenas de um caráter inferior, mas, algumas vezes, de um mau
caráter”.
Eu repondo:
(1)
Você cita apenas um escritor pré-Nicene, para prová-los
realizados para “os leigos privados e obscuros”. E ele diz
isto e não mais: “Geralmente os homens privados fazem coisas
deste tipo”. [WJ" ejpivpan ijdiw'tai toV toiou'ton pravttousi (Origen's
Cont. Cels. 1. vii.)]. Por qual regra de gramática você constrói de
idiwtai, “leigos privados e obscuros”, eu não sei.
(2)
Para provar que esses foram, algumas vezes, homens de um mau
caráter, você cita também apenas um Patriarca pré-Nicene (porque eu
presumo que você não afirmará a autenticidade das assim chamadas,
Constituições Apostólicas); e já que um é, em efeito, nenhum,
afinal: é Tertuliano, quem, em sua Prescrição contra os Heréticos,
diz: “Eles acrescentarão muitas coisas da autoridade” (ou
poder) “de cada professor herético – de que eles ressuscitam os
mortos, curam o doente, predizem coisas”. ['Adjicient multa de
autoritate cujusque doctoris haeretici, illos mortuos suscitasse,
debiles reformasse, &c’]. “Eles acrescentarão!”. Mas
Tertuliano acreditou neles? Não existe uma sombra de razão para
pensar que ele o fez. E se não, o que é tudo isto para o propósito?
Não mais do que contos das eras passadas, que você acrescenta,
concernentes aos milagres forjados, através de ossos e relíquias.
10.
‘Essas coisas”, você acrescenta, “são tão estranhas,
de maneira a dar justa razão para se suspeitar de que existiram
algumas fraudes originais no caso, e que aqueles prestidigitadores
vagabundos, através de uma destreza de malabarismos impuseram sobre
os Patriarcas devotos, cujos fortes preconceitos e zelo ardente pelo
interesse do Cristianismo, os disporiam a abraçar, sem examinação, o
que quer que parecesse promover tão boa causa”. Você agora fala
toleravelmente claro, e ficaria muito frustrado, se aqueles que não
tivessem “tão fortes preconceitos pelo Cristianismo” não
aplicassem o que você diz desses “prestidigitadores vagabundos”
aos Apóstolos, e aos seus sucessores.
11. Uma breve resposta será suficiente: “Essas coisas são
tão estranhas”. Elas são mais estranhas do que verdadeiras. Você
não provou um jota, ou um til delas ainda; portanto, as conclusões
que você traça devem cair ao chão, até que você encontre alguns
suportes melhores para elas.
12.
E mais: “é certo e notório”, você diz, “que este foi
realmente o caso, em algumas instâncias” – ou seja, que
“esses adivinhadores vagabundos enganaram os devotos Patriarcas”.
Senhor, eu devo entrar novamente com minhas observações malucas,
--- A prova! Onde está a prova? Até que ela seja produzida, eu não
posso admitir que “é certo e notório”, mesmo em uma instância
individual.
13.
Vamos observar ainda o que você construiu sob este segundo
tópico. O que você propôs foi “juntar tudo que os Patriarcas
primitivos entregaram, concernente às pessoas, supostamente dotadas
com os dons extraordinários do Espírito”. E como você executou o
que propôs? Você juntou uma citação de um judeu, duas de pagãos,
três - quartos de uma linha de Orígenes, e três linhas de Tertuliano!
Nada, afinal, é verdade, para o ponto em questão. E você não pode
ajudar.
14.
E parece que isto é “tudo que você foi capaz de traçar de
alguns escritores primitivos, com respeito às pessoas dotadas com os
dons extraordinários do Espírito Santo!”.
Permita-me, senhor, aplicar a você o que foi falado em outra
ocasião: “Senhor, o poço é fundo, e você tem nada para alcançar”
-- nem suficiente habilidade, nem diligência e aplicação. Além
disto, você está resolvido a tirar do poço, o que nunca existiu
nele, e, evidente, deverá perder todo seu trabalho.
III
1. “Em Terceiro Lugar”, você pretende “mostrar as
características e opiniões principais daqueles Patriarcas que
atestam esses dons”.
Permita-me lembrá-lo, que você mencionou nove desses – Justino,
Irenaeus, Teófilo, Tertuliano, Minutius Felix, Orígenes, Cipriano,
Arnóbio, e Lactantio. Portanto, agora mostrará quais eram “as
características e opiniões principais desses Patriarcas”.
De fato, eu poderia pensar que as opiniões deles teriam pequena
relação com a questão. Mas, uma vez que você pensa ao contrário, eu
estou preparado para ouvi-lo.
Sua premissa de “que uma testemunha excepcional deve ter”
julgamento e honestidade; e, então, aproximar-se dos Patriarcas
apostólicos, supondo que eles estão do seu lado, esforçar-se para
mostrar que esses outros Patriarcas tiveram nenhum deles.
2. Você começa com Justino Mártir, que, você diz, “afirma
frequentemente que os dons milagrosos de expor as Santas Escrituras
ou os mistérios de Deus foram concedidos a ele, através da especial
graça de Deus”. Do que eu observo: (1) Ainda não é
consenso entre os homens cultos que declarar “os mistérios de
Deus” seja o mesmo que “expor as Santas Escrituras”.
(2) Não está claro que Justino afirme ser dotado de um ou do
outro – pelo menos, não das passagens que você cita. A primeira,
literalmente traduzida, transcorre assim: “Ele nos revelou o que
quer que entendemos das Escrituras também, através de Sua graça”.
A outra: “Eu não tenho tal poder, mas Deus me deu a graça de
entender suas Escrituras”. Agora, senhor, através de quais
dessas, Justino afirma que ele tinha os dons milagrosos de expor as
Escrituras?
3.
Porém, você afirma, seja apenas para ter o prazer de confutar
isto. E, com este objetivo, você cita três passagens dos escritos
dele, em que ele interpreta as Escrituras fracamente o suficiente;
e, então, acrescenta, depois de um elogio lisonjeiro ao Dr. Grable,
e uma tradução mutilada de uma de suas observações. “Suas Obras
são pouco mais do que uma coleção desprezível de interpretações do
mesmo tipo. Ainda assim, esse devoto Patriarca insiste que elas
foram todas sugeridas a ele, dos céus”. Não; nem uma coisa, nem
outra. Nem as interpretações das Escrituras (boas ou más) perfazem a
décima parte de seus escritos; nem ele insiste que todas essas
encontradas nelas, foram sugeridas dos céus a ele. Não se segue de
passagem alguma que você citou ainda; nem do fato de ele dizer em um
caso específico: “Você acredita que eu teria entendido essas
coisas nas Escrituras; se não tivesse, pela vontade de Deus,
recebido a graça para entendê-las?”.
4. E agora, você bate suas asas. “Que crédito”, você
diz, “pode ser devido a este Patriarca, no registro dos dons de
outras pessoas, que tão grosseiramente enganaram, ou, no mínimo,
desejaram enganar outros, nesta atestação confiante de si mesmo?”.
A resposta é clara e óbvia: não está claro que ele atesta a si
mesmo, afinal; consequentemente, até agora, seu crédito continua
imaculado.
“Mas
ele não entendia Hebraico, e deu uma derivação errônea da palavra
Hebraica, Satanás”. Admitindo isto, de que ele não era um bom
etimologista, seu crédito como testemunha pode ser tão bom como
sempre.
5.
Mas, para destruir seu crédito para sempre, você agora avaliará
todas as heresias que ele manteve. E primeiro: “Ele acreditou na
doutrina do Milênio; ou ‘que todos os santos ressuscitariam na
carne, e reinariam com Cristo, no desfrute de todos os prazeres
sexuais, por mil anos, antes da ressurreição geral’”. Essas,
você assinala como sendo as palavras de Justino. Eu assevero a você
que não ter fé é se colocar no mesmo patamar que os hereges, e que
todos os meios que conduzem a tão boa finalidade, como tirar a
heresia cristã fora do mundo, são justos.
É
através deste princípio apenas, que eu posso considerar seu
acréscimo: “Cuja doutrina” (aquela de desfrutar de todos os
prazeres sexuais), “ele deduziu dos testemunhos dos Profetas e de
João, o Apóstolo, e seguida, pelos Patriarcas do segundo e terceiro
século”.
A
doutrina (como você bem sabe) que Justino deduziu dos Profetas e
Apóstolos, e no que ele foi indubitavelmente seguido pelos
Patriarcas do segundo e terceiro séculos é esta:
As almas
daqueles que foram martirizados pelo testemunho de Jesus e pela
palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem receberam sua
marca, viverão e reinarão com Cristo mil anos.
Mas os demais mortos não ressuscitarão até que os mil
anos terminem.
Agora,
dizer que eles acreditavam nisto, não é dizer, nem mais, nem menos,
do que eles acreditavam na Bíblias.
6.
A segunda heresia da qual você o acusa é acreditar que
“aqueles ‘filhos de Deus, mencionados em Gênesis 6:4, dos quais é
dito, ‘Eles vieram até as filhas dos homens e elas geraram filhos
para eles’, eram anjos demoníacos”. E eu admito que ele também
recebeu ligeiramente isto sobre os testemunhos dos comentadores
judaicos. Mas isto prova apenas que ele era falível; não que ele era
um patife, ou que ele não tivesse olhos e ouvidos.
7.
Em Terceiro Lugar, você o acusa de “tratar os livros
espúrios, publicados sob os nomes de Sibyl e Hystespes, com a mesma
reverência que as Escrituras proféticas”. As palavras dele são:
“O poder dos espíritos demoníacos causou morte ao ler os livros
de Hystaspes, ou de Sibyl, ou dos Profetas”. Bem; como isto
prova que ele tratou aqueles livros com a mesma reverência que as
Escrituras proféticas?
“Mas
é certo”, você diz, “que este exemplo e autoridade de Justino
eram mantidos na mais sublime veneração, pelos Patriarcas e
governadores da Igreja, por todas as eras sucessivas”.
Eu não compreendo que isto seja certo. Eu espero sua prova, primeiro
do fato, depois do motivo que você atribui a isto. O próprio fato,
de que “esses livros eram mantidos na mais alta veneração, pelos
Patriarcas e governadores, por todas as eras subseqüentes”, de
modo algum, é provado por aquela simples citação de Clemente
Alexandrino, em que ele persuade os pagãos com os testemunhos de
seus próprios autores, de Sibyl e de Hystaspes. Não podemos inferir
disto que ele mesmo os mantinha “na mais alta veneração”;
muito menos, que todos os Patriarcas o fizeram. E quanto ao motivo
que você assegura para aquela veneração – o exemplo e autoridade de
Justino – você não cita autor de qualquer tipo, bom ou mau. Assim,
aquele que quiser acreditar, pode.
Mas
alguns, você nos diz, “imputam o forjar esses livros, a Justino”.
Fique a vontade para nos dizer igualmente, quem eram esses, e quais
os fundamentos que eles alegaram para aquela imputação. Até então,
não poderá ser de algum significado.
8.
Você o acusa, Em quarto Lugar, “de acreditar naquela história
tola, com respeito à versão Septuaginta do Velho Testamento, dizendo
que ele mesmo, quando em Alexandria, viu os remanescentes das celas
nas quais os tradutores foram encarcerados, e de causar um
considerável erro na cronologia referente a isto”. E se tudo
isto for admitido, e, além disto, que ele “freqüentemente cita
livros apócrifos e cita as Escrituras de memória”, o que você
ganha, com a prova de sua grande conclusão – de que “ele era um
grande tolo, ou um grande patife, para se dar crédito, no tocante à
clara questão do fato?”.
9. Você parece consciente disto, e, portanto, acrescenta, Em
Quinto Lugar: “Talvez, se diga que esses exemplos mostram uma
fraqueza de julgamento, mas não toca o crédito de Justino como
testemunha do fato”. Mas, você não pode juntar alguma coisa, de
todas as esterqueiras da antiguidade que o faça? Eu me atrevo a
dizer que você fará o máximo. E, primeiro, você responde: “A
falta de julgamento apenas pode, em alguns casos, desqualificar um
homem, de ser uma boa testemunha. Assim, o próprio Justino iludiu-se
com aqueles de Alexandria, que lhe mostraram algumas velhas ruínas,
sob os nomes de celas. E assim ele foi por daqueles que lhe disseram
que havia uma estátua em Roma, onde estava inscrito ‘Simoni Deo
Santo’, visto que realmente estava inscrito ‘Semoni Sanco Deo’ a uma
antiga deidade dos Sabinos. Agora”, você diz, “se ele foi
enganado em tais fatos óbvios, quanto mais facilmente seria pelos
impostores habilidosos e astuciosos!”. Muito menos facilmente.
Um homem de bom julgamento pode ser enganado quanto a essas
inscrições de estátuas e pontos da estória primitiva. Mas, se ele
tem apenas olhos e ouvidos, e um pequeno grau de bom-senso, ele não
será enganado com respeito aos fatos, em que ele é testemunha ocular
e auditiva.
10.
Num sopro de despedida, você se esforça para provar, Em Sexto
Lugar, que Justino era patife e tolo. Para isto, você observa que
“ele acusa os judeus de apagarem três passagens da Bíblia Grega; uma
em que permanece lá ainda, e as outras duas não foram omitidas por
alguns judeus, mas acrescidas por alguns cristãos. Mais ainda, que o
habilidoso crítico e teólogo, John Croius [Jean Croius, ou De Croi,
Ministro Protestante de Usez, escreveu obras teológicas em Latin,
morreu em 1659]” você sabe quando conferir apelações
honoráveis), “diz que Justino forjou e publicou esta passagem,
para a confirmação da Doutrina cristã, assim como a maior parte dos
oráculos Sibilinos e as sentenças de Mercúrio”.
Com uma probabilidade ainda maior do que John Croius afirma que
Justino forjou essas passagens, um homem imparcial esperaria que ele
as lesse em suas cópias (embora incorreto) da Bíblia Grega. E, até
que você refute isto ou prove a afirmativa de Croius, você não terá
ido um jota adiante, ainda. Mas, não obstante, você tenha se
esforçado para difamá-lo com respeito à sua moral e discernimento,
ele pode ainda ser um homem honesto e uma excepcional testemunhas
quanto aos fatos claros colocados diante de você.
11.
Em seguida, você nos fala de Irenaeus, e cuidadosamente enumera
todos os erros em seus escritos. (1) Que ele defendeu a
Doutrina do Milênio, e narrou uma fraca fantasia de Papias, a
respeito. (2) Que ele acreditou que nosso Senhor viveu
cinqüenta anos. (3) Que Enoque e Elias subiram aos céus, e
Paulo fora conduzido ao mesmo paraíso do qual Adão foi expulso.
Assim ele poderia, e todos os Patriarcas com ele, sem ser melhor ou
pior. (4) Que ele acreditou na história, com respeito à
versão Septuaginta; e mais, que as Escrituras foram destruídas no
cativeiro Babilônico, mas restauradas novamente, depois de setenta
anos, por Esdras, inspirado para este propósito. “Nisto também”,
você diz, mas não prova, “ele foi seguido pelos principais
Patriarcas que o sucederam; embora não exista alicerce para isto, do
que aquela fabulosa relação no Segundo Livro de Esdras”. (5)
Você acrescenta que “ele acreditou que os filhos de Deus que
vieram até as filhas dos homens eram anjos demoníacos”. E que
todos os primeiros Patriarcas, você está pronto a acreditar,
“incorreram no mesmo erro, pela autoridade do Livro Apócrifo de
Enoque, citado por Judas”.
12.
Não é apenas de sua boa vontade para com Judas ou Irenaeus que
você reúne esses fragmentos de erros, de maneira que nada possa ser
perdido, mas para com todo o corpo de cristãos primitivos. Porque
“todos esses absurdos”, você diz, “foram ensinados
pelos Patriarcas daqueles tempos”, (o que naturalmente implica
todos eles), “como doutrinas da Igreja universal, originadas
imediatamente dos Apóstolos, e tidas como tão necessárias, que
aqueles que defendiam o contrário dificilmente eram considerados
cristãos verdadeiros”. Aqui, eu devo implorar que você prove e
afirme: (1) que todos esses absurdos a respeito do milênio,
no sentido mais grotesco dele, da idade de Cristo, do paraíso, da
destruição das Escrituras, da versão Septuaginta, e dos anjos
diabólicos misturando-se com as mulheres, foram ensinados por todos
os Patriarcas daqueles tempos; (2) que todos aqueles
Patriarcas ensinaram essas como doutrinas da Igreja universal,
originadas imediatamente dos Apóstolos; e (3) que eles todos
negaram que fossem reais cristãos os que defendiam o contrário.
13.
Em seguida, você cita duas interpretações improváveis das
Escrituras e uma fraca, dos escritos de Irenaeus. Mas tudo que as
três provam, é que ele não fala com exatidão de julgamento; não que
ele fosse incapaz de saber o que viu com seus próprios olhos, ou de
verdadeiramente relatar isto aos outros.
Antes de
prosseguir para o que, com igual bom humor e imparcialidade, você
observa, concernente aos demais desses Patriarcas, será apropriado
considerar o que mais entremeia, com respeito a estes, na seqüência
deste argumento.
14.
Em Primeiro, você diz: “Justino usou um argumento
inconclusivo para a existência das almas, depois da morte”. É
possível que ele o fizesse; mas, se era conclusivo ou não, isto não
afeta seu caráter moral.
Você
diz, Em Segundo Lugar: “Era opinião comum de todos os Patriarcas,
tomada da autoridade de Justino Mártir, que os demônios necessitavam
das fumaças dos sacrifícios para fortalecê-los e desfrutarem de seus
prazeres luxuriosos”.
Senhor, nenhum homem de bom-senso acreditará nisto, com respeito a
qualquer um dos Patriarcas, da mera afirmação que você faz.
Portanto, eu desejo que você prove, com mais do que um fragmento de
uma sentença: (1) que o próprio Justino defendeu esta
opinião; (2) que ele a inventou; (3) que esta era a
opinião comum de todos os Patriarcas; e (4) que eles todos a
aceitaram. sob a autoridade de Justino.
15.
Você afirma, Em Terceiro Lugar: “Ele diz que todos os
demônios sujeitaram-se e se submeteram ao nome de Jesus; como também
ao nome do Deus de Abrão, Isaque e Jacó”. Muito provavelmente,
ele poderia.
Por fim.
Você cita uma passagem dele, com respeito ao Espírito de Deus,
influenciando as mentes dos homens santos. Mas nem isto, em alguma
medida, afeta seu crédito como uma testemunha do fato.
Consequentemente, depois de tudo que você tem sido capaz de traçar,
quer de si mesmo, ou de algum dos escritores primitivos, aqui está
uma testemunha de crédito inquestionável, no tocante aos prodígios
forjados na Igreja primitiva, no tocante à subsistência dos dons
extraordinários, depois dos dias dos Apóstolos.
16.
Mas vamos uma vez mais a Irenaeus; porque você não lidou com ele
ainda. “De invenção”, você diz, “Justino tem sido acusado”
(por John Croius e Dr. Middleton), “e pela mesma razão,
Irenaeus; porque qual outro relato pode ser dado de seus freqüentes
apelos à tradição apostólica, para o suporte de tantas doutrinas
inacreditáveis?”. Porque, é muito natural que nos pontos não
essenciais, ele também seguiu facilmente a autoridade de Papias, um
homem fraco, que em fundamentos débeis, acreditou em muitas coisas
levianas, como tendo sido dita ou feitas pelos Apóstolos. E,
admitindo tudo isto, ainda assim, ele não nos deus tão
“lamentável idéia daqueles tempos primitivos, e líderes primitivos
da causa cristã”.
O
mesmo relato pode ser dado de seu equívoco, concernente a idade de
nosso Senhor. Não existe, portanto, razão, nem alguma presença
plausível, para se colocar falsidade sobre ele; e, consequentemente,
até ai, seu crédito como testemunha permanece claro e inatacável.
Mas você
diz, Em Segundo Lugar, “Ele foi um zeloso defensor da tradição”.
Ele poderia, e, ainda assim, ser um homem honesto, mesmo que
equivocado ou não, em supor que Papias tinha sido um discípulo de
João, o Apóstolo.
Em
Terceiro Lugar: Você supõe “que os discípulos de Simão Mago,
assim como Carpocrates usaram de artes mágicas”; que “os
mortos ressuscitavam frequentemente em seu tempo”; que “os
judeus, em nome de Deus, expulsavam demônios”; e que “muitos
tinham o dom de línguas, embora ele mesmo não tivesse”.
17. Esta é toda sua acusação contra Irenaeus. E que alguma
pessoa razoável julgue, se tudo isto nos dá o menor motivo para
questionar, se ele tinha consciência suficiente, para discernir uma
questão clara do fato; ou honestidade, o suficiente, para relatá-lo.
Aqui, então, está uma testemunha mais crível dos dons milagrosos,
depois dos dias dos Apóstolos.
18.
O que você apresenta, concernente à história da tradição, eu não
me preocupo em defender ou confutar. Apenas observar, que você se
esqueceu novamente, onde diz que “as fábulas do milênio, da idade
de Cristo, com muito mais, foram todas defendidas pelos primeiros
Patriarcas”. Por razões de moderação, senhor, reflita um pouco,
antes de falar; e lembre-se que você mesmo nos informou que uma
dessas nunca foi defendida, afinal, a não ser por um único
Patriarca.
19.
“Eu não posso”, você diz, “rejeitar este parágrafo,
sem tomar conhecimento de que este sortilégio foi universalmente
acreditado, através de todas as eras da Igreja Primitiva”. Isto
você mostra, pelas citações de diversos Patriarcas, que, igualmente
acreditaram, como você nos informa, que “os espíritos diabólicos
tinham poder frequentemente, para afligirem tanto os corpos quanto
as mentes dos homens”; que eles representavam os papéis dos
deuses pagãos, e assumiam as formas daqueles que eram chamados de
entre os mortos. Agora, “esta opinião”, você diz, “não é
apenas uma prova da mais grosseira credulidade, mas daquelas
espécies dela que, de todas as outras, colocam um homem mais aberto
à impostura”.
E, ainda assim, esta opinião, como você sabe muito bem, tem seu
fundamento, não apenas nas histórias de todas as eras e todas as
nações, por todo o mundo habitado, mesmo onde o Cristianismo nunca
prevaleceu, mas, especialmente nas Escrituras – em abundância de
passagens do Velho e Novo Testamento, quanto onde os israelitas eram
expressamente comandados a não “permitirem que um feiticeiro
vivesse”; onde Paulo numera “feitiçaria’ com as obras da
carne” (Gálatas 5:19-20), e a classifica juntamente com
adultério e idolatria; e onde João declara: “Ficarão de fora os
feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas”.
(Apocalipse 22:15). Que os deuses dos pagãos são demônios, (I
Cor. 10:30) é declarado expressamente por um daqueles que são
denominados de escritores inspirados. E muitos compreendem que outro
deles nos fornece um claro exemplo de eles “assumirem a forma
daqueles que foram chamados de entre os mortos” (I Samuel
28:13-14).
Do poder
dos espíritos diabólicos de afligirem as mentes dos homens, ninguém
que acredite que existem alguns desses seres pode duvidar. E do
poder de afligirem o corpo, temos abundante prova na história de Jó,
e naquela dos demoníacos bíblicos.
Eu não
pretendo com isto, senhor, acusá-lo de acreditar nessas coisas: você
nos tem mostrado que é inocente nesta questão; e que não presta mais
cuidado àquele antigo livro, a Bíblia, do que ao Segundo Livro de
Esdras. Mas, ai de mim! Os Patriarcas estavam tão longe de serem
iluminados. E porque eles idolatravam aquele velho livro, eles
consequentemente defendiam como verdade, o que você nos assegura que
era mera ilusão e impostura.
20.
“Uma mente”, você diz, “tão completamente possuída por
fantasias supersticiosas, não poderia suspeitar das pretensões
daqueles prestidigitadores vagabundos, que, nos tempos primitivos
eram tão numerosos e tão engenhosamente empregados na ilusão de seus
seguidores. Admite-se que existiam tais impostores em meio aos
pagãos, judeus e cristãos”. Através de quem, senhor, admite-se
que existiam em meio aos cristãos? Através de quem, a não ser Celsus,
afirmou-se tal coisa? Quem o informou que eles cresciam tão
numerosamente e usavam de tais artimanhas em seus empreendimentos?
Para falar a verdade clara, sua mente parece “estar tão
totalmente possuída por” esses “prestidigitadores vagabundos”,
que você não consegue dizer uma palavra a respeito da Igreja
Primitiva, mas eles imediatamente surgem a sua frente, embora não
exista mais prova de que alguma vez existiram do que o de uma bruxa
velejar em uma casca de ovo.
21.
Você conclui este tópico: “Quando os devotos cristãos
chegaram a este cume de credulidade, de acreditar que os espíritos
diabólicos, ou os homens diabólicos podem operar prodígios, em
oposição ao evangelho, a mesma devoção deles os abrigará a admitirem
como milagroso o que quer que seja pretendido forjado na defesa
disto”. Uma vez mais, você declarou: você tem mostrado sem
dissimulação, o que você pensa de Paulo e dos “prodígios de
mentira”. (2 Tessalonicenses 2:9), que ele (pobre
homem!) acreditava que os espíritos diabólicos, ou homens diabólicos
poderiam operar, em oposição ao evangelho; e que João falava tão em
vão daquele que “realiza grandes maravilhas... e enganam aqueles
que habitam na terra”, (ainda que não fosse cristãos),
“através dos prodígios que ele tinha poder para realizar”
(Apocalipse 13:13-14) “E faz grandes sinais, de maneira que
até fogo faz descer do céu à terra, à vista dos homens. E
engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que
fizesse em presença da besta, dizendo aos que habitam na terra que
fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e
vivia”.
22. Agora você concluiu a terceira coisa
que propôs, que foi “mostrar os caracteres principais dos
diversos Patriarcas que atestaram” terem sido testemunhas
oculares e auditivas dos dons extraordinários na Igreja primitiva.
Você
menciona nove desses --- Justino Mártir, Irenaeus, Teófilo,
Tertuliano, Minutius Felix, Cipriano, Orígenes, Arnóbio e Lactantio;
ao mesmo tempo que observa que muitos outros escritores atestaram o
mesmo.
Vamos
deixar a opinião dos outros de lado. Seriam aqueles homens bons e
verdadeiros? Esta é a presente questão.
Você
responde, “Não”; e para provar que esses nove são patifes,
traz diversas acusações contra dois deles, e que foram respondidas
amplamente: algumas, provadas serem falsas; algumas, embora
verdadeiras, ainda assim, não invalidando sua evidência.
Mas,
supondo que abandonemos a evidência desses dois, aqui estão sete
mais ainda a virem.
Mas,
você diz: “Se existissem duas vezes sete, eles apenas repetiriam
as palavras que esses haviam lhes ensinado”.
E
você pergunta: Quão frequentemente, você deve ser lembrado que dizer
e provar são duas coisas distintas? Eu afirmo que, em três ou quatro
opiniões, alguns desses (embora não todos) estavam equivocados,
assim como aqueles dois. Mas isto, de modo algum, prova que eles
eram todos patifes; ou que, se Justino Mártir ou Irenaeus falaram
erradamente, eu não devo dar crédito à evidência de Teófilo ou
Minutius Felix.
23.
Portanto, você realizou uma obra mais imperfeita, se possível,
sobre este assunto, do que sobre o precedente. Você prometeu grandes
coisas, e realizou exatamente nenhuma. Você deixou três quartos de
suas obras, inteiramente intocadas; já que essas duas não são a
quarta parte, mesmo dos escritores que você mencionou como atestando
a continuidade dos “dons extraordinários”, após a era dos
Apóstolos.
Mas você
mencionou aquele embuste, por fim de seus “prestidigitadores
vagabundos” para suprir o defeito de todos os outros argumentos.
A cada menção derrubada, você está certo de colocar sobre nós essas
queridas criaturas de sua própria imaginação. Elas são a força de
sua batalha, sua décima legião. Ainda assim, se um homem
impertinentemente pede por prova da existência deles, se ele se
aproxima e segura as mãos deles, eles imediatamente desaparecem.
IV
Em Quarto Lugar, você “reverá todos os diversos tipos de dons
milagrosos que teriam sido dados, e observará da natureza de cada
um, até onde eles podem razoavelmente serem suspeitados”.
“Esses”, você diz, “são (1) o poder de ressuscitar o
morto; (2) o de curar o doente; (3) de expulsar
demônios; (4) de profetizar; (5) de ter visões; (6)
de descobrir os segredos dos homens; (7) de explicar as
Escrituras; (8) de falar em línguas”.
Eu antes teria um relato dos poderes milagrosos como eles nos são
mostrados na história do Evangelho. Mas este relato você não está
inclinado a dar. Assim, faremos o melhor que pudermos.
Seção I
1.
Quanto ao “ressuscitar o morto”. Irenaeus afirma:
“Isto foi frequentemente realizado, em ocasiões necessárias; quando,
através dos grandes jejuns e súplicas da Igreja, o espírito do morto
retornava a ele, e o homem voltava para as orações dos santos”.
2. Mas você objeta: “Não existe instância a ser encontrada
nos primeiros três séculos”. Eu presumo que você queira dizer
que nenhum historiador pagão o mencionou; porque, quanto aos
historiadores cristãos não terem, eu respondo: (1) Não é
provável que um historiador pagão relatasse tal fato, tivesse ele
conhecimento; (2) É igualmente improvável que ele tivesse;
uma vez que os cristãos sabiam com quem eles lidavam; e que, tivesse
tal instância tornado pública, eles não desfrutariam, por muito
tempo, daquele que retornou para as orações deles. Eles não poderiam
deixar de lembrar o que eles fizeram antes, quando os judeus
buscaram Lázaro também para matá-lo: uma razão óbvia do por que um
milagre deste tipo específico não deveria ser publicado nos
arredores; -- especialmente considerando (3) que ele não fora
designado para a conversão dos ateus, mas, “em ocasiões
necessárias”, para o bem da Igreja, da comunidade cristã. (4)
Tratava-se de um milagre peculiar, acima de todos os outros,
apoiar e confirmar os cristãos, que eram diariamente torturados e
assassinados, mas sustentados pela esperança de obterem uma
ressurreição melhor.
3.
Em Segundo Lugar, você objeta: “Os pagãos constantemente
afirmaram a própria coisa como impossível”. Eles o fizeram. Mas
é “uma coisa incrível para você que Deus possa ressuscitar o
morto?”.
4. Você objeta, Em Terceiro Lugar, que, quando “Autolycus,
um eminente pagão, escassos quarenta anos depois disto, disse a
Teófilo, Bispo da Antioquia: ‘Mostre-me alguém que ressuscitou, para
que eu possa ver e crer’. Teófilo não pôde”. Supondo que ele
não pudesse, eu não vejo no que isto contradiz o testemunho de
Irenaeus; porque ele não afirma (embora você diga que sim) que isto
foi “executado, por assim dizer, em todas as paróquias ou lugares
onde havia uma igreja cristã”. Ele não afirma que isto foi
executado na Antioquia; provavelmente não em alguma Igreja, exceto
onde uma coincidência de circunstâncias importantes requeresse isto.
Muito menos ele afirma que as pessoas ressuscitadas na França
estariam vivas, quarenta anos depois. Portanto -- embora seja
afirmado: (1) que os historiadores daquela época ficaram em
silêncio; (2) que os pagãos disseram que a coisa era
impossível; e (3) que Feófilo não respondeu à provocação do
ateu Autolycus – tudo isto não invalidará, em grau algum, o expresso
testemunho de Irenaeus ou provará que ninguém ressuscitou, desde os
dias dos Apóstolos.
Seção II
1.
“O próximo dom, o da cura, frequentemente executado pela
unção com óleo; em favor do qual”, você observa, “os
testemunhos antigos eram mais completos e expressos”. Mas
“isto”, você diz, “seria considerado, sem um milagre, pela
eficácia natural do próprio óleo”. Eu não duvido. Fique a
vontade para testar quantos que estejam cegos, surdos, mudos, ou
paralíticos, você pode curar desta forma; e a experiência, se não, a
filosofia, lhe ensinará que o óleo não tem tal eficácia natural.
2.
Disto, você não parece insensível, e, portanto, foge para sua
suposição favorita, a de que “eles não foram curados, afinal, e
que tudo não passou de um embuste, do começo ao fim”. Mas,
através de quais argumentos você demonstra isto? O primeiro é:
“Os pagãos pretenderam o mesmo”; não somente isto, e
“manejaram a impostura com tanta artimanha, que os cristãos nem
puderam negar ou detectá-la. Mas insistiram sempre que fora
executada por demônios ou espíritos maléficos”. Mas, ainda
assim, os pagãos mantiveram que “as curas foram forjadas por seus
deuses – por Esculápio, em particular”. E onde está a
diferença, uma vez que, como foi observado antes, “os deuses dos
pagãos não passavam de demônios?”.
3.
Mas você diz: “Embora os monumentos públicos fossem erguidos
em prova e memória dessas curas, quando executadas, ainda assim, é
certo que todos esses milagres pagãos eram pura invenção”. Como
é isto certo? Se você pode absorver isto, sem uma boa prova, você é
muito mais crédulo do que eu. Eu não posso acreditar que todo o
corpo de pagãos, por tantas gerações, estava completamente
destituído de bom-senso, não mais do que da honestidade comum. Por
que você fixaria tal acusação sobre todas as cidades e regiões? Você
não faria mais, se eles tivessem sido cristãos!
4.
Mas, “doenças consideradas fatais e desesperantes eram,
muitas vezes, surpreendentemente curadas”. E, portanto, “não
podemos prestar muita atenção a tais histórias, exceto, se
soubéssemos mais precisamente, neste caso, os reais limites entre
natureza e milagre”. Senhor, eu o entendo bem. A força do
argumento é facilmente vista. Ela aponta para o Mestre e Seus
servos; e pretendem provar que, depois de todo este falatório a
respeito de curas milagrosas, não estamos certos de que eles alguma
vez existiram no mundo. Mas isto não causará dano. Porque, embora
garantamos (1) que alguns se recuperaram, até mesmo, em casos
aparentemente desesperados, e (2) que não conhecemos,
em algum deles, os limites entre natureza e milagre; ainda assim,
não se segue, portanto, que eu não possa assegurar que alguma vez
houve um milagre de cura no mundo. Para explicar isto, através de
exemplo: Eu não sei precisamente, até onde a natureza pode ir, na
cura, ou seja, no restaurar a vista do cego; ainda assim, eu
seguramente sei que, se um homem que nasceu cego é restaurado,
através de uma palavra, não se trata de natureza, mas de milagre. E
para tal história, bem atestada, todos os homens razoáveis prestarão
a maior atenção.
5.
A conclusão a que você chegou sobre este assunto é: (1) a
de que os próprios pagãos tiveram milagres dentre eles; (2)
que o óleo pode curar algumas doenças, através de sua eficácia
natural; e (3) que não podemos saber os limites precisos da
natureza. Tudo isto eu admito. Mas tudo isto não prova que não
existiram curas milagrosas, executadas tanto por nosso Senhor e Seus
Apóstolos, quanto por aqueles que viveram nos três séculos
subseqüentes.
Seção III
1.
O terceiro dos poderes milagrosos que haveria na Igreja
primitiva é o de expulsar demônios. Os testemunhos concernentes a
este são inumeráveis, e tão claros quanto as palavras podem
torná-los. Mostrar, portanto, que todos esses significaram nada, e
que nunca houve expulsão de demônios, afinal, nem através dos
Apóstolos, nem desde os Apóstolos (porque o argumento prova uma
coisa e outra), é uma tarefa merecedora de você. E para lhe dar o
justo louvor, você mostra toda sua força.
2.
E ainda assim, eu não posso deixar de apreender que haveria uma
maneira muito mais curta. Não teria sido mais fácil destruir todos
aqueles testemunhos, a um só golpe, provando que nunca houve
qualquer demônio no mundo? Então, toda a questão de expulsar
demônio teria encontrado seu fim.
Mas é
condescender à fraqueza e preconceito da humanidade que você siga
menos da estrada comum, e apenas observe “que aqueles que
supostamente estavam possuídos estariam doentes de alguma
enfermidade”. E seus sintomas, você diz, “pareciam ser nada
mais do que os sintomas comuns de uma epilepsia”.
Se fosse perguntado: Mas “os discursos e confissões dos diabos e
o fato de responderem todas as questões, não eram sintomas de uma
epilepsia?”, você entra na segunda hipótese, e troca esses,
“pelas artimanhas da impostura e sagacidade entre as pessoas
concernentes no ato”.
Mas não é alguma coisa extraordinária, que os homens, em ataques de
epilepsia pudessem ser capazes de tanta arte e perspicácia? Para
acabar com esta dificuldade, estamos aptos a supor que arte e
perspicácia eram os principais ingredientes; de maneira que devemos
acrescentar apenas uma quantidade suficiente (quantum sufficit) de
epilepsia, e alguma vezes, deixar isto fora da composição.
Mas, e a prova, senhor? Onde está a prova? Eu quero um pouco dela
também. Em vez disto, temos apenas outra suposição – “a de que
todos os Patriarcas eram induzidos por seus preconceitos para
fornecerem tão rápido crédito a essas possessões pretendidas, ou
eram conduzidos pelo zelo, no apoiarem a ilusão que era útil à causa
cristã”.
Eu afirmo que eles tinham pré-conceito em favor da Bíblia; mas,
ainda assim, não podemos concluir fielmente disto, que eles eram um
e todos, continuamente enganados por meramente possessões
pretendidas, ou que eles todos mentiam por Deus – uma coisa
absolutamente proibida naquele livro.
3. Mas “os líderes das seitas”, você diz,
“quaisquer que sejam os princípios que pretendam, raramente têm
escrúpulos ao usarem de uma cômoda mentira”. Eu observo que você
é completamente imparcial aqui. Você não faz exceção de época ou
nação. É tudo uma coisa só, para você, se seu leitor aplica isto ao
filho de Abdala, ou ao filho de Maria. Ainda assim, senhor, eu não
posso deixar de pensar que existia uma diferença. Não sei ao certo
se o judeu era um homem mais honesto do que o árabe; e embora Maomé
tenha usado de muitas mentiras cômodas, ainda assim, Jesus de Nazaré
não o fez.
4. No entanto, “nenhum desses Patriarcas teve escrúpulos
em usar de estilo hiperbólico” (o que significa, em Inglês
claro, mentira),”como um eminente escritor de história
eclesiástica declara”. Você deveria dizer um escritor imparcial.
Porque, quem teria escrúpulos quanto ao caráter do Sr. Le Clerc?
Ainda assim, eu não posso tomar a simples palavra dele e sua por
causa disto. Fique a vontade para produzir uma pequena prova. Até
aqui, você provou absolutamente nada sobre o assunto, mas (como é
comum a você) tomou tudo por garantido.
5. Em seguida, você relata aquela famosa história de
Tertuliano: “Uma mulher foi ao teatro, e retornou possuída de um
demônio. Quando o espírito impuro foi questionado, quanto a se
atrever a assaltar uma cristã, ele respondeu: ‘eu a encontrei em
minha própria casa’”. Depois de relatar outra, que você se
esforça para fazê-lo naturalmente, você insinua que esta foi uma
mera mentira de Tertuliano. Mas como isto é provado? Porque,
“Tertuliano era um inimigo extremo de jogos e espetáculos públicos
de teatro”. Realmente era; mas pode alguém inferir disto que ele
era um inimigo extremo da honestidade comum?
6. Você acrescenta: “Os Patriarcas reconhecem que até
mesmo os judeus, sim, e os pagãos, expulsavam demônios. Agora esses
exorcistas judeus e pagãos eram meros trapaceiros e impostores. Mas
os Patriarcas acreditaram que eles realmente expulsavam demônios. E
se eles podiam tomar seus truques por efeitos de um poder
sobrenatural, eles poderiam bem ser enganados, por seus próprios
impostores. Ou eles achariam conveniente contrapor um impostor com
outro”.
“Enganados”, você diz, “por seus próprios impostores”.
Porque, eu pensei que eles eram os próprios homens que os colocavam
para trabalhar! Aqueles que contrapuseram um impostor com outro!
Alunos aptos que agiram tão bem, até mesmo para enganar seus
mestres! Mas, o que quer que os pagãos fossem, não podemos garantir
que todos os “exorcistas judeus eram impostores”. Quer os
pagãos expulsassem demônios ou não, é certo que os filhos dos judeus
os expulsavam. Eu quero dizer, na suposição, de que Jesus de Nazaré
os expulsou; o que é um ponto a não ser discutido aqui.
7.
Mas “é muito difícil acreditar que os demônios possuíam e
destruíam o gado, como Orígenes declara”. Você poderia dizer o
que Mateus e Marcos declaram concernente ao rebanho de suíno; e,
ainda assim, nos certificamos que você acredita muito dificilmente
nas coisas, do que nisto.
Antes de
acrescentar a tola história de Hilarion e seu camelo [Jerônimo diz
em sua Vita Hilarions Eremitae que um camelo feroz, que pisoteara
muitos, foi trazido amarrado por mais de trinta homens a Hilarion.
Seus olhos eram sangrentos, sua boca espumante. Hilarion despediu-se
dos homens; e quando o camelo investiu contra ele, ele esticou suas
mãos e disse: “Tu não me mortificaras, ó demônio, com teu corpo
grande, quer esteja numa pequena raposa ou em um camelo, tu és um e
o mesmo”. O camelo caiu humildemente a seus pés, com o demônio
expulso. Kingsley não forneceu esta história no Os Eremitas],
você deveria na candura ter informado seu leitor que se discute, se
a vida de Hilarion foi ou não escrita por Jerônimo. Mas seja lá como
for, eu não me preocupo por nenhum deles, porque eles não viveram no
período das três primeiras eras.
8. Eu não sei o que você provou até aqui, embora afirmasse
muitas coisas, e insinuasse outras mais. Mas agora vamos ao cerne da
questão, contida em suas cinco observações.
Você observa:
Primeiro: “Que todos os relatos primitivos de expulsão de
demônios, embora dados por diferentes Patriarcas e em diferentes
épocas, ainda concordam exatamente com respeito a todas as
circunstâncias principais”. E isto você entende seja uma marca
de impostura. “Parece”, você diz, “como se eles copiassem
uns aos outros!”. Agora, um leitor comum teria imaginado que
algum simples relato deste tipo deve ser considerado muito mais (não
menos) crível, devido relatos paralelos, do que muitos severamente
teriam individualmente visto, em diferentes tempos, e em diferentes
lugares.
9. Segundo: “Que as pessoas assim possuídas eram chamadas
de ‘ventriloquistas’” (alguns deles eram), “porque geralmente
acreditavam falarem, através da barriga. Agora, há aqueles”,
você diz, “que pela astúcia e prática, podem falar da mesma
maneira. Se supormos, então, que havia artistas deste tipo em meio
aos cristãos primitivos, quão facilmente, pela correspondência entre
ventriloquista e exorcista, eles iludiriam a maioria sensível de sua
audiência!”.
Mas o que o ventriloquista fazia com sua epilepsia, neste meio
tempo? Você não deve deixar isto passar, porque com muitas
circunstâncias nele, todos esses relatos concordam que não pode ser
toleravelmente considerados sem isto. E, ainda assim, como você fará
com que esses dois concordem? É um ponto merecedor de séria
consideração.
Mas trapaceiros, sem dúvida, eles eram, considerem isto quem puder.
Mas é estranho que nenhum dos pagãos se certificou que a impostura
permanecia completamente oculta, até cento e quatorze anos depois
que os impostores estavam mortos! É digno de uma fé muito grande,
aquele que puder acreditar nisto – aquele que puder supor que nenhum
de todos aqueles impostores poderia, quer através de inadvertência,
ou em meio às torturas da morte, ter, alguma vez, insinuado tal
coisa.
10. Terceiro: “Que muitos demoníacos não poderiam
ser curados, através de todo o poder dos exorcistas, e que as curas,
que se pretendia forjadas em alguém, era apenas temporária, era
apenas a cessação de um ataque específico ou acesso de
intemperança”.
Senhor, você é o mais amável adversário no mundo; porque você
continuamente responde aos seus próprios argumentos. Sua última
observação confrontou todas as que você apresentou antes. E agora
você é tão delicado e confronta esta. Porque, se, afinal, esses
demoníacos eram epiléticos reais, e isto no mais alto grau, de
maneira a serem totalmente incuráveis, no que se transforma a arte e
prática deles, e a mesma boa correspondência entre o ventriloquista
e o exorcista?
Depois
de admitir sua própria suposição, exatamente por quanto tempo possa
ser suficiente para confutar a si mesmo, eu devo agora observar que
ela não é verdadeira. Porque tudo que é evidente do testemunho da
antiguidade é isto: que, embora muitos demoníacos fossem totalmente
libertos, ainda assim, alguns não foram, nem mesmo no século três,
mas continuaram por meses ou anos, com apenas intervalos de
tranqüilidade, antes que fossem inteiramente libertos.
11.
Quarto: “Que o grande número de demoníacos subsistiu naquelas
primeiras eras, cuja principal habitação era, em uma parte da igreja
onde, como em uma espécie de hospital, eles estavam sob os cuidados
dos exorcistas; o que responderá pela confiança daqueles desafios
feitos pelos cristãos, aos pagãos, para que viessem e vissem como
eles expulsavam os demônios deles, enquanto mantinham tais números
deles em constante atenção, sempre prontos para o espetáculo,
provados e disciplinados, por seus exorcistas, a gemerem e uivarem,
e darem respostas apropriadas a todas as questões”.
Assim, agora, a correspondência entre o ventriloquista e o exorcista
fica mais próxima do que nunca! Mas o infortúnio é que esta
observação igualmente derruba completamente aquela que veio antes
dela. Porque, se todos os gemidos e uivos e outros sintomas eram não
mais do que eles “serem disciplinados por seus exorcistas”,
então, não pode ser que “muitos deles não pudessem possivelmente
ser curados por todos os poderes daqueles exorcistas”. O que?
Eles não poderiam possivelmente ser ensinados por seus mestres, a
quando finalizarem, assim como iniciarem o espetáculo? Alguém
pensaria que as curas forjadas nestes teria sido mais do que
temporária. Mais do que isto, é surpreendente que, enquanto eles
tinham tais números deles, eles aceitassem sempre a mesma pessoa
mostrasse duas vezes.
12.
Quinto: “que, considerando que este poder de expulsar
demônios esteve até aqui nas mãos apenas de uma parte pequena do
laicato” (o que necessita de prova), “foi por volta do ano
367, colocado sob a direção do clero; quando foi decretado pelo
Concílio de Laodicéia que ninguém seria exorcista, mas aqueles
indicados (ou ordenados) pelo bispo. Mas, tão logo isto foi feito,
até mesmo por aqueles que favoreceram e desejaram apoiá-lo, então, o
próprio dom decresceu e expirou”.
Aqui, você derruba, não apenas sua observação imediatamente
precedente (como usual), mas igualmente o que observou em outros
lugares – que os exorcistas foram ordenados “por volta da metade
do século três”. Se for assim, qual a necessidade de
decrescê-los agora, cerca de cem anos depois? Novamente: Se os
exorcistas foram ordenados cem anos antes desse Concílio, que
mudança foi feita pelo mesmo? Ou como o poder de expulsar demônios
cessou com ele? Você diz que os bispos ainda favoreceriam e apoiavam
isto. Por que, então, eles não apoiaram? Possivelmente aqueles que
até aqui mantiveram tal número deles no serviço (não os pobres
exorcistas, que eram um nível acima do sacristão). O que aconteceu
com eles depois? Todos os gemedores e uivadores morreram, e não mais
procurados por dinheiro? Ou antes, os bispos, você acredita, se
tornaram sovinas, já que eles ficaram ricos, e assim mantiveram cada
vez menos deles em serviço, até que, por fim, todo o ofício foi
descontinuado?
13.
Estas são suas objeções elaboradas contra a grande promessa de
nosso Senhor: “Em Meu nome, que eles expulsem demônios”;
através do que (para fazer o trabalho certo) você O golpeia e aos
Seus Apóstolos, exatamente tanto quanto aos Patriarcas primitivos.
Mas, por uma estranha confusão de idéias, você provaria tanto quanto
você prova coisa alguma. Ao tentar mostrar todos que reivindicaram
este poder, como tolos e patifes, você deteriorou toda sua causa, e
na ocasião, nem os mostrou ser uma coisa ou outra, uma vez que
metade de seu argumento, continuamente serviu exatamente para
derrubar o outro. De maneira que, afinal, os testemunhos antigos no
tocante a este dom permanecem firmes e inabalados.
Seção IV
I.
Você nos disse acima, que “o quarto dom milagroso foi o de
profetizar; o quinto, de ter visões; o sexto de descobrir os
segredos dos homens”. Mas aqui você os colocou todos juntos,
dizendo que “o próximo dom milagroso é aquele de visões
proféticas e transes extáticos” (êxtase extáticos você deveria
dizer), “e o revelar o coração dos homens”. Mas por que você
força todos os três em um? Porque, você diz, “esses parecem ser o
fruto de um espírito”. Mais certamente eles são, quer do
Espírito da Verdade ou (como você supõe) do espírito da ilusão.
2. No entanto,
com respeito ao segundo desses, sobre o qual você especialmente
discorre (o quinto desses, você especificou antes), tomando pouco
conhecimento do quarto, “profecia”, e nenhum, afinal, do
sexto, “descobrir os segredos dos homens”. Os testemunhos,
portanto, para esses permanecem, em sua força total, já que você nem
mesmo tenta invalidá-los. Com respeito às visões ou êxtases, você
observa: (1) Que Tertuliano chama de êxtase, “uma perda
temporária dos sentidos”. Foi assim, com respeito aos sentidos
exteriores, que eram, então, encarcerados. (2) Que “Suidas”.
[Suídas, viveu por volta de 975-1025, reputado autor de um Léxico
Grego, que contém muitas passagens de autores cujas obras estão
perdidas], (um autor muito antigo, que viveu entre oitocentos e
novecentos anos depois de Tertuliano), “diz que todos os tipos de
loucura, aquelas dos poetas e profetas deveriam apenas ser
desejadas”. Eu estou em dúvida, quanto ao que isto prova. A
questão é: Havia visões na Igreja Primitiva? (3) Que Fil[o, o
judeu, diz (eu literalmente traduzi suas palavras, o que você não o
fez; porque não responderia ao seu propósito): “Quando a luz
divina brilha, a humana se põe; mas quando ela se põe, esta surge.
Isto costuma ocorrer aos profetas”. Bem, senhor, e o que é isto
para a questão? Porque, “dos testemunhos”, você diz,
“podemos compreender que a visão ou êxtase da Igreja primitiva foi
do mesmo tipo daquelas de Delphic Pythia ou de Cumaean Sibyl”.
Muito bem concluído, de fato! Mas eu desejo um testemunho um pouco
melhor do que este, quer de Filo, o judeu, ou Suídas, um lexicógrafo
do século onze, antes que eu acredito nisto. Quão pouco, Tertuliano
tem a ver com respeito a este assunto, você mesmo mostra na próxima
página.
3.
Você diz, (4) “Montanus e seus associados eram os
autores desses transes. Eles, primeiro, levantavam este espírito de
entusiasmo na Igreja, e adquiriam grande crédito, através de suas
visões e êxtases”. Senhor, você se esqueceu: eles não
“levantavam este espírito”, mas antes, Joel e Pedro, de acordo
com aquelas palavras, “os jovens tiveram visões”, antes que
Montanus nascesse.
4.
Você observa, (5) como Tertuliano “aproveitou do
artifício dos visionários extáticos”, e, então, cai sobre
Cipriano, com toda sua força: cujas objeções a ele, agora
consideraremos.
E,
(1) Você coloca como um postulatum que ele “era um aficionado
do poder e autoridade episcopal”. Eu não garanto isto, senhor:
Eu devo ter alguma prova; do contrário esta e todas que você
afirma servirão para nada.
Você
diz, (2): “Em todos os pontos questionáveis da doutrina ou
disciplina, que ele tentava introduzir na adoração cristã, nós nos
certificamos que ele constantemente apelava para o testemunho das
visões e revelações divinas. Assim, ele diz a Caecilius que ele era
divinamente admoestado a misturar água com vinho no sacramento, com
o objetivo de representar isto como eficaz”.
É
uma demonstração suficientemente triste. Porque isto nunca será uma
prova de que Cipriano apelou para visões e revelações, com o
objetivo de introduzir pontos questionáveis de doutrina e
disciplina, na adoração cristã; este ponto era inquestionável, e não
poderia ser “introduzido na adoração cristã”, tendo um lugar
constante nela, como você mesmo mostrou, pelo menos, desde o tempo
de Justino Mártir.
De fato,
nem Justino, nem Cipriano usaram essas palavras, “com o objetivo
de tornar isto efetivo”. Estas são adições engenhosas e honestas
de você mesmo, para criar alguma coisa do nada.
5.
Eu observo que você usa de muita liberdade em sua próxima
citação de Cipriano. “Ele ameaça”, você afirma, “executar
o que ele havia ordenado fazer ‘contra eles na visão’”. Aqui
também as últimas palavras, “na visão”, são acréscimos ao
texto. As palavras de Cipriano são estas: “Eu usarei daquela
admoestação que o Senhor ordenou-me usar”. Mas não foi com o
objetivo de introduzir algum ponto questionável, quer na doutrina ou
disciplina, não mais do que usar da mesma ameaça a Pupianus, que
havia falado mal dele, e deixado sua comunhão.
6.
E você prossegue: “Ele diz igualmente que foi admoestado por
Deus a ordenar Numidicus, um confessor, destinado a morrer, em
parte, queimado, e, em parte, enterrado sob pedras”. Verdade;
mas “que ponto questionável da doutrina ou disciplina”, ele
introduziu por meio disto? Ou ordenando a Celerinus, “dominado e
constrangido, pela divina visão, a aceitar aquele ofício?”.
Assim você afirma que Cipriano diz. Mas não é verdade; ---- pelo
menos, não nestas palavras que você cita, e que, literalmente
traduzidas, transcorrem assim: “Eu recomendei a você, Celerinus,
juntar-se ao nosso clero, não pelo humano sufrágio, mas pelo divino
favor”.
“Em
outra carta, falando de Aurelius, a quem ele ordenara declamador,
ele diz a seu clero e povo, ‘Ao ordenar o clero, meu querido irmão,
eu costumo consultar você, primeiro, mas não há necessidade esperar
pelos testemunhos humanos, quando o divino sufrágio já foi dado”.
Alguém imparcial gostaria de saber o que você quer dizer com essas
cinco passagens, colocadas juntas. Porque, com a ajuda de um pequeno
postulado: “Ele apreciava muito do poder” (você poderia
dizer: “Ele apreciava muito a carnificina”), você tornaria
isto claro: “tudo não passou de um embuste para aumentar sua
autoridade episcopal”. Mas, como este postulado não é permitido,
você tem que recomeçar toda sua obra.
7.
Até aqui, o caráter de Cipriano está incólume; mas você decidiu
dinamitá-lo de uma só vez. Assim, você prossegue: “O mais
memorável efeito de alguma de suas visões foi fugir de sua Igreja no
momento da perseguição. Ele afirma que fora ordenado a se retirar
por uma revelação especial do céu. Sim, este pretexto foi uma mera
ficção, elaborada para aquietar o escândalo que se ergueu, com sua
fuga; e é confutado por si mesmo, quando ele declara que foi o
conselho de Tertullus que prevaleceu sobre ela”.
Aqui você acusa Cipriano de contradizer-se, por afirmar que ele
“se retirou a conselho de Tertullus”; considerando que ele
“afirmara que foi ordenado a retirar-se por uma revelação especial
do céu”. De fato, ele não o fez: não existe necessidade, afinal,
para colocar esta construção nestas palavras: “O Senhor que me
ordenou a me retirar”; o que pode, sem qualquer esforço, ser
entendido de (Mateus 10:23) “Quando eles os perseguirem
nesta cidade, fujam para outra”. Assim sendo, não está
claro que esta acusação, de uma revelação especial, foi alguma vez
apresentada. E se foi, ainda resta provar que “ela não passou de
uma mera ficção”.
8. Ao citar seu editor aqui, você me obriga a acrescentar uma
observação, já que você me oferece uma oportunidade contínua: Se
tanto Rigalt, Sr. Dodwell, Dr. Grabe, Sr. Thirlby, ou algum outro
editor dos Patriarcas alguma vez deixa uma expressão desfavorável ao
autor que ele publica ou ilustra, ela se torna muito preciosa a
você, e certamente você encontra uma oportunidade de expô-la à visão
pública. E todas essas passagens, você cita com este intento. Esses
são, sem dúvida, meros oráculos; portanto, ainda que a mesma pessoa
fale em favor de algum Patriarca, sua autoridade é sem valor. Mas
você “não tem quaisquer dessas artimanhas, que são comumente
empregadas pelos contendores para disfarçarem a má causa!”.
9. O que você relata de Dionísio, Bispo de Alexandria, você
não diz de si mesmo, mas apenas de alguém que viveu próximo,
centenas de anos depois da morte de Dionísio. Portanto, ele não é,
afinal, adequado para isto; como nem eu sou para qualquer visão de
Jerônimo. Mas estou preocupado com sua conclusão:”Se esta foi uma
ficção, então, a de Cipriano também foi”. Não procede assim.
Muitas objeções podem ser colocadas contra alguém, e que nada têm a
ver com respeito ao outro.
10.
Você agora faz uma grande descoberta, a de que “todas as
visões daqueles dias eram elaboradas, ou autorizadas, pelo menos,
pelos líderes da Igreja. Porque elas eram todas aplicadas: (1)
para desculparem a conduta de algumas pessoas, em algumas instâncias
sujeitas à censura; ou (2) para reforçarem alguma doutrina ou
disciplina, imposta por alguém, mas não apreciada por outras; ou
(3) para confirmarem coisas apenas frívolas, e, algumas vezes,
até mesmo supersticiosas e prejudiciais”.
Bem, senhor, aqui está a proposição. Mas onde está a prova? Eu
espero que você a tenha em sua próxima Inquirição Livre; e que você
nos dê alguns exemplos de tais aplicações dos escritores dos três
primeiros séculos.
11.
Não estando disposto a isto no momento, você cai novamente no
pobre “herético Montanus, quem primeiro deu preferência”
(como você exprime) “para as visões e êxtases na Igreja Cristã”.
Assim você nos disse antes. Mas não podemos acreditar nisto
ainda, porque Pedro e Paulo nos dizem o contrário.
De fato,
você não menciona Montanus, porque ele é alguma coisa para a
questão, mas apenas para observar que aqueles que escreveram contra
ele “empregaram tais argumentos contra sua profecia, de maneira a
estremecer o crédito de todas as profecias. Porque Epifânio faz do
próprio critério entre o verdadeiro e o falso profeta, ‘o fato de
que o verdadeiro não tinha êxtases, e mantinha constantemente seus
sentidos, e, com firmeza de mente, apreendia e afirmava os oráculos
divinos’”. Senhor, você não se enganou? Você não transcreveu uma
sentença, e traduziu outra? Aquela sentença que permanece em sua
margem é esta: “Quando havia necessidade, os santos de Deus, em
meio aos Profetas, profetizavam coisas com o Espírito da verdade e
com um profundo entendimento e sensatez de mente”. Agora é
difícil se certificar, como isto vem “abalar todas as profecias”.
12.
Uma vez que: “Antes que os Montanistas tivessem levado tais
êxtases ao descrédito, a profecia do ortodoxo também se manifestava
no êxtase. E assim também as profecias do Velho Testamento, de
acordo com a opinião corrente naqueles primeiros dias”.
De que esta era, então, “a opinião corrente”, você traz três
citações para provar. Mas se você citasse três Patriarcas mais,
durante os três primeiros séculos, expressamente afirmando que os
Profetas eram transportados para fora de seus sentidos, eu não
tomaria a palavra deles. Porque, embora eu considere que a maioria
dos Patriarcas fosse sábia e boa, ainda assim, eu não sei se algum
deles era infalível. Mas mesmo esses três afirmam expressamente
isto? Não, nenhum deles – pelo menos, não nas palavras que você
citou.
De Atenagoras, você cita apenas parte de uma sentença, que,
traduzida, tão literalmente quanto ela pode suportar, transcorre
assim: “Aquele que em êxtase, movido pelo Divino Espírito, falava
coisas com as quais era inspirado, até mesmo como um flautista
respira em uma gaita de fole”. Será que Atenagoras afirma
expressamente nestas palavras, que os Profetas “eram
transportados para fora de seus sentidos?”. Eu espero, senhor,
que você não entenda o Grego. Porque assim, você mostraria aqui
apenas um pouco de ignorância inofensiva.
13.
De Justino Mártir, você cita também apenas parte de uma
sentença. Ele fala muito proximamente a isto: “Que o Espírito de
Deus, descendo dos céus, e utilizando-se dos homens justos, como a
pena golpeia a harpa ou lira, pode nos revelar o conhecimento das
coisas divinas e celestes”. E com isto, Justino afirma
expressamente que todos os Profetas “eram transportados para fora
de seus sentidos?”.
As palavras de Tertuliano são: “Para um homem estar no Espírito,
especialmente quando observa a glória de Deus, ele necessita perder
os sentidos”. Agora, como não está claro que ele quer dizer com
isto, “perder seu entendimento” (sendo, pelo menos,
igualmente provável que ele não pretende mais do que não se utilizar
de seus sentidos exteriores), nem se pode dizer que Tertuliano
expressamente afirma que “Os Profetas eram transportados para
fora de seus sentidos”. Portanto, você não tem mais do que um
Patriarca para atestar o que você afirma ser a “opinião corrente
naqueles dias”.
14. Todo homem de entendimento pode observar uma
circunstância que envolve todas as suas citações. A força de seus
argumentos está na maneira livre e parafrástica de traduzir. A minha
está na tradução mais restrita e literal; de maneira a fortalecer
os meus argumentos, na mesma proporção em que enfraquece os seus;
uma prova clara, como você observa, em outra parte, de que você
“não se utiliza de refinamentos sutis ou construções forçadas”.
15. Retornemos a Cipriano. “Eu não posso deixar de
observar”, você diz, “três mais de suas maravilhosas
histórias. A primeira: a de que um homem que negava Cristo ficou
presentemente mudo: A segunda: uma mulher que também O negava foi
aprisionada por um espírito imundo, e logo depois morreu em grande
angústia: a terceira, da qual ele diz ter sido testemunha, é esta:
-- Os magistrados pagãos deram a uma criança cristã, parte do que
oferecera a um ídolo. Quando o diácono forçou o vinho consagrado
nesta criança, ela foi imediatamente atacada com convulsões e
vômitos; assim como uma mulher que havia abjurado, ao tomar os
elementos consagrados”. As outras duas relações, Cipriano não
afirma serem de seu conhecimento pessoal.
“Agora, o que podemos pensar”, você pergunta, “dessas
estranhas histórias, a não ser que elas foram parcialmente forjadas,
e parcialmente revestidas nesta forma trágica, para garantir a
disciplina da Igreja naqueles tempos de perigo e prova?”.
Porque, muitos acreditarão que algumas delas são verdadeiras, até
pela maneira em que são relatadas; e que, se alguma não era,
Cipriano pensou que fosse, e a relatou na sinceridade de seu
coração. Mais do que isto, alguns acreditarão que a sabedoria de
Deus poderia “naqueles tempos de perigo e prova” operar desta
forma, para a mesma finalidade, “garantir a disciplina da
Igreja”. E até que você mostre falsidade, ou, pelo menos,
improbabilidade, o caráter de Cipriano permanece intocável; não
apenas como homem consciente (o que você mesmo admite), mas,
igualmente, de eminente integridade; e, consequentemente, é
indiscutível que as visões, o quinto dom milagroso, permaneceram na
Igreja, depois dos dias dos Apóstolos.
Seção V
1.
O sexto dom que você enumerou acima, ou seja, o
“discernimento dos espíritos”, você apenas cita, e, então, não
faz uso. O sétimo, é o de “expor as Escrituras”. Você inclui
nele, “ou expor os mistérios de Deus”. Mas, porque ainda não
são concordantes (como foi insinuado acima), embora sejam o mesmo
dom, podem ser deixados fora.
2.
Agora, a isto, você diz: “Não existe traço a ser encontrado,
desde os tempos dos Apóstolos. Porque, até mesmo no segundo e
terceiro séculos, um método mais estúpido e extravagante de expor,
prevaleceu. Porque, quando censuramos algum Patriarca, em especial,
seus apologistas unanimemente alegam: ‘Isto deve ficar por conta da
época em que ele viveu, e que não teria inclinação, ou suportaria
algo melhor’”.
Eu duvido muito, que você possa trazer um simples apologista para
qualquer “comentário ridículo sobre escrito sagrado”, e que
“alegue que o segundo ou terceiro séculos não teriam inclinação
ou suportariam algo melhor”. Mas, se todos eles disserem isto,
em uma só voz, ainda assim, nenhum homem razoável poderia acreditar
neles; porque seria notoriamente contrário à questão do fato.
Podemos admitir que alguns desses Patriarcas, temerosos de uma
maneira muito literal de expor as Escrituras, inclinaram-se, algumas
vezes, para o outro extremo. Mas nada pode ser mais injusto do que
inferir disto que “a época em que viveram não teria inclinação ou
suportaria algo melhor, a não ser os comentários estúpidos,
extravagantes, fanáticos e ridículos sobre os escritos sagrados”.
Você diria que todos os comentários sobre as Escrituras, que ainda
podem ser encontrados nos escritos de Ignácio, Policarpo, Atenágoras,
ou mesmo de Orígenes e Clemente Alexandrino, são estúpidos e
extravagantes? Se não, esta acusação deve cair por chão; uma vez
manifesto que, até mesmo “a época em que eles viveram”
poderia “inclinar-se e suportar” comentários profundos,
conscientes, racionais (ainda que espirituais) sobre o escrito
sagrado.
Ainda
assim, esta acusação extravagante você repetiu várias vezes, nas
diversas partes de sua obra, forçando-a sobre seu leitor, em
qualquer época: quão razoavelmente, que os homens imparciais
julguem.
3.
No tocante ao dom de expor as Escrituras, você diz: “Justino
Mártir afirma que este foi conferido a ele, através da graça
especial de Deus”. Eu não consigo encontrar aqui, onde ele
afirma isto. Não nas palavras que você cita, que, literalmente
traduzidas (como observado antes), transcorrem assim: “Ele nos
revela o que quer que entendamos, através de sua graça; também a
respeito das Escrituras”. Você parece consciente que essas
palavras não provam o ponto, e, portanto, acrescente a elas aquelas
de Monsieur Tillemont [Louis Sebastien de Tillemont (1637-98), o
historiador eclesiástico; ordenado padre em 1676. Ele tomou seu nome
de Tillemont, próximo a Paris, onde se estabeleceu]. Mas suas
próprias palavras, e não outra, me satisfarão. Eu não posso
acreditar nisto, exceto se dito por ele mesmo.
4.
Enquanto isto, eu não posso deixar de observar uma estranha
circunstância - a de que você usa aqui de toda sua força, para
confutar uma proposição que (se verdadeira ou falsa), nenhum de seus
antagonistas afirma. Você se esforça para provar que “não existiu
na Igreja Primitiva tal dom miraculoso como aquele de expor as
Escrituras”. Eu lhe peço, senhor, quem disse que havia? Nem
Justino Mártir; nem um, dentre todos os Patriarcas, os quais você
citou como testemunhos de dons milagrosos, desde a décima até a
décima-oitava página de sua Inquirição. Se você acredita que eles o
fizeram, eu estou pronto para seguir você, passo-a-passo, através de
toda citação que fez.
5.
Não, nem isto é mencionado em algum registro de dons milagrosos
que eu possa encontrar nas Escrituras Sagradas. A Profecia, de fato,
é mencionada mais de uma vez pelos Apóstolos, assim como os
Patriarcas. Mas o contexto mostra, onde ela é prometida como um dom
miraculoso, que isto significa predizer coisas vindouras. Tudo,
portanto, que você diz sobre o assunto é uma mera ‘ignoratio elenchi’,
“um equívoco da questão a ser provada”.
Seção VI
1.
O oitavo e último dos dons milagrosos, você registrou como o dom
de línguas. E isto, é verdade, foi reivindicado pelos primitivos
cristãos; porque Irenaeus diz expressamente: “Nós ouvimos muitos
na Igreja falando em todos os tipos de línguas”. “E ainda”,
você diz, “isto foi afirmado apenas em ocasiões especiais, e,
então, retirado novamente dos próprios Apóstolos; de maneira que, no
curso ordinário do ministério deles, eles eram geralmente
destituídos deste dom.. Isto, você diz, “eu mostrei em outros
lugares”. Eu presumo que em alguns tratados que eu não vi.
2.
Mas Irenaeus, que declara que “muitos tinham este dom, em seu
tempo, ainda afirma que ele mesmo não possuía”. Esta é apenas
uma prova de que o caso foi, então, o mesmo que Paulo observou muito
tempo antes: “Serão todos operadores de milagrafes? Todos têm os
dons de cura? Todos falam em línguas?”. (I Cor. 12: 19-30).
Não, nem mesmo quando aqueles dons se espalharam de uma maneira
mais abundante.
3.
“Mas nenhum outro Patriarca fez a menor reivindicação dele”.
Talvez, nenhum daqueles, cujos escritos existem hoje – pelo
menos, não naqueles escritos existentes. Mas, o que são esses, em
comparação com aqueles que estão perdidos? E quantos foram queimados
nos três primeiros séculos depois de Cristo, que não escreveram
relato deles mesmos, afinal – ao menos, nenhum que chegou em nossas
mãos? Mas, quem são aqueles que falam dele, como um dom peculiar dos
tempos dos Apóstolos? Você diz: “Não existe um único Patriarca
que se aventure a falar dele, de alguma outra maneira”. Bem,
traga-me, ao menos, seis Sacerdotes ante-Nicene, que falaram dele,
desta maneira, e eu desistirei de todo o ponto.
4.
Mas você diz: “Após os tempos apostólicos, não existe, em
toda a história, um exemplo de alguma pessoa específica que alguma
vez exerceu este dom”. Você quer dizer que, tanto os pagãos não
mencionaram exemplo deste tipo (o que não é surpresa, afinal), ou
Irenaeus não menciona os nomes daquelas muitas pessoas, que, em seu
tempo, exerceram este dom. E isto também pode ser admitido, sem
afetar, de alguma forma, a credibilidade de seu testemunho
concernente a eles.
5.
Eu devo observar aqui outra de suas proposições que o conduz a
muitos equívocos. Com respeito aos tempos passados, você
continuamente toma como certo que:: “O que não está registrado,
não aconteceu”. Mas isto é, de modo algum, um axioma
auto-evidente.--- mais ainda, possivelmente, isto não é verdadeiro.
Porque podem existir muitas razões, na profundidade da sabedoria de
Deus, para o Seu fazer muitas coisas, em diversos tempos e lugares,
quer através de Seu poder natural, ou sobrenatural, que nunca foi
registrado, afinal. E muito mais foi registrado, e com a mais
completa evidência, e que, não obstante, não encontramos comprovação
certa agora, no percurso de mil e quatrocentos anos.
6.
Talvez, isto aconteça no próprio caso diante de nós. Muitos
podem ter falado novas línguas, e isto não foi registrado – pelo
menos, os registrados foram perdidos no decurso de muitos anos. Mais
do que isto, não é apenas possível que isto possa ser assim, mas é
absolutamente certo que é: e você mesmo deve reconhecer; porque você
reconhece que os Apóstolos, quando em regiões estranhas, falaram
línguas estranhas – que João, por exemplo, quando na Ásia Menor;
Pedro, quando na Itália (se realmente esteve lá), e outros
Apóstolos, quando em outras regiões, em Parthia, Média Phrygia,
Pamphylia, falaram para os nativos de cada uma delas, em suas
próprias línguas, as maravilhosas obras de Deus. E, ainda assim, não
existe um registro autêntico disto: não existe, em toda a história,
um exemplo bem-atestado de algum Apóstolo exercitando este dom em
qualquer região que seja. Agora, senhor, se seu axioma fosse
admitido, qual seria a conseqüência? Ainda que os próprios Apóstolos
não mais falassem em línguas, do que quaisquer de seus sucessores.
7.
Eu não preciso, portanto, me preocupar a respeito de suas
conclusões subseqüentes, uma vez que elas estão construídas em tal
alicerce. Apenas devo observar um equívoco histórico que ocorre em
toda a sua página seguinte. Desde a Reforma, você diz, “este dom
nunca tinha sido ouvido ou pretendido pelos próprios Romanistas”.
Mas ele foi pretendido (quer merecidamente ou não) por nenhum
outro, embora não pelos Católicos? Ele “nunca foi ouvido, até
aquele tempo? “. Senhor, sua memória falha novamente: sem
dúvida, foi pretendido, e isto, não muito distante, quer de nosso
tempo ou país. Ouviu-se mais que uma vez, não muito longe dos vales
de Dauphiny. E nem cinqüenta anos atrás, desde que os Protestantes
daqueles vales tão ruidosamente pretendessem este e outros poderes
milagrosos, de maneira a causarem perturbação na própria Paris. E
como o rei da França confutou esta presença e impediu de ser ouvida?
Não pela pena de seus estudiosos, mas (uma maneira verdadeiramente
pagã) pelas espadas e baionetas de seus dragões.
8.
Você encerra este tópico com um pensamento muito extraordinário.
“O dom de línguas pode”, você diz, “ser considerado como
um teste apropriado ou critério para determinar as pretensões
miraculosas de todas as Igrejas. Se, em meio aos dons
extraordinários, elas não podem nos mostrar isto, nada têm a mostrar
que seja genuíno.
Agora, eu realmente penso que seja o contrário. Eu acredito que se
trata de uma regra declarada no caso: “Todos esses são operados
por um e o mesmo Espírito, repartindo para cada homem,
individualmente, conforme Sua vontade;” e como é para cada
homem, assim é para cada Igreja, para todo o corpo coletivo de
homens. Mas se assim for, então, o seu teste não é apropriado para
determinar as pretensões de todas as Igrejas: uma vez que Ele opera
conforme Sua vontade, e com Sua permissão, possibilita o dom de
línguas, onde ele não possibilita outro; e vê muitas razões para
fazer isto, quer você e eu as vejamos ou não. Porque, nem sempre
temos conhecimento da mente do Senhor, já que não fazemos parte de
Seus conselheiros. Por outro lado, ele pode conceder muitos outros
dons, onde não é de Sua vontade outorgá-los; especialmente, onde não
for de algum uso, como na Igreja onde todos são de um só pensamento
e falam a mesma língua.
9.
Você finaliza, de certo modo, o que propôs, em quarto lugar, que foi
“rever todos os diversos tipos de dons miraculosos que parecem
ter existido na Igreja primitiva “. De fato, você colocou um ou
dois deles, de passagem: contra os demais você mostrou suas razões
mais fortes. Essas razões têm sido friamente examinadas. No entanto,
que todo homem imparcial, toda pessoa de razão confiável e sem
preconceitos, calmamente considere e julgue, se você distinguiu um
ponto de todos os que você teve em mão, e se alguns milagres de cada
tipo não foram forjados na Igreja primitiva, em vão, você se
esforçou para o contrário.
10.
Da página 127 à 158, você relata milagres que se acredita
forjados no século quatro. Eu não me preocupo com esses; mas devo
pesar um argumento que você mistura com isto, repetidas vezes. Em
essência é: “Se não podemos acreditar nos milagres atestados
pelos recentes Patriarcas, então, não devemos acreditar naqueles que
são atestados pelos primeiros escritores da Igreja”. Eu
respondo: A conclusão é equivocada, porque não se trata do mesmo
caso. Diversas objeções que não dizem respeito ao primeiros, podem
se colocar contra os recentes milagres, -- traçadas tanto da própria
improbabilidade dos fatos, tal como não temos precedente nos
escritos santos, quanto da incompetência dos instrumentos utilizados
para executá-los, tais como ossos, relíquias, ou santos mortos; ou
da grosseira “credulidade de um preconceituoso ou da
desonestidade de um relator interessado.
11. Uma ou outra dessas objeções se mantém contra a maioria
dos recentes, embora não contra os primeiros milagres. E, se apenas
uma se mantém, é suficiente; é o alicerce competente para fazer a
diferença. Se, no entanto, for verdade que não houve um simples
Patriarca do quarto século que não foi igualmente piedoso como a
maioria dos anciãos, ainda devemos consistentemente rejeitar a
maioria dos milagres do século quatro, enquanto admitimos aqueles
das eras precedentes, quer pela maior improbabilidade dos fatos
quanto pela incompetência dos instrumentos.
Mas não
é verdade que “os Patriarcas do século quatro”, os quais você
menciona, eram tão piedosos quanto a maioria das eras precedentes.
Mais do que isto, de acordo com seu relato (que eu não devo agora
contestar), eles não eram piedosos, afinal; porque você diz:
“Eles eram obstinados, mentirosos habituais”. Assim sendo, eles
não tinham um grão de devoção. Agora, que os primeiros Patriarcas
não eram tais, tem sido mostrado largamente; ainda que você os
contemple com o mesmo caráter. Consequentemente, se esses recentes
Patriarcas devem ser acreditados ou não, não podemos seguramente
acreditar nos anteriores, que não se atreveriam a fazer o mal, para
que o bem surgisse ou mentir, quer para Deus ou para o homem.
12.
Não pretendo dizer algo mais, com respeito a qualquer dos
milagres das recentes eras; mas sua maneira de esclarecer um, que se
entende forjado no quinto século, é extremamente curiosa, de maneira
que não posso deixar passar.
A
história parece ser esta: “Hunneric, um príncipe Ariano, em sua
perseguição ao ortodoxo na África, ordenou que as línguas de uma
certa sociedade fossem cortadas pela raiz. Mas, por um exemplo
surpreendente da boa providência de Deus, eles foram capacitados a
falarem articuladamente e distintamente, sem suas línguas. E assim,
continuando a declarar a mesma doutrina que antes, eles não só se
tornaram pregadores, mas testemunhas vivas de sua verdade”.
Não me interprete mal, senhor: Eu não pretendo, afinal, atestar como
verdade este milagre. Eu o deixo exatamente como o encontrei. Mas me
preocupo com sua maneira de considerá-lo.
13.
Primeiro, você diz: “Não é improvável supor que, embora suas
línguas fossem cortadas pela raiz, ainda assim, a sentença não fosse
estritamente executada, de maneira a deixar em alguns deles, tal
porção daquele órgão, suficiente, em um grau tolerável, para o uso
da fala”.
Assim você pensa, senhor, que, se apenas uma polegada da língua do
homem fosse habilmente cortada, ele seria capaz de falar
toleravelmente bem, tão logo a operação terminasse.
Mas a
parte mais maravilhosa ainda ficou para trás. Porque você
acrescenta: “Para chegar mais perto ao ponto, -- se nós
admitirmos que as línguas desses confessores foram cortadas pela
raiz, o que o doutor erudito diria, se este milagre alardeador não
fosse milagre, afinal?”.
“Diria?”. Porque, para que você tenha mais habilidade do
que todos os “errantes prestidigitadores” dos primeiros três
séculos?
Mas
quanto ao ponto: Vamos ver como você se sai a respeito. Uma vez que,
“a língua” (como você justamente observa sutilmente)
“geralmente é considerada como absolutamente necessária ao uso da
fala; de maneira que ouvir os homens falarem, sem ela, passaria
facilmente por um milagre naquela época crédula. Ainda assim, sempre
houve lugar para dúvida, se existiu alguma coisa milagrosa nisto ou
não. Mas temos um exemplo, no presente século, que esclarece todas
as nossas dúvidas e decide inteiramente a questão: Refiro-me ao caso
de uma garota, nascida sem a língua, que falou tão facilmente e
distintamente, como se ela tivesse uma; um relato fornecido pelas
Memórias da Academia de Ciência de Paris”.
14. E você pode realmente acreditar nisto, que uma garota
“falou distinta e facilmente”, sem língua, afinal? E depois de
declarar esta crença, você questiona a credulidade de outros homens?
Eu gostaria de saber, se tal voluntário na fé, poderia se confundir
com alguma coisa. Sem dúvida, fosse isto relatado como natural
apenas, não milagroso, você acreditaria que um homem poderia ver sem
os olhos.
Certamente existe alguma coisa muito peculiar nisto – alguma coisa
extraordinária, embora não milagrosa – que um homem que seja muito
sábio para acreditar na Bíblia, acredite em tudo, mas, com respeito
à Bíblia, eu acreditaria em qualquer narrativa, de maneira que Deus
estaria fora da questão, ainda que improvável, ainda que
impossível!
15. “Eu agora”, você diz, “reuni tudo que eu
coletei para o suporte de meu argumento”; depois de uma
imperfeita recapitulação dele, que você acrescenta com um ar de
triunfo e satisfação: “Eu espero que os Patriarcas, os mais
hábeis defensores que o Papismo pode proporcionar; porque o
Protestantismo, estou certo, não pode suprir quem eles escolherem
para manter na causa deles – ninguém que possa defendê-los, sem
contradizer sua própria profissão e desonrar seu próprio caráter, ou
produzir alguma coisa, a não ser o que merece ser escarnecido,
preferivelmente, a ser respondido”.
Não seria melhor, senhor, não estar completamente certo disto,
ainda? Você nem sempre pode ter o escárnio do seu lado. Você ainda
não está infalivelmente seguro, mas mesmo o Protestantismo pode
produzir alguma coisa merecedora de uma resposta. Podem existir
alguns Protestantes, você sabe, que tenham algum bom-senso restante,
e podem achar uma maneira de defender, pelo menos, os Patriarcas
Ante-Nicene, sem “desonrarem seu próprio caráter”. Mesmo
alguém como eu, tenho tentado fracamente isto; embora nunca tenha,
nem espero ter, qualquer primazia, nem mesmo ser um capelão Lambeth,
o que, se o Dr. Middleton não é, não é por culpa dele.
V
1.
A última coisa que você propôs foi “contestar algumas das
mais plausíveis objeções que foram feitas até hoje”, Ao que
você ofereceu neste tópico, eu devo igualmente tentar uma resposta
breve.
Você
diz: “Primeiro, objeta-se que, pelo caráter que eu tenho dado aos
Patriarcas, a autoridade dos livros do Novo Testamente, que nos
foram transmitidos, através das mãos deles, serão considerados
precários e incertos”.
Depois de simular confundir-se com isto, você francamente reconhece
o todo desta objeção. “Eu posso me aventurar”, você diz,
“a declarar que, se esta objeção for verdadeira, ela não pode ferir
meu argumento. Porque, se for natural e necessário que a simulação e
credulidade das testemunhas possam sempre diminuir o crédito do
testemunho delas, então, quem poderá ajudar nisto? E, se esta
acusação for provada sobre os Patriarcas, ela deve ser admitida, até
onde as conseqüências possam chegar”.
“Se
for provada!”. Muito verdadeiro. Se esta acusação contra os
Patriarcas for realmente e substancialmente provada, a autoridade do
Novo Testamente estaria no fim, até onde ela depende de um tipo de
evidência. Mas esta acusação não está provada. Portanto, mesmo a
autoridade tradicional do Novo Testamento está tão firme como
sempre.
2.
“Em Segundo Lugar, objeta-se”, você diz, “que toda a
suspeita de fraude no caso dos milagres primitivos foi excluída por
aquele apelo e objeção pública que os apologistas cristãos fizeram a
seus inimigos, os pagãos, para que viessem e vissem com seus
próprios olhos a realidade dos fatos que eles atestavam”.
Você responde: “Esta objeção não tem peso real com quem quer que
esteja familiarizado com a condição dos cristãos naqueles dias”.
Você, então, estende-se (como parece, com um prazer peculiar) sobre
a objeção geral e ódio que existe desde a primeira aparição do
Cristianismo no mundo, até que ele foi estabelecido pelo poder
civil.
“Nestas circunstâncias, não se pode imaginar”, você diz, “que
os homens de posição e fortuna prestariam alguma atenção às
apologias ou escritos de uma seita tão extremamente menosprezada”.
Mas, senhor, eles eram odiados, tanto quanto desprezados; e isto
pelo grande vulgar, assim como pelo pequeno. E este mesmo ódio
naturalmente os incitaria a examinarem o fundamento das provocações
diariamente repetidas por aqueles que eles odiavam; fosse apenas
pelo descobrir a fraude (que não lhes faltava oportunidade, nem
habilidade) eles teriam uma razão melhor, para atirar os cristãos
aos leões do que porque o Nilo não inundou ou o Tiber, sim.
3.
Você acrescenta: “Muito menos, podemos acreditar que o
Imperador ou Senado de Roma prestasse alguma atenção a essas
apologias, ou mesmo soubesse, de fato, que alguma tal era endereçada
a eles”.
Porque, senhor, pelo seu relato, você nos faria acreditar que todos
os Imperadores e Senadores, juntos, eram “uma raça insensata e
estúpida de cabeças-duras e brutos”, assim como os próprios
cristãos.
Mas
espere. Você vai provar isto também. “Porque”, você diz,
“se o mesmo caso acontecesse agora, em que algum Metodista, Morávio,
ou profeta francês” (habilidosamente colocados juntos)
“publicassem uma apologia a seus irmãos, endereçada ao Rei e ao
Parlamento, não seria totalmente improvável que o Governo prestaria
alguma atenção a ela?”. Você deveria acrescentar (para traçar um
paralelo completo), “ou saber que alguma tal fora endereçada a
eles”.
Não: Eu entendo a improbabilidade que supostamente se coloca
totalmente do outro lado. O que quer que o Governo dos pagãos
romanos fosse (o que eu presumo você não depreciará), o Governo da
Inglaterra é notável pela ternura para com o súdito mais inferior.
Portanto, não é improvável, de maneira alguma, que um discurso de
algumas centenas desses súditos, e quão desprezíveis fossem, eles
eram geralmente estimados, fosse totalmente desconsiderado por tal
Governo. Porém, que “não soubessem que algum tal fora endereçado
a eles” não é apenas improvável, mas moralmente impossível.
Se,
portanto, fosse possível para os pagãos “terem uma opinião pior
dos cristãos primitivos do que temos”, você diz, “de nossos
fanáticos modernos”, ainda assim, é totalmente inacreditável
que o Governo Romano não apenas “não tomasse conhecimento das
apologias deles”, mas “nem mesmo soubesse que alguma tal fora
endereçada a eles”.
4. “Mas os livros publicados eram mais caros do que são
agora; e, portanto, não podemos acreditar que os cristãos daqueles
dias fossem capazes de proverem tal número deles, suficiente para a
informação do público”.
Mais do que isto, se eles não eram capazes de proverem alimento e
vestimenta para si mesmos, eles certamente proveriam suficiente
número desses – suficiente, pelo menos, para a informação do
Imperador e Senado, aos quais aquelas apologias eram endereçadas. E
quão grande número, você supõe, seria suficiente? Quantas centenas
ou milhares de cópias? Eu penso que o Imperador ficaria contente com
uma; e uma mais seria necessária para o Senado. Agora, eu realmente
acredito que os cristãos daqueles dias eram capazes de prover ambas
essas cópias – ou mesmo duas mais, se ocorresse de dois ou três
Imperadores estarem no trono; embora possamos supor que no tempo de
Tertuliano havia quarenta mil deles em toda a Roma.
5.
No entanto, você se precipita: “Uma vez, então, que os
cristãos não eram capazes de suportar o custo de copiá-las”
(quer os pagãos estivessem dispostos a comprá-las ou não, no
momento está fora de questão), “existe grande motivo para
acreditar que as apologias deles, quão gravemente endereçadas aos
Imperadores e Senados, permaneceram desconhecidas por muitos anos”.
Não existe motivo para se acreditar nisto, de alguma coisa que
você já apresentou. Você acrescenta: “Especialmente quando a
publicação delas não foi apenas cara, mas igualmente criminosa, de
maneira a expô-los frequentemente ao perigo, e mesmo à punição
capital”.
De fato,
senhor, algumas vezes, eu me vejo inclinado a suspeitar que você
mesmo está relacionado com certos Patriarcas antigos (não obstante
as citações doutas que adornam sua margem), que costumavam dizer:
“'Graecum est; non potest leg” – Quem pode andar em suas
pernas traseiras). Assim, você me coloca debaixo de uma
tentação quase invencível de pensar desta forma, por esta mesma
razão. Porque, o que o persuadiria, se você já sabia o que ele
disse, de maneira a colocar no rodapé desta mesma página, uma
passagem de um desses apologistas, Justino Mártir, que tão
claramente contesta seu próprio argumento? As palavras são:
“Embora a morte seja determinada contra aqueles que ensinam e
confessam o nome de Cristo, nós ambos o admitimos e ensinamos em
todos os lugares. E, se você também recebe essas palavras como
inimigas, você nada mais pode nos fazer do que nos matar”.
Poderia o perigo, então, ou o temor da “punição capital”,
impedir aqueles cristãos de apresentarem essas apologias? Não; a
punição capital não era terror para aqueles que diariamente se
ofereciam às chamas, até que os próprios açougueiros pagãos
estivessem cansados de trucidá-los.
Não pode
existir, portanto, sombra de dúvida restante em qualquer homem
ponderado e imparcial, a não se que essas apologias foram
apresentadas à maioria dos pagãos eminentes, aos Magistrados, ao
Senado, aos Imperadores. Nem, consequentemente, existe o menor
motivo para duvidar da verdade dos fatos, uma vez que os apologistas
constantemente desejaram que seus inimigos “viessem e vissem com
seus próprios olhos” -- um risco que aqueles “astuciosos
homens” nunca correriam, não estivessem os próprios fatos
infalivelmente certos. Esta objeção, então, se coloca contra você,
com força total; porque tal apelo público aos mais amargos inimigos
deve excluir toda a suspeita razoável de fraude no caso dos milagres
primitivos.
6.
Você nos diz que se objeta, em terceiro lugar, “que nenhuma
suspeita de fraude pode razoavelmente ser tomada em consideração
contra aqueles que se expuseram ao martírio na confirmação da
verdade que eles ensinavam”.
Com o objetivo de invalidar esta objeção, você afirma que alguns
cristãos primitivos se exporiam ao martírio da mera obstinação,
outros de um desejo de glória, outros por temor da reprovação, mas a
maioria deles da esperança de uma recompensa maior nos céus.
Especialmente porque eles acreditavam que o fim do mundo estava
próximo e que os mártires não sentiriam dor na morte. “Todos
esses tópicos”, você diz, “quando dispostos com arte, eram
suficientes para inflamar a multidão a admitir qualquer martírio”.
Isto parece muito plausível na especulação. Mas o fato e
experiência não responderão. Você é um homem eloqüente, você é capaz
de dispor qualquer tópico que lhe agrade com destreza suficiente.
Ainda assim, se você tentasse com toda aquela arte e eloqüência
persuadir, através de todos esses tópicos, não uma multidão, mas um
simples e crédulo camponês, a aceitar levar um tiro na cabeça, eu
temo que dificilmente o convenceria, afinal, a admitir até mesmo
aquele martírio leve. E seria ainda mais difícil encontrar um homem,
que da obstinação, temor da vergonha, ou desejo de glória, calma e
deliberadamente aceitasse ser queimado vivo em Smithfield.
7.
Você, alguma vez, considerou, senhor, como o caso se situa em
nosso próprio país, nem duzentos anos atrás? Não uma multidão, na
verdade, mas também, não poucos de nossos próprios conterrâneos
expiraram nas chamas. E não houve consenso entre eles, de que os
mártires não sentem dor na morte. Que esses sentiram, assim como
outros homens, apareceu claramente no caso do Bispo Ridley gritando:
“Eu não posso ser queimado! Eu não posso ser queimado!,
quando suas partes inferiores eram consumidas. Você acredita que o
temor da vergonha ou desejo de louvor foi a razão porque isto
aconteceu? Ou você tem motivo para acreditar que foi a mera
obstinação que os impediu de aceitar o livramento? Senhor, “uma
vez que a natureza do homem sempre foi a mesma, assim é que nossa
experiência do que agora se passa em nossa própria alma será a
melhor explicação sobre o que nos é entregue, concernente a outros”,
permita-me pedir-lhe para fazer deste o seu caso. Você não deve
dizer: “Eu não sou um dos vulgares ignorantes; eu sou um homem de
senso e discernimento”. Assim eram muitos deles – não
inferiores, até mesmo, a você, quer nos dons naturais ou adquiridos.
Eu pergunto, então, seriam alguns desses motivos suficientes para
induzi-lo a se deixar queimar em uma estaca? Eu imploro, senhor,
coloque sua mão no coração, e responda, entre Deus e sua própria
alma, qual motivo o estimularia a caminhar para o fogo, a não ser a
esperança total da imortalidade? Quando você menciona este motivo,
você fala direto ao ponto. E, ainda assim, mesmo a este respeito,
você e eu descobriríamos, fosse possível, que a esperança de um
tolo, ou a esperança de um hipócrita não nos serviria.
Descobriríamos que nada mais nos apoiaria naquela hora, a não ser a
confiança bem fundada de uma ressurreição melhor; nada menos do que
“firmemente olhar para os céus, e observar a glória que seria
revelada”.
8. “Mas os heréticos”, você diz, “têm sido
mártires”. Eu responderei mais particularmente, quando você
especificar quem e quando. Pode ser suficiente dizer agora, que,
quem quer que ele seja, que, preferivelmente a ofender Deus, calma e
deliberadamente escolhe a morte, eu não posso alegremente falar mal
dele.
Mas
Cipriano diz: “Alguns que sofreram torturas por Cristo, ainda
assim, mais tarde, caíram em grosseiro e declarado pecado”. Pode
ser que sim; mas isto é nada para a questão. Isto não prova, de
maneira alguma, o que você trouxe para provar – ou seja, “que os
homens ímpios suportaram o martírio”. Não se esquive, senhor, e
diga, “sim, os tormentos são um tipo de martírio”. Verdade,
mas não o martírio do qual falamos.
9.
Você remedia tudo, por fim, declarando gravemente: “Não é meu
objetivo depreciar, de alguma maneira, o justo louvor daqueles
mártires primitivos que apoiaram a causa de Cristo, à custa de suas
vidas”. Não. Quem, alguma vez, suporia isto? Que imaginaria que
era seu objetivo depreciar o justo louvor de Justino, Irenaeus, ou
Cipriano? Você apenas pretendeu mostrar qual era o justo louvor – ou
seja, o louvor dos batedores de carteira, dos trapaceiros comuns e
impostores. Nós entendemos o que você quis dizer, portanto, quando
você acrescenta: “É razoável acreditar que eles eram a melhor
espécie de cristãos, e os principais ornamentos da Igreja em suas
diversas épocas”.
10. Você conclui: “Meu ponto de vista é mostrar que o
martírio deles não acrescenta peso algum ao testemunho deles”.
Quer acrescente ou não, “isto nos dá uma prova mais convincente”
(como você mesmo afirma) “da sinceridade da fé deles”; e,
consequentemente prova que “nenhuma suspeita de fraude pode
razoavelmente ser cogitada contra eles”. Mas esta (que você
parece ter esquecido completamente) era o todo da objeção; e,
consequentemente, esta, assim como as objeções anteriores ,permanece
em sua plena força.
11.
“Objeta-se”, em quarto lugar, você diz, que você
“destrói a fé e o crédito de toda a história”. Mas esta
objeção, que você afirma, “quando seriamente considerada, não
parece ter sentido, afinal, nisto”.
Isto, tentaremos. E uma passagem, direto ao ponto, é tão boa quanto
milhares. Agora, senhor, esteja a vontade para olhar para trás. Em
seu Prefácio, página 9, eu li essas palavras: “A credulidade dos
fatos se coloca aberta ao julgamento de nossa razão e sentidos. Mas
a credulidade das testemunhas depende de uma variedade de
princípios, totalmente ocultos a nós; e, embora em muitos casos,
possamos razoavelmente presumi-la, ainda assim, em nenhum, ela pode
ser certamente conhecida”.
Se isto for como você afirma (eu repito novamente), então, adeus ao
crédito de toda a história. Senhor, isto não é o jargão dos
fanáticos; você não precisa escapar assim: trata-se da clara e
sóbria razão. Se a credulidade das testemunhas, de todas as
testemunhas (porque você não faz distinção), depende, como você
categoricamente afirma, de uma variedade de princípios totalmente
ocultos a nós, e, consequentemente, embora possa ser presumida em
muitos casos, ainda assim, não pode ser certamente conhecida, em
ninguém, então, está certo que toda a história, sagrada ou profana,
é extremamente precária e incerta. Então, eu posso, de fato,
presumir, mas não posso certamente saber, que Julio César foi morto
no Senado; não posso certamente saber que houve um Imperador no
Governo, chamado Charles V, que Leão X, alguma vez, se sentou na
diocese de Roma, ou Luiz XIV no trono da França. Agora que algum
homem de bom-senso julgue se esta objeção tem algum sentido nisto ou
não.
12.
Sob o mesmo tópico, você recai, no caso da feitiçaria, e diz?
“Não existe em toda história, qualquer fato milagroso tão
autenticamente atestado como a existência de bruxas. “Todas as
nações cristãs” (sim, e todas as pagãs) “ o que quer que
sejam, têm consentido na crença delas. Agora, negar a realidade dos
fatos, tão solenemente atestados e tão universalmente acreditados,
parece desmentir o sentido e experiência de toda a Cristandade, as
mais sábias e melhores de todas as nações, e os monumentos públicos
que subsistem até nossos dias”.
O
que o obriga, então, a negar isto? Você responde: “A
incredulidade da coisa”. Ó, senhor, nunca se empenhe na
incredulidade disto, depois de ter aceito centenas de pessoas
falarem sem suas línguas!”.
13.
O que você almeja nisto também está claro, assim como seu relato
da Abadia de Paris. O ponto de seu argumento é: “Se você não pode
acreditar nesses, então, você não deve acreditar na Bíblia; a
incredulidade das coisas relatadas devem destruir todo testemunho,
qualquer que seja”.
Seu argumento, por fim, transcorre assim:
“Se
as coisas forem inacreditáveis, em si mesmas, então, esta
incredulidade deve destruir todo o testemunho concernente a elas”.
“Mas
os milagres evangélicos são inacreditáveis em si mesmos”.
Senhor, esta proposição eu nego. Você não a provou ainda. Você, até
agora, de passagem, fez uma tentativa de prová-la. E até que isto
seja feito, você fez nada com toda a algazarra que criou.
14,
Você reserva o golpe final por último: “Dificilmente existiu
um milagre, forjado nos tempos primitivos, mas o que se diz
executado em nossos dias. Mas todas essas modernas pretensões, nós
atribuímos à causa verdadeira delas – a habilidade de alguns poucos,
em brincarem com a credulidade de muitos, por interesses pessoais.
Quando, portanto, lemos a respeito das mesmas coisas feitas pelos
anciãos, e para as mesmas finalidades – adquirir saúde, crédito, ou
poder – como possivelmente podemos hesitar de imputar a eles, a
mesma acusação de fraude e impostura?”.
A
razão de nossa hesitação é esta: eles não responderam às mesmas
finalidades. O clero moderno de Roma granjeia crédito e saúde,
através de seus milagres simulados. Mas o antigo clero adquiriu
nada, através de seus milagres, a não ser “ferir-se, ser
destituído, ser atormentado”. Um ganhou todas as coisas, através
disto: os outros perderam todas as coisas. E isto, acreditamos, faz
alguma diferença. “Mesmo na presente hora”, diz um deles
(escrevendo àqueles que facilmente o refutaria, se não falasse a
verdade), “ sofremos fome, e sede, e estamos nus, e recebemos
bofetadas, e não temos pousada certa, Sendo injuriados, nós
bendizemos; perseguidos, suportamos, Difamados, suplicamos: nós nos
tornamos como a imundície do mundo, como a escória de todas as
coisas até o presente dia”. (I Cor. 4: 11-13). Agora,
senhor, qualquer que seja o pensamento de outros, nós compreendemos
que tal clero como esse, esforçando-se, até a morte, para tal
crédito e saúde, não deva ser acusado de fraude e impostura.
VI
1.
Agora você finalizou o que teria a dizer, com respeito ao seu
livro. Ainda assim, eu penso que a benevolência requer de mim,
acrescentar algumas poucas palavras, com respeito a alguns pontos
frequentemente tocados nele, que, talvez, você não entende tão
claramente.
Há
muito, temos discutido a respeito dos cristãos, a respeito do
Cristianismo, e a evidência que é, por meio disto, apoiada. Mas o
que esses termos significam? Quem é cristão, de fato? Qual é o
Cristianismo real, genuíno? E qual a evidência mais certa e mais
acessível (se eu posso falar assim), por meio da qual eu posso saber
que provém de Deus? Possa o Deus dos cristãos me capacitar a falar
nesses assuntos, de uma maneira adequada à importância deles!
Seção I
1.
Eu gostaria de considerar, primeiro, o que é um cristão, de
fato? O que este termo propriamente implica? Ele tem sido há muito
abusado, eu temo, não apenas por significar nada, afinal, (e o que é
muito pior do que nada) mas por ser um disfarce para a mais vil
hipocrisia, para as mais grosseiras abominações e imoralidade de
todo o tipo, de maneira que chegou o momento de resgatá-lo das mãos
dos patifes que são uma reprovação à natureza humana, e mostrar
determinadamente como é o homem, para o qual este nome, por direito,
pertence.
2.
Um cristão não pode pensar no Autor de sua existência, sem
humilhar-se diante Dele, sem um profundo senso da distância entre um
verme da terra e Aquele que se senta no círculo dos céus. Na
presença Dele, ele mergulha no pó, reconhecendo que é menos do que
nada a Seus olhos, e consciente, como as palavras podem expressar,
de sua própria insignificância, ignorância, tolice. De maneira que
ele pode apenas clamar, com todo seu coração: “Oh! Deus, o que é
o homem? O que eu sou?”.
3.
Ele tem um senso continuo de sua dependência da Fonte do bem,
para sua existência e todas as bênçãos que a atendem. A Ele, ele
dirige todo dom natural e todo dom moral, com tudo que é comumente
atribuído, tanto a prosperidade, quanto à sabedoria, coragem, ou
mérito do possessor. E consequentemente, concorda, com o que quer
que pareça ser a vontade Dele, não apenas com paciência, mas com
gratidão. Ele prontamente entrega tudo que ele é, tudo que ele tem,
à disposição sábia e graciosa Dele. O temperamento prevalente de seu
coração é a mais absoluta submissão, e a mais terna gratidão ao seu
soberano Benfeitor. E este grato amor cria um temor filial, uma
reverência respeitável em direção a Ele, e um cuidado sincero de não
dar lugar a alguma disposição, nem admite uma ação, palavra, ou
pensamento, que, em algum grau, desagrade aquele poder indulgente,
ao qual ele deve sua vida, respiração e todas as coisas.
4.
E como ele tem a mais forte afeição pela Fonte de todo o bem,
então, ele tem a mais firme confiança Nele – uma confiança que nem o
prazer, nem a dor, nem a vida, nem a morte, podem estremecer. Mas,
ainda assim, muito longe de criar ranhura ou indolência, o
impulsiona para a mais vigorosa diligência. Ela faz com que ele
siga, com toda sua força, na obediência Daquele em quem ele confia.
De maneira que ele nunca enfraquece em sua mente, nunca se cansa de
fazer o que quer que ele acredite seja a vontade Dele. E como ele
sabe que a mais aceitável adoração a Deus é imitá-Lo, ele adora,
assim, ele continuamente se esforça para reproduzir em si mesmo,
todas as perfeições imitáveis Dele – em especial, Sua justiça,
misericórdia, e verdade, tão eminentemente manifestas em todas as
Suas criaturas.
5.
Acima de tudo, lembrando que Deus é amor, ele age de acordo com
a mesma semelhança. Ele é um tolo do amor, para com seu próximo, de
amor universal, não confinado a uma seita ou facção, nem restrito
àqueles que concordam com ele nas opiniões, ou modos de adoração, ou
com aqueles que estão ligados a ele, pelo sangue, e recomendados
pela proximidade de local. Nem ele ama somente aqueles que o amam ou
são estimados por ele, pela intimidade de conhecimento. Mas seu amor
se assemelha ao Daquele cuja misericórdia está sobre todas as Suas
obras. Isto se eleva acima de todos esses limites restritos,
abraçando seu próximo e aos estrangeiros, amigos e inimigos – sim,
não apenas o bom e gentil, mas também o obstinado, o ímpio e o
ingrato. Porque ele ama todas as almas que Deus criou; todo filho
do homem, qualquer que seja o lugar ou nação. E, ainda assim, esta
benevolência universal, de maneira alguma, interfere com seu
peculiar cuidado para com suas relações, amigos, e benfeitores, um
amor fervente por seu país e a mais estimada afeição por todos os
homens de integridade, e de clara e generosa virtude.
6.
Seu amor, para com esses, assim como para com toda a humanidade
é, em si mesmo, generoso e desinteressado, brotando de nenhuma
vantagem para consigo, da não preocupação com relação ao ganho ou
louvor – não, nem mesmo pelo prazer do amor. Esta é a filha, não os
pais, de sua afeição. Mas a experiência que ele tem, concernente ao
amor social, se ele significa o amor ao nosso próximo, é
absolutamente diferente do amor próprio, até mesmo, o do tipo mais
admitido – exatamente tão diferente quanto os propósitos que ele
objetiva. E, ainda assim, é certo que, se eles estão debaixo de
regras justas, cada determinação acrescenta uma força adicional a
outra, até que se unam para nunca mais se separarem.
7.
Este amor universal, desinteressado, é produtor de todas as
afeições corretas. É fecundo de gentileza, ternura, doçura, de
humanidade, cortesia, e afabilidade. Ele faz com que um cristão se
regozije com as virtudes de todos, e desempenha um papel na
felicidade deles, ao mesmo tempo em que é solidário com suas dores e
tem compaixão de suas enfermidades. Ele propicia a modéstia,
condescendência, prudência, juntamente com a calma e uniformidade de
temperamento. Ele é a origem da generosidade, sinceridade,
franqueza, nulo de ciúme e suspeita. Ele produz candura, e prontidão
para acreditar e esperar o que quer que seja agradável e amistoso em
cada homem, e paciência invencível, nunca superando o mal, mas
vencendo o mal com o bem.
8.
O mesmo amor o constrange a conviver, não apenas com um restrito
cuidado para com a verdade, mas com natural sinceridade e genuína
simplicidade, como alguém em quem não existe fraude. E, não contente
em abster-se de todas as tais expressões que sejam contrárias à
justiça ou verdade, ele se esforça para refrear toda palavra
desafetuosa, quer em direção à pessoa presente ou ausente; em todas
as suas relações objetivando isto, quer para aprimorar-se no
conhecimento ou na virtude, ou, de alguma maneira, tornar aqueles
com quem convive, mais sábios ou melhores, ou mais felizes do que
eram antes.
9.
O mesmo amor é produtor de todas as ações corretas. Ele o conduz
para uma sincera e firme execução de todos os ofícios sociais, para
o que quer que seja devido às relações de todos os tipos – com
relação aos seus amigos, seu país, e uma comunidade específica, de
onde ele é um membro. Ele o impede de ferir ou afligir qualquer
homem. Ele o guia para uma prática uniforme da justiça e
misericórdia, igualmente extensiva ao princípio de onde ela flui.
Ele o constrange a fazer todo o bem possível, de todos os tipos
possíveis, a todos os homens; ele se prontifica a fazer ao outro, em
todas as circunstâncias da vida, o que ele desejaria que fosse feito
consigo, se estivesse na mesma situação.
10.
Como ele é afável, para com os outros, ele é afável para consigo
mesmo. Ele está livre das inchações do orgulho, das chamas da ira,
das tempestuosas erupções da obstinação irregular. Ele não é mais
torturado com a inveja ou malícia, ou com o desejo irracional e
danoso. Ele não é mais escravo dos prazeres dos sentidos, mas tem o
completo poder sobre sua mente e corpo, em um contínuo curso
agradável de sobriedade, de temperança e decência. Ele sabe como
usar de todas as coisas em seus lugares, e, ainda assim, é superior
a todas elas. Ele se situa acima desses prazeres inferiores da
imaginação que aprisionam as mentes vulgares, quer surjam daquilo
que os mortais denominam grandeza, novidade ou beleza. Todos esses,
ele pode experimentar, e ainda assim, olhar para o alto, e aspirar
aos nobres prazeres. Muito menos, é escravo da fama; murmúrios
populares não o afetam; ele permanece firme e centrado em si mesmo.
11.
E ele, que não busca o prazer, não pode temer o desprazer. A
desaprovação não o deixa desconfortável, já que está consciente de
que ele não pode prontamente ofender e que tem a aprovação do Senhor
de todos. Ele não teme a privação, sabendo em que mãos estão a terra
e tudo que existe nela, e que é impossível a Deus negar, a alguém
que o teme, o que quer que seja bom. Ele não teme a dor, uma vez que
ela nunca ocorrerá, a menos que seja para seu real proveito, e que,
então, suas forças lhe serão propiciadas para isto, como sempre
ocorreu. Ele não teme a morte; e é capaz de confiar Naquele que ama
com toda sua alma, e seu corpo; sim, satisfeito por deixar o corpo
corruptível no pó, até que ele seja erguido, incorruptível e
imortal. De maneira que, na honra ou vergonha, na abundância ou
necessidade, no conforto ou na dor, na vida ou na morte, sempre, e
em todas as coisas, ele aprendeu a estar satisfeito, a ser afável,
agradecido e feliz.
12.
E é feliz, por saber que existe um Deus, uma Causa inteligente e
Senhor de todos, e que ele não é produto do acaso ou inexorável
necessidade. Ele é feliz, na completa segurança que tem de que este
Criador e Fim de todas as coisas é um Ser de ilimitada sabedoria, de
infinito poder para executar todos os desígnios dela, e de não menos
infinita bondade, no direcionar todos os poderes Dele para o
proveito de todas as Suas criaturas. Mais ainda, até mesmo a
consideração de Sua imutável justiça, retribuindo a todos o que lhes
é devido, de Sua imaculada santidade, de Sua auto-suficiência, e
aquele imenso oceano de todas as perfeições, que se centram em Deus,
de eternidade em eternidade, é o contínuo acréscimo para a
felicidade de um cristão.
13.
Um acréscimo adicional é feito, no contemplar as coisas que o
cercam, enquanto aquele pensamento toca calorosamente seu coração –
Essas são as Tuas gloriosas obras, Pai do bem [Paraíso Perdido];
enquanto toma conhecimento das coisas invisíveis de Deus, mesmo de
Seu eterno poder e sabedoria nas coisas que são vistas – os céus, a
terra, os pássaros, os lírios do campo; enquanto regozija-se do
cuidado constante que Ele ainda tem pela obra de Sua própria mão,
ele irrompe em um êxtase de amor e louvor: “Ó, Senhor, nosso
Governador, quão excelentes são Teus caminhos em toda a terra! Tu
estabeleceste Tua glória acima dos céus!”. Enquanto vê o Senhor
sentado em Seu trono, e governando bem todas as coisas; enquanto
observa a providência geral de Deus co-estendida a toda sua criação,
e examina todos os efeitos dela, nos céus e terra, como um
satisfeito espectador; ele vê a sabedoria e bondade de Seu
governante geral, transmitidas a cada pessoa, governando todo o
universo, assim como governa uma simples pessoa, de maneira a cuidar
de cada pessoa, como se ela fosse todo o universo; -- como ele
exulta, quando revê os vários sinais da bondade Onipotente, na qual
ele tem sobrevivido, nas diversas circunstâncias e mudanças de sua
vida! Tudo que ele agora vê, foi concedido a ele, e repartido em
número, peso e medida. Com que triunfo de alma, na avaliação quer
da providência geral ou particular de Deus, ele observa toda linha
indicando um futuro, toda cena abrindo-se para a eternidade!
14. Ele está estranha e inexprimivelmente
feliz, com a mais clara e completa convicção. “Este Ser todo
poderoso, toda sabedoria, toda graça, este Governador de todos, me
ama. Este amante de minha alma está sempre comigo, nunca se afasta,
nem por um momento. E eu O amo: não existe nada no céu, mas a Ti,
nada na terra que eu deseje além de Ti! E Ele me permitiu
assemelhar-me a Si mesmo; Ele estampou Sua imagem em meu coração. E
eu vivo junto a Ele; eu faço apenas Sua vontade; eu O glorifico com
meu corpo e meu espírito. E não demorará até que eu morra junto a
Ele; eu deverei morrer nos braços de Deus. E, então, adeus pecado e
dor; então, apenas me restará que eu viva com Ele para sempre”.
15. Esta é a simples, a imagem verdadeira de um cristão. Mas
não seja preconceituoso contra ele, por causa de seu nome. Esqueça
suas particularidades de opinião e (o que você pensa) modos
supersticiosos de adoração. Essas são circunstâncias, mas de pequena
preocupação, e não fazem parte da essência de seu caráter. Cubra-as
com o véu do amor, e olhe para a essência – seus temperamentos, sua
santidade, sua felicidade.
Pode a
calma razão permitir mais amabilidade, ou um caráter mais
desejável?
Este é o
seu? Fora com os nomes! Fora com as opiniões! Eu não me preocupo
como você é chamado. Eu não pergunto (isto não merece um pensamento)
de que opinião você é, assim você se conscientiza de que você é um
homem a quem eu tenho sido (embora ligeiramente) descrito.
Você não
sabe que deverá ser desta forma? O Governante do mundo está
satisfeito que você não seja?
Você
(pelo menos) deseja isto? Eu peço a Deus que este desejo possa
penetrar o mais profundo de sua alma, e que você não tenha descanso
em seu espírito, até que você seja, não apenas quase, mas um cristão
completo!
Seção II
1.
O segundo ponto a ser considerado é: Qual o verdadeiro e genuíno
Cristianismo? Que falemos dele como um princípio na alma ou como um
modelo ou sistema de doutrina.
Cristianismo, tomado desta última forma, é aquele sistema de
doutrina que descreve o caráter acima descrito, o que assegura que
ele será meu (desde que eu não descanse até que eu o obtenha), e que
me diz como eu devo alcançá-lo.
2.
Primeiro: Ele descreve este caráter em todas as suas partes, e
isto da maneira mais viva e efetiva. As linhas principais deste
retrato são belamente traçadas em muitas passagens do Velho
Testamento. Essas são empregadas no Novo, retocadas e finalizadas
com toda a habilidade de Deus.
O mesmo
temos em miniatura mais de uma vez, especialmente no 13º. Capítulo
da Epístola primeira aos Coríntios e naquele discurso que Mateus
registra como entregue por nosso Senhor em Sua entrada junto ao Seu
ministério público.
3.
Segundo: O Cristianismo promete que este caráter será meu, se eu
não descansar até que eu o obtenha. Isto é prometido tanto no Velho,
quanto no Novo Testamento. Na verdade, o Novo Testamento é, em
efeito, toda a promessa; uma vez que toda a descrição dos servos de
Deus mencionada nele tem a natureza de um mandamento, como
conseqüência daquelas injunções gerais: “Sejam meus seguidores,
como eu sou de Cristo” (I Cor. 11:1); “Sejam
seguidores daqueles que, pela fé e perseverança herdarão as
promessas” (Hebreus 6:12). E todo mandamento tem a força
de uma promessa, na virtude daquelas promessas gerais: “Um novo
coração eu darei a você; ... e eu colocarei Meu Espírito em você, e
farei você caminhar em Meus estatutos, e você manterá Meus
julgamentos, e os cumprirá”. (Ezequiel 36:26-7); “Esta
é a aliança que eu farei, depois daqueles dias, diz o Senhor; eu
colocarei Minhas leis em suas mentes, e as escreverei em seus
corações” (Hebreus 8:10). Assim sendo, quando se diz:
“Deverás amar ao Senhor teu Deus com todo teu coração, e com toda
tua alma, e com toda tua mente” (Mateus 22:37), não é
apenas uma orientação que eu deverei seguir, mas uma promessa do que
Deus fará em mim; exatamente equivalente com o que está escrito:
“O Senhor, teu Deus, circuncidará teu coração, e o coração de tua
semente” (aludindo ao costume, então, em uso), “para amares o
Senhor teu Deus, com todo teu coração, e com toda tua alma”.
(Deuteronômio 30:6).
4. Isto, observado, rapidamente aparecerá, a toda pessoa
séria que lê o Novo Testamento, que aquele cuidado, que a
importância do assunto demanda, e todo ramo específico do caráter
precedente estão manifestamente prometidos nele, quer
explicitamente, sob a forma de uma promessa, ou virtualmente, sob
aquela da descrição ou mandamento.
5.
O Cristianismo me diz, em Terceiro Lugar, como eu posso
obter a promessa --- ou seja, através da fé.
Mas o
que é fé? Não uma opinião, não mais do que ela é uma forma de
palavras; não algum número de opiniões, colocadas juntas, sejam elas
sempre tão verdadeiras. A corrente de opiniões não é fé cristã, mais
do que uma corrente de rosários seja santidade cristã.
Não é um
consenso para qualquer opinião, ou qualquer número de opiniões. Um
homem pode concordar com três ou vinte e três credos, ele pode
concordar com todo o Velho e Novo Testamento (pelo menos, até onde
ele os entende), e, ainda assim, não ter fé cristã, afinal.
6.
A fé, através da qual a promessa é obtida, é representada pelo
Cristianismo como um poder, forjado pelo Altíssimo, em um espírito
imortal, habitando uma casa de barro, para que ele possa ver,
através daquele véu, dentro do mundo dos espíritos, dentro das
coisas invisíveis e eternas; um poder para discernir aquelas coisas
que com os olhos da carne e sangue, nenhum homem viu ou poderá ver,
em razão da natureza delas, que (embora nos cerquem de todos os
lados) não é perceptível por aqueles sentidos grosseiros, ou em
razão de sua distância, já que está ainda muito longe no seio da
eternidade.
Crer (no
sentido cristão) é, então, caminhar na luz da eternidade, e ter um
claro sinal e confiança no Altíssimo, reconciliado comigo, através
do Filho de Seu amor.
8.
Agora, quão sublime tal fé, fosse apenas vista sobre seu próprio
relato! Quão pouco, o mais sábio dos homens conhece de alguma coisa
mais do que ele pode ver com seus olhos! Quantas nuvens e escuridão
cobrem todo o cenário das coisas invisíveis e eternas! O que ele
conhece, mesmo de si mesmo, quanto à sua parte invisível? O que, de
seu modo futuro de existência? Quão melancólico relato, o filósofo
curioso e culto (talvez, o mais sábio e melhor de todos os pagãos),
o grande, o venerável Marco Antonio, fornece dessas coisas! Qual foi
o resultado de todas as suas buscas sérias, de suas contemplações
sublimes e profundas? “Tanto a dissipação da alma, assim como do
corpo, na massa comum, irracional; ou a re-absorção no fogo
universal, a fonte ignorante de todas as coisas; ou alguma maneira
desconhecida da existência consciente, depois que o corpo sucumbe
para não mais se levantar!”. Um desses três, ele supôs deve
suceder a morte; mas o que ele não tinha luz para determinar. Pobre
Antonio! Com toda sua riqueza, sua honra, seu poder; com toda sua
sabedoria e filosofia, -
Quais pontos do conhecimento
ele ganhou?
Aquela vida é toda sagrada – e vã:
Sagrada, quão sublime, e vã, quão miserável
Ele
não poderia dizer, mas morreu para saber” [Epitáfio de Gambold:
onde na linha 2 está: “era”, não, “é”; e na linha 4,
“Ele não sabia aqui, mas morreu para saber”].
9.
“Ele morreu para saber!”. E, assim, você deve, exceto se
você é agora um parceiro da fé cristã. Ó, considere isto! Mais
ainda, considere, não apenas quão pouco você sabe da imensidão das
coisas que estão além dos sentidos e tempo, mas quão incertamente
você conhece, até mesmo deste pouco! Quão fracamente brilhante é a
luz que você tem! Pode se dizer propriamente que você conhece alguma
dessas coisas? Será este conhecimento algo mais do que mera
conjectura? E a razão é simples: Você não tem sentidos adequados aos
objetos invisíveis e eternos. Quão necessários, então, especialmente
ao racional, a parte refletiva da humanidade, são esses – para um
conhecimento mais extensivo das coisas invisíveis e eternas, uma
maior certeza em qualquer que seja o conhecimento delas que
tivermos, e (com finalidade de ambos) para a capacidade de discernir
as coisas invisíveis!
10.
Não é desta forma? Que a razão imparcial fale. Todo homem
pensante não deseja uma janela, não tanto no peito de seu vizinho,
como em seu próprio peito? Ele deseja uma abertura lá, de qualquer
tipo, que possa conduzi-lo na luz da eternidade. Ele está
atormentado, porque este sentimento em busca de Deus é tão obscuro,
tão incerto; por saber tão pouco de Deus, e mesmo tão pouco de algo
além dos objetos materiais. Ele está preocupado que ele deva ver
mesmo aquele pouco, não diretamente, mas em um espelho dos sentidos,
turvo, manchado; e, consequentemente, tão imperfeita e obscuramente
daquilo que é tudo mero enigma ainda.
11.
Agora, a própria fé supre o que é necessário. Ela fornece um
conhecimento mais extensivo das coisas invisíveis, mostrando o que
os olhos não tinham visto, nem os ouvidos, ouvido, nem poderiam,
antes de entrar em nosso coração, conceber. E todos esses, ela
mostra em uma luz mais clara, com a mais completa certeza e
evidência. Porque não nos deixa receber nossas notificações deles,
pela mera reflexão de um espelho pouco transparente dos sentidos;
mas soluciona milhares de enigmas, da mais alta preocupação,
fornecendo faculdades adequadas às coisas invisíveis. Oh! Quem não
desejaria receber tal fé, fosse ela apenas por esses relatos! Quanto
mais, se, através disto, eu posso receber a promessa, para que eu
possa alcançar toda aquela santidade e felicidade!
12.
Assim, o Cristianismo me diz; e assim, eu o encontro, possa todo
cristão verdadeiro dizer. Eu agora estou seguro de que essas coisas
são assim: eu as experimento em meu próprio peito. O que o
Cristianismo prometeu (considerado como uma doutrina) é finalizado
em minha alma. E o Cristianismo, considerado como um princípio
interior, é a conclusão de todas essas promessas. Ele é santidade e
felicidade, a imagem de Deus, impressa em um espírito criado, uma
fonte de paz e amor, brotando na vida eterna.
Seção III
1.
E isto eu concebo ser a mais forte evidência da verdade do
Cristianismo. Eu não subestimo a evidência tradicional. Que ela
tenha seu lugar e sua devida honra. É altamente útil em seu tipo e
em seu grau. E, ainda assim, eu não posso colocá-la no mesmo nível
desta.
Geralmente se supõe que a evidência tradicional seja enfraquecida
pelo tempo, quando necessariamente deva passar por muitas mãos, em
uma sucessão contínua de eras. Mas nenhum decurso de tempo pode
provavelmente afetar a força desta evidência interna. É igualmente
forte, igualmente nova, embora o curso de mil e setecentos anos. Ela
é transmitida agora, como foi no início, diretamente de Deus, para a
alma do crente. Você acredita que o tempo alguma vez secará esta
correnteza? Oh, não! Ela nunca será interrompida:
Labitur et
labetur in omne volubilis aevum. [Horace's Epistles, I. ii. 43:
“Ela flui e fluirá para sempre”']
2. A evidência tradicional é de uma natureza extremamente
complicada, necessariamente incluindo tantas e tão várias
considerações, que apenas homens de um forte e claro entendimento
podem estar conscientes de sua força total. Do contrário, quão claro
e simples é isto! E quão inabalável para a mais medíocre capacidade!
Não é esta a conclusão – “Uma coisa eu sei; eu estive cego, mas
agora vejo!”. Um argumento tão claro, que um lavrador, mulher ou
criança podem sentir toda sua força?
3. A evidência tradicional do Cristianismo se situa, por
assim dizer, bem fora do caminho; e, portanto, embora fale alto e
claro, ainda causa uma impressão menos vívida. Ela nos dá um relato
do que foi traduzido há muito, em tempos e lugares muito distantes.
Visto que a evidência interior está intimamente presente a todas as
pessoas, em todos os tempos e em todos os lugares. ‘Está em ti,
em tua boca, e em teu coração, se tu creres no Senhor Jesus Cristo’;
“Este”, então, “é o registro”, esta é a evidência,
enfaticamente assim chamada, “de que Deus nos deu vida eterna; e
esta vida está em Seu Filho”.
4. Se, então, fosse possível (o que eu compreendo que não é)
estremecer a evidência tradicional do Cristianismo, ainda aquele que
tem uma evidência interna (e todo crente verdadeiro tem o testemunho
ou evidência em si mesmo) permaneceria firme e inabalável. Ainda ele
diria para aqueles que foram golpeados pela evidência externa:
“Fira Anaxágoras”. [Anaxágoras (500-456 a.C), o mais ilustre
dos filósofos Iônicos; teve Eurípides, Péricles, e possivelmente
Sócrates, em sua escola filosófica em Atenas. Ele acreditou que
todos os corpos eram compostos de átomos, moldados através do nous,
ou mente. Ele foi condenado por impiedade, e apenas se salvou da
morte, pela influência e eloqüência de Péricles]. Mas você não pode
mais ferir minha evidência de Cristianismo do que o tirano poderia
ferir o espírito daquele homem sábio.
5. Algumas vezes, quase me sinto inclinado a acreditar que a
sabedoria de Deus tem permitido, nas últimas eras, que a evidência
externa do Cristianismo seja mais ou menos obstruída e dificultada
para esta mesma finalidade, a de que os homens (da reflexão
especialmente) não repousem nisto, mas sejam constrangidos a olharem
dentro de si mesmos também, e a atenderem à luz brilhando em seus
corações.
Mais do que isto, ele parece (se nos fosse permitido inquirir as
razões das dispensações divinas) que, especialmente nesta época,
Deus permitiu que todo tipo de objeções fosse erguida contra a
evidência tradicional do Cristianismo, que os homens de
entendimento, embora não desejosos de desistirem dele, ainda assim,
ao mesmo tempo, defendiam esta evidência, não pudessem descansar
toda a força da causa deles nisto, mas buscar um suporte mais
profundo e firme para ele.
6. Sem isto, eu não posso deixar de duvidar, quer possam
manter a causa deles por muito tempo; quer, se eles não obedecerem
ao alto chamado de Deus, e colocarem muito mais ênfase do que
fizeram até aqui nesta evidência interna do Cristianismo, que eles,
um após o outro, não desistirão da evidência externa, e (no coração,
pelo menos) ganharão a aceitação daqueles com os quais contendem; de
maneira que, em um século ou dois, o povo da Inglaterra estará
fielmente dividido em verdadeiros deístas e reais cristãos.
E
eu compreendo que isto não seria perda, afinal, mas, antes, uma
vantagem para a causa cristã; mais ainda, talvez, fosse a maneira
mais rápida, sim, a única maneira efetiva de trazer todos os deístas
razoáveis para se tornarem cristãos.
7. Posso me permitir falar livremente? Posso eu, sem ofensa,
perguntar a vocês, chamados cristãos, qual perda real vocês
sofreriam ao desistirem de sua atual opinião, de que o sistema
cristão é de Deus? Embora vocês carreguem o nome, vocês não são
cristãos; vocês não têm nem a fé, nem o amor cristão. Vocês não têm
a divina evidência das coisas invisíveis; vocês não entraram no mais
santo, através do sangue de Jesus. Vocês não amaram a Deus com todo
seu coração; nem a seu próximo como a si mesmo. Vocês não são
felizes, nem santos. Vocês não aprenderam, em qualquer condição, a
estarem contentes; a se regozijarem sempre mais, mesmo na
necessidade, dor, morte; e em todas as coisas darem graças. Vocês
não são santos no coração; superiores ao orgulho, a ira, aos desejos
tolos. Nem vocês são santos na vida; vocês não caminham como Cristo
também caminhou. A maioria de seu Cristianismo não se situa em sua
opinião, adornado com algumas poucas observâncias exteriores? Porque
quanto à moralidade, até mesmo a moralidade honesta, pagã (Ó,
deixe-me afirmar uma melancólica verdade!), muitos daqueles a quem
vocês denominam deístas, existem razões para temer, têm muito mais
dele do que vocês.
8. Sigam em frente, cavalheiros, e prosperem. Envergonhem
esses cristãos nominais, por esta pobre superstição a qual eles
chamam de Cristianismo. Justifiquem, zombem, riam deles, por causa
de suas formas mortas, vazias, nulas de espírito! De fé, de amor.
Convençam-nos de que tal desprezível esplendor (porque tal
manifestadamente é, se existe nada no coração correspondente com a
mostra exterior) é absolutamente sem valor, vocês não precisam falar
a Deus, mas a algum homem que seja dotado de entendimento comum.
Mostrem a eles que enquanto se esforçam para agradar a Deus assim,
eles estão apenas golpeando o ar. Conheçam seu tempo; pressionem;
impulsionem suas vitórias, até que vocês tenham conquistado todos
que não conhecem a Deus. E. então, Ele, a quem nem eles nem vocês
conhecem agora, erga-se e envolva-se com força e prossiga em Seu
amor onipotente, e docemente conquiste vocês todos.
9. Oh! Se chegasse o tempo! Há quanto tempo, eu espero que
vocês sejam parceiros das excessivamente grandes e preciosas
promessas! Quanto eu me afligi, ao ouvir algum de vocês usar
daqueles termos tolos que os homens da forma têm lhes ensinado,
chamando a menção da única coisa que vocês desejam, “jargão”!
A mais profunda sabedoria, a mais sublime felicidade de
“fanatismo”. Que ignorância é isto! Quão extremamente
desprezível ele os tornariam aos olhos de qualquer um, a não ser de
um cristão! Mas não pode decepcioná-lo, aquele que o ama como sua
própria alma, que está pronto a dar sua vida por sua causa.
10. Talvez, você diga “Mas esta evidência interna do
Cristianismo afeta apenas aqueles nos quais a promessa é cumprida.
Ela não é evidência para mim”. Existe verdade nesta objeção. Ele
afeta a eles, principalmente, mas não afeta apenas a eles. Ele não
pode, na natureza das coisas, ser tão forte evidência a outros como
é para eles. Mas, ainda assim, pode trazer um grau de evidência,
pode refletir alguma luz sobre você também.
Porque
(1) Você vê a beleza e amabilidade do Cristianismo, quando
ele é corretamente entendido, e você tem certeza de que não existe
coisa alguma a ser desejada em comparação a ele.
(2)
Você sabe que as Escrituras prometem isto, e diz que isto é
obtido pela fé, e por nenhum outro modo.
(3)
Você vê claramente quão desejável é a fé cristã, até mesmo sobre
o relato de seu próprio valor intrínseco.
(4)
Você é testemunha de que a santidade e felicidade acima
descritas podem ser obtidas de outra forma. Quanto mais você se
esforça em busca da virtude e felicidade, mais convencido você fica
disto. Até ai, você não precisa apoiar-se em outros homens; até ai,
você tem a experiência pessoal.
(5)
Que razoável segurança você pode ter das coisas em que você não
tem experiência pessoal? Suponha que a questão existisse, pode o
cego ser restaurado na visão? Isto você não experimentou em si
mesmo. Como, então, você saberá que tal coisa sempre existiu? Pode
existir uma maneira mais fácil e certa do que falar com alguém ou
algum número de homens que era cego, mas agora está restaurado para
a visão? Eles não podem estar enganados quanto ao fato em questão; a
natureza da coisa não deixa dúvida para isto. E, se eles eram homens
honestos (o que você pode saber de outras circunstâncias), eles não
o enganarão.
Agora,
transfira isto para a causa diante de nós: e aqueles que eram cegos,
mas agora vêem – aqueles que estavam doentes, por muitos anos, mas
agora estão curados – aqueles que eram miseráveis, mas agora estão
felizes – propiciarão a você também, uma forte evidência da verdade
do Cristianismo, tão forte quanto pode ser na natureza das coisas,
até que você experimente em sua própria alma; e isto, embora se
admita que fossem apenas homens simples, e, em geral de fraco
entendimento – e mais, embora alguns deles se equivocassem em outros
pontos, e mantivessem opiniões que não podem ser defendidas.
11.
Tudo isto podemos admitir, com respeito aos Patriarcas
primitivos; eu me refiro, especificamente Clemente Romano, Ignácio,
Policarpo, Justino Mártir, Irenaeus, Orígenes, Clemente Alexandrino,
Cipriano; aos quais eu acrescentaria Macário e Efraim Sirus.
Eu
admito que alguns desses não tinham uma compreensão natural forte,
que poucos tinham muito aprendizado, e nenhum as assistências que
nossa época desfruta, em alguns aspectos, acima de todos que vieram
antes.
Consequentemente, eu não duvido que quem quer que se esforce para
ler os escritos deles para esta pobre finalidade, encontrará muitos
equívocos, muitas suposições fracas e muitos conclusões mal
traçadas.
12.
Mas, ainda assim, eu reverencio excessivamente a eles, assim
como seus escritos, e os considero altamente no amor. Eu os
reverencio, porque eles eram cristãos, tais cristãos como estão
acima descritos. E eu reverencio seus escritos, porque eles
descreveram o verdadeiro, genuíno Cristianismo, e nos direcionaram
para a mais forte evidência da doutrina cristã.
De fato,
ao discursar aos pagãos daqueles tempos, eles misturaram outros
argumentos; especialmente, aqueles traçados dos numerosos milagres
que eram, então, executados na Igreja, para os quais eles
necessitavam apenas abrir os olhos, e verem diariamente forjados na
face do sol.
Mas eles
não desistiram disto ainda: “O que as Escrituras prometem, eu
desfruto. Venham e vejam o que o Cristianismo tem feito aqui, e
reconheçam que ele é de Deus”.
Eu
reverencio esses cristãos primitivos (com todas as suas falhas), e
mais, porque eu vejo tão poucos cristãos agora; porque eu leio tão
pouco dos escritos dos últimos tempos, e ouço tão pouco do
Cristianismo genuíno; e porque a maioria dos modernos cristãos
(assim chamados), não contente de ser totalmente ignorante dele, é
profundamente preconceituosa contra ele, chamando-o de
“fanatismo” e não sei o que.
Que o Deus do poder e amor possa tornar ambos, e você e eu, tais
cristãos como aqueles Patriarcas foram, é a oração sincera,
reverendo senhor, de
Seu verdadeiro amigo e servo
24 de Janeiro de 1749
J.Wesley
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Tradução: Izilda Bella
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